Jennifer Lopez regressou ao género que ajudou a definir grande parte da sua carreira. “Romance no Escritório” (“Office Romance”), estreado na passada sexta-feira, 5 de junho, na Netflix, já se tornou o filme mais visto da plataforma em Portugal e marca mais um capítulo numa relação muito particular entre a atriz e as comédias românticas.
À primeira vista, parece apenas mais uma história de amor passada no local de trabalho. Mas vários críticos internacionais defendem que o filme funciona também como uma espécie de reflexo da própria vida de Jennifer Lopez, uma atriz que passou mais de duas décadas a transformar os altos e baixos da sua vida amorosa em combustível para as personagens que interpreta.
No novo filme, Lopez dá vida a Jackie Cruz, diretora executiva de uma companhia aérea que construiu uma carreira de sucesso, mas cuja vida pessoal parece ter ficado para trás. Tudo muda quando conhece Daniel Blanchflower, o novo advogado da empresa, interpretado por Brett Goldstein, conhecido por “Ted Lasso” (2020).
Os dois acabam por desenvolver uma relação que entra em conflito direto com as regras da própria empresa, que proíbe romances entre funcionários. Entre processos judiciais, reuniões, viagens de negócios e uma crescente atração, Jackie vê-se obrigada a decidir se está disposta a arriscar tudo por uma nova oportunidade no amor.
Mas o verdadeiro interesse do filme pode estar fora do ecrã. Ao longo da sua carreira, Jennifer Lopez tem utilizado as comédias românticas como uma forma de recuperar o controlo sobre a narrativa da sua própria vida.
A teoria não é nova. Desde “O Casamenteiro” (2001) e “Uma Empregada em Manhattan” (2002), Jennifer construiu uma carreira baseada em personagens que procuram amor enquanto enfrentam obstáculos, rejeições e desilusões. O curioso é que muitos desses temas acabaram também por marcar a sua vida pessoal.
A própria atriz já admitiu várias vezes que se identifica profundamente com essas personagens. Em 2019, explicou ao “The Hollywood Reporter” que sentia falta de protagonistas latinas nas comédias românticas. “Sentia que todas as mulheres das comédias românticas eram iguais e quase sempre brancas. Eu queria mostrar que também podia ser aquela rapariga. Sou uma romântica incurável, sou uma mulher solteira que trabalha. Eu era essas coisas”.
O paralelismo entre ficção e realidade tornou-se ainda mais evidente depois da mediática relação com Ben Affleck. Os dois conheceram-se durante as filmagens de “Gigli” (2003), um fracasso histórico de bilheteira que coincidiu com o início do fenómeno mediático conhecido como Bennifer. O casamento acabou cancelado poucos dias antes da cerimónia prevista e Lopez admitiu mais tarde que esse período a deixou profundamente abalada.
“Perdi a noção de quem era. Questionei se pertencia a esta indústria. A minha relação autodestruiu-se à frente do mundo inteiro”, recordou numa entrevista anterior.
Nos anos seguintes, continuou a regressar às comédias românticas. Em “Plano B” (2010), “Uma Segunda Oportunidade” (2018), “Casa Comigo” (2022) ou “Shotgun Wedding” (2022), voltou repetidamente a interpretar mulheres que tentavam reconstruir a vida amorosa após desilusões.
O exemplo mais evidente surgiu em “Casa Comigo” (2022). No filme, Lopez interpretava uma estrela pop abandonada pelo noivo momentos antes do casamento. Na vida real, a atriz acabava de terminar o noivado com Alex Rodriguez. Pouco depois, voltou para Ben Affleck, casou-se com ele em Las Vegas e transformou essa história no projeto autobiográfico “This Is Me… Now: A Love Story” (2024).
A reconciliação acabou por não durar. O divórcio foi finalizado em janeiro de 2025. É precisamente neste contexto que surge “Romance no Escritório”. Segundo Brett Goldstein, que além de protagonizar o filme também coescreveu o argumento, a personagem foi criada a pensar especificamente em Jennifer Lopez.
“Nós vimos nela algo que ainda não tinha sido escrito. Nas comédias românticas anteriores ela estava sempre a tentar alcançar alguma coisa. Desta vez é a diretora executiva. Já conquistou tudo, mas continua a faltar-lhe algo.”, afirmou à “Vanity Fair”.
A própria atriz reconheceu imediatamente a ligação. “Quando li o argumento pensei: ‘Eu conheço esta pessoa’. Conseguiram entrar dentro da minha cabeça. Eu compreendo exatamente quem ela é.”
As críticas ao filme estão divididas
A “Variety” surge entre as publicações mais positivas. A revista considera que o filme recupera parte do charme das grandes comédias românticas dos anos 90 e elogia especialmente Jennifer Lopez, defendendo que “já não era vista de forma tão cuidada e carinhosa no ecrã há muito tempo”.
A publicação destaca ainda a química improvável entre Lopez e Brett Goldstein e considera que o filme consegue ser “divertido, leve e suficientemente peculiar para se destacar”.
Já o “Guardian” mostra-se menos convencido. Embora reconheça que Lopez continua a ter “carisma de estrela de cinema elevado ao máximo”, considera que o argumento não consegue acompanhar a protagonista. Para o jornal britânico, a relação entre as personagens principais é difícil de acreditar e o filme acaba por parecer “demasiado corporativo para derreter o coração dos espectadores”.
Mesmo assim, até o “Guardian” reconhece que Lopez continua a ser a principal razão para ver o filme, descrevendo-a como uma atriz que compreende perfeitamente o género.
Talvez seja aí que reside o segredo da sua longevidade. Ao longo de 25 anos, Jennifer Lopez transformou as próprias cicatrizes amorosas em personagens que milhões de espectadores continuam a apoiar. E “Romance no Escritório” parece ser apenas o capítulo mais recente dessa história.
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