Televisão

De “Beverly Hills” a “Emily em Paris”: o aspirante a ator que só cria séries de sucesso

Aos 61 anos, Darren Star é um dos mais conceituados produtores e argumentistas da televisão, mas sempre sonhou estar do outro lado da câmara.

Tinha apenas 12 anos quando fez o seu primeiro casting. Era uma peça modesta, em cena na Universidade George Washington, mas suficientemente longe de casa para se tornar numa dor de cabeça, caso conquistasse o papel. Foi isso que aconteceu.

“Pedi aos meus pais para ir e eles levaram-me. Provavelmente arrependeram-se, porque fui escolhido e passaram a ter que me levar lá três vezes por semana para os ensaios”, conta Darren Star ao “The Wall Street Journal”.

O americano haveria de seguir outro rumo e outro sonho, mas igualmente ligado à indústria cinematográfica. Trocou de lado e passou para trás da câmara e dedicou-se a uma carreira com mais de três décadas no papel de argumentista, realizador e produtor.

Os anos 90 foram prolíficos para Star, que se estreou como criador da icónica série “Beverly Hills, 90210”, “Melrose Place” e aquele que se transformaria no seu maior sucesso, “O Sexo e a Cidade”. A onda de êxitos não abrandou com o virar do século.

Mais recentemente, em 2015, lançou “Younger”, e cimentou-se como um produtor da era do streaming. Assinou o êxito “Emily em Paris” e, em apenas dois anos, apresentou também “Uncoupled”, igualmente na Netflix. Star tornou-se num dos incontestados reis dos dramas românticos com uma queda para a comédia. O dom foi quase sempre evidente.

“Mesmo quando era miúdo, sempre fui um geek do cinema”, recorda ao “The Wall Street Journal”. Filho de uma jornalista e de um dentista, viveu quase toda a infância nos subúrbios de Washington. Tinha dois irmãos, Marc, o mais novo, e Bonnie, que confessa ter usado como modelo para uma das primeiras personagens que criou, Brenda Walsh, então interpretada por Shannen Doherty.

Segundo Darren, todos os membros da família eram “leitores ávidos” e isso ajudou-o a habituar-se à tarefa de escrever e contar histórias. “Na terceira classe já escrevia peças e encenava-as com os meus primos e a minha irmã.”

Chegou a audição, o primeiro papel em palco e, perante o visível interesse, os pais ofereceram-lhe a primeira câmara, uma Super-8. Começava finalmente a poder gravar os seus primeiros filmes.

O percurso parecia-lhe claro, mas foi atribulado. Tentou formar-se como ator e, após algumas dificuldades, mudou de universidade para tirar um curso de cinema. “Vi imensos miúdos que eram atores muito mais talentosos do que eu. Percebi rapidamente que estavam noutro campeonato”, recorda.

Acabou por se formar em inglês e escrita criativa. “Foi uma ótima jogada. Pude ler todos os clássicos e tive um professor extraordinário, o escritor irlandês Brian Moore, que me incentivou a tornar-me num argumentista”, conta.

Star com Carrie Bradshaw e o Emmy de 1999

Antes do sucesso, as dores de crescimento. Vestiu o avental e trabalhou como empregado de mesa num restaurante de fast-food.

“A certa altura percebi que alguns dos funcionários estavam lá há uma década, à espera de que o sucesso os ajudasse a escapar dali. Isso assustou-me”, conta. Decidiu então preparar uma estratégia alternativa, enviou currículo para uma agência publicitária e encontrou o filão que tanto queria.

Impressionou a sua superior, que por sua vez entregou um dos seus guiões a amigos que trabalhavam na indústria cinematográfica. O texto agradou e, num golpe de sorte, um desses amigos foi nomeado responsável pelos dramas na Fox.

“Pediu-me para escrever um piloto sobre uma escola secundária em Beverly Hills”, recorda. “O Aaron Spelling produziu a série e aquilo disparou na segunda temporada.” Sobre a série, confessa também que a família Walsh da história é uma espécie de espelho da sua própria família.

Ao contrário de muitos colegas, não precisou de muito tempo até chegar ao ponto de querer fazer algo mais radical — e ter possibilidades para o fazer. Foi isso que aconteceu com “O Sexo e a Cidade”, que produziu em conjunto com a HBO.

“Quando levei a série à HBO, queria fazer algo de forma independente. Algo que eu pudesse dizer: ‘Estou-me a marimbar se alguém vê isto. Deixem-me fazer algo que eu gostaria de ver”, explicou. “Honestamente, o sucesso da série surpreendeu-me. Na minha cabeça, era o protótipo do anti-show televisivo.”

Durante seis anos, comandou aquela que era uma das produções televisivas mais vistas em todo o mundo. Mas com o passar dos anos, Star foi delegando o controlo da narrativa. Quis dar rédea livre à equipa de argumentistas, o que parecia uma boa ideia, mas resultou numa profunda desilusão.

“Quando dás poder a outras pessoas para escreverem e produzirem uma série, a certa altura tens que os deixar seguir a sua própria visão”, conta. Isso levou a que Star confessasse ter odiado o desfecho da série, ao dar um final feliz a Carrie Bradshaw. “Acho que a série traiu a sua essência, que é a de que, com o casamento, as mulheres não encontram necessariamente a felicidade.”

Foi também a única série que lhe garantiu uma vitória nos Emmy, em 1998. Por pouco não voltou a repetir o feito, vinte anos depois, graças ao sucesso de “Emily em Paris”, a série que demonstrou cabalmente que o talento de Star não ficou pelos anos 90.

Aliado ao sucesso da menos extravagante mas igualmente bem-sucedida “Younger” — que terminou em 2021, ao final da sétima temporada, e que agora está a ser transmitida no AXN White —, Star tem na manga mais um potencial sucesso. Uma série que também tem um toque pessoal.

“Uncoupled”, que estreou sexta-feira, 29 de julho, na Netflix, conta a história de Michael Lawson (Neil Patrick Harris) um bem-sucedido agente imobiliário que vive em Nova Iorque. Ao seu lado está Colin, o companheiro de longa data. O fim da relação é o catalisador da série que é comparada por muitos a “O Sexo e a Cidade”, mas desta vez no epicentro da comunidade gay de Nova Iorque.

Solteiro, Lawson terá que reaprender a entrar no jogo dos encontros às cegas, das aplicações e de todo um novo conjunto de regras.

“A série foi escrita com base em muitas experiências reais sobre o que é ser um homem gay”, explica Star, que é assumidamente homossexual. Contudo, sublinha que as potenciais semelhanças entre as duas séries da sua autoria são meramente coincidências. “‘O Sexo e a Cidade’ é certamente uma série icónica e maravilhosa, mas é um animal totalmente diferente, porque tem origem num sítio completamente distinto”, assegura.

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