“Esta é a minha máquina de lavar louça”, aponta Harrison Sullivan, em jeito de apresentação da namorada, Kacey May, logo nos primeiros minutos do documentário “Louis Theroux: Inside the Manosphere”, que estreou a 11 de março na Netflix. A forma como a criadora de conteúdos de 19 anos é tratada por HSTikkyTokky (o pseudónimo online de Sullivan), é apenas um dos inúmeros momentos chocantes do filme documental.
A produção partiu da vontade do jornalista britânico Louis Theroux investigar o crescimento de uma comunidade online dominada por criadores de conteúdo, que defendemvisões rígidas sobre papéis de género, rejeitam o feminismo ou promovem teorias da conspiração que circulam nas redes sociais. “Muitos deles são relativamente mainstream, mas na ponta há uma comunidade de figuras cujas opiniões são muito mais extremas e é esse o foco do documentário”, diz.
“Manosfera” é, assim, um ecossistema online populado por “influenciadores do sexo masculino que produzem conteúdo sobre fitness, negócios e desenvolvimento pessoal” — e HSTikkyTokky é uma das figuras mais polarizadoras e financeiramente bem-sucedidas neste universo.
Atualmente com 24 anos, Harrison Sullivan iniciou o seu percurso como instrutor de fitness no TikTok, antes de se fixar em Marbella, Espanha, onde ostenta um estilo de vida luxuoso. Ao contrário de figuras mais ideológicas, como Andrew Tate, que se assume como “profeta da submissão feminina e da soberania masculina absoluta”, Sullivan foca-se na “estética do vencedor”.
Mais do que líder da resistência contra a “Matrix”, é vendedor de um estilo de vida luxuoso e ocioso, rodeado de carros desportivos, treinos intensos e modelos em biquíni. “Inside the Manosphere” releva a banalidade do seu dia-a-dia, baseada nas promessas de riqueza rápida através de plataformas de investimento duvidosas.
Fura-vidas assumido, Harrison Sullivan admite usar a controvérsia como combustível para rentabilizar clipes virais de “conteúdos sem grande conteúdo”. Apesar de proclamar “liberdade total”, revela um foco obsessivo nas métricas, reconhecendo que muitas das suas declarações ofensivas são estrategicamente calculadas para obter o máximo retorno financeiro.
Entre as várias afirmações polémicas que faz no documentário, garante que deserdaria um filho se este fosse homossexual e proibiria uma filha de ter conta na plataforma OnlyFans, — onde gere contas de várias de mulheres, sendo uma das suas principais fontes de rendimento.
Theroux, fiel ao seu estilo inquisitivo, confronta-o com a futilidade do seu estilo de vida e sugere que a sua agressividade pode ser “um mecanismo de defesa contra traumas de infância ou a ausência de uma figura paterna estável”.
As reações de HSTikkyTokky ao documentário foram, previsivelmente, negativas e contraditórias. Ainda antes da estreia, Sullivan publicou vários vídeos no TikTok a acusar Theroux de ter feito uma “reportagem de ataque” com o objetivo de o cancelar.
Pouco depois, a vitimização deu lugar à gabarolice. Após ter alegado que o documentário foi editado de forma seletiva para o fazer parecer um vilão, vangloriou-se dos números. “Cada crítica que me faz é mais dinheiro no banco”, afirmou, reforçando a tese de que a infâmia é tão rentável quanto a fama.
Os seguidores de Sullivan não tardaram a acusar Theroux de propaganda e de representar o “sistema que os tenta silenciar”. A crítica, porém, destaca que “Inside the Manosphere” não consegue derrotar a lógica de HSTikkyTokky, baseada na “total indiferença moral” em prol do lucro.
Embora surja retratado “como alguém desprezível, Sullivan não é estúpido”, aponta o “The Guardian”. É um exemplo perfeito de “como a misoginia se tornou um modelo de negócio cínico, onde as convicções pessoais dos influencers são secundárias e a decência é o preço a pagar pela relevância”.
O documentário mostra ainda outra realidade: a Manosfera é um ecossistema diverso, com diferentes protagonistas e motivações. Enquanto HSTikkyTokky representa o quadrante puramente comercial, onde a “verdade é irrelevante desde que as subscrições continuem a cair”; Andrew Tate e Sneako querem liderar uma revolução contra o sistema e estabelecer uma doutrina; não querem apenas visualizações, mas lealdade ideológica.
Louis Theroux sugere que estas três vertentes formam um funil perigoso: começa-se por admirar o carro de HS, passa-se a ouvir as teorias de Sneako e acaba-se a financiar o império ideológico de Tate.
Carregue na galeria para conhecer algumas das séries e temporadas que estreiam em março nas plataformas de streaming e canais de televisão.

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