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Declarações de Ricardo no “Big Brother”: “É uma situação grave que não pode passar”

Disse, em tom de gozo, que tinha havido “festa” com Joana enquanto esta dormia. A sexóloga Vânia Beliz diz que é "inaceitável".
Ricardo e Joana têm estado próximos.

Durante a emissão de “Big Brother” desta segunda-feira, 1 de novembro, o concorrente Ricardo proferiu declarações que depressa foram duramente criticadas — tanto pela própria TVI e produção do programa como pelos espectadores nas redes sociais.

Em tom jocoso, Ricardo disse que se envolveu sexualmente com Joana durante a noite, enquanto ela dormia. “Já houve festa! Ela pode não se ter apercebido, OK, mas é uma coisa que eu não posso fazer nada. Estava a dormir”, disse o participante do reality show, quando foi abordada a relação próxima entre ambos.

A voz de “Big Brother” reagiu imediatamente não deixando passar as declarações em branco. Ricardo foi nomeado e deixou de ser o líder da semana. “Sei que isso não aconteceu. O ponto é a brincadeira sobre um assunto tão sério (…) Nada se passou”, frisou a voz. “Que fique claro que um ato dessa natureza seria motivo para expulsão direta sem nenhum tipo de hesitação. Na minha casa há um protocolo rígido e rigoroso no que ao envolvimento íntimo entre concorrentes diz respeito, é um protocolo do conhecimento de todos vocês desde o momento em que souberam que vinham para a minha casa.”

Mais tarde, no mesmo dia, Joana falou sobre o assunto. Garantiu que “ainda não houve intimidade” entre os dois, e assegurou que “há sempre consentimento” entre ambos. Ricardo pediu desculpa pelo que disse. A TVI publicou também um esclarecimento dos concorrentes nas redes sociais.

No formato “Diário” e nas redes sociais, multiplicaram-se as críticas à “normalização” deste tipo de afirmações. À NiT, a sexóloga Vânia Beliz defende que se trata de uma “situação grave”. “Porque a questão do consentimento é algo muito importante. A partir do momento em que uma pessoa não consegue anuir ou não tem capacidade de mostrar consentimento, qualquer ato sexual é considerado abuso.”

Vânia Beliz realça que a violência sexual pode incluir comportamentos que muitas vezes algumas pessoas não reconhecem como tal. “Ele até se podia ter masturbado nas costas dela — e isso seria uma situação de violência. Mesmo sem ter havido penetração, qualquer tipo de estimulação que tivesse feito usando uma parceira que está inconsciente, é uma forma de violência. Nós é que pensamos sempre que a violência sexual só acontece quando existe penetração. Mas isso é super errado.”

A sexóloga acrescenta ainda que existem muitas situações em que o conceito de consentimento é posto em causa. E realça que não é por duas pessoas serem próximas, ou até serem parceiras, que não podem acontecer atos de abuso sexual. “Temos situações de mulheres que estão em relações e são ‘obrigadas’ a ter sexo com os companheiros. Muitas vezes, a próprias não reconhecem isso como violência. Porque acham que, como são namoradas ou mulheres, têm essa obrigação. Não têm, em nenhuma situação. Esta questão do consentimento é algo que trabalhamos com as crianças desde muito cedo. Temos autonomia sobre o nosso corpo e ninguém pode decidir sobre ele. E claro que estas situações são sempre graves e é triste que aconteçam.”

Sobre este caso específico, Vânia Beliz acredita que o concorrente não tivesse a intenção de fazer “o comentário com um objetivo real”. Mas a especialista critica o tipo de mensagem e mentalidade veiculada. “Quando estamos nestes sítios, tudo o que dizemos tem de ser altamente cuidado. Não é à toa que houve pessoas que solicitaram a expulsão do concorrente. Não conheço as normas do programa, mas considero que é uma situação grave que deve ser muito bem esclarecida. Pode servir até para trazer para cima da mesa o tema importante do consentimento. Porque até na magistratura existem muitas dúvidas em relação a esta questão: muitas vezes a forma como as mulheres se vestem serve para legitimar a situação de abuso. E é tão comum as pessoas dizerem ‘ela estava vestida assim, do que é que estavas à espera?’. Este tipo de justificações não pode mesmo passar, porque nada pode legitimar um caso de abuso ou violência.”

E acrescenta: “A partir do momento em que a pessoa não tem capacidade para dar consentimento, estamos num cenário de abuso. Acredito que o concorrente não se apercebesse do impacto daquele comentário, mas isso não é motivo para se desculpabilizar este tipo de discurso. Até porque a violência sobre as mulheres é uma situação grave no nosso País. Muitas das vezes legitimamos, aceitamos bem piadas nas redes sociais, nos grupos de amigos, mas são coisas que temos de deixar de aceitar. Porque tudo isso ajuda a legitimar qualquer situação de abuso. E, claro que estas pessoas quando estão neste tipo de programas, onde são muito vistos e acompanhados, têm uma responsabilidade acrescida. O que é que os mais novos podem pensar? Se fez aquilo, se disse que já teve intimidade com ela [enquanto dormia], então significa que é possível [e aceitável]. Por isso não é de todo desculpável que uma situação destas passe”.

A sexóloga argumenta que este tipo de afirmações acabam por ter impacto nos espectadores. “Infelizmente, muitas vezes  a influência que este tipo de programas têm na opinião das pessoas é desvalorizada. Mas a verdade é que tem muito mais influência do que se pensa, porque somos uma população em que o espírito crítico é cada vez menos trabalhado. E depois acabamos por nos colocar neste tipo de situação. Aquilo que se diz num programa com muita audiência acaba por ter impacto porque eles são influenciadores do pensamento de quem vê. Muitas vezes a audiência deste tipo de reality show, procura este tipo de programas porque está saturada da correria do dia a dia e os episódios servem um bocadinho para esvaziar a cabeça.”

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