Televisão

“Despojos de Guerra”: a nova série documental sobre heróis anónimos da Guerra Colonial

Estreia este sábado na OPTO e centra-se em informadores e combatentes, mas também naqueles que ficaram para trás.
Mais de 800 mil jovens foram para a frente de guerra.

Chama-se “Despojos de Guerra” e é uma nova série documental da autoria da jornalista Sofia Pinto Coelho. Estreia na Opto, a plataforma de streaming da SIC, este sábado, 19 de fevereiro. Ao todo, são quatro episódios, cada um com cerca de 50 minutos.

O tema é a Guerra Colonial em África, que aconteceu nas antigas colónias portuguesas entre 1961 e 1974, e que só terminou com a revolução do 25 de Abril. Através de entrevistas e imagens de arquivo, são exploradas histórias de pessoas comuns, que estiveram envolvidas no conflito de alguma forma, e que representam diferentes perspetivas e vertentes desta guerra.

O primeiro episódio centra-se em Sebastiana Valadas. No auge da guerra em Angola, esta comerciante e o marido avisavam a PIDE quando os guerrilheiros iam à loja abastecer-se de mantimentos. A mulher explica como tudo funcionava e revela como, com a descolonização, foi vítima de um ajuste de contas e foi detida. 

“Conheci a personagem do primeiro episódio noutra reportagem. E começou a contar-me a história dela. Percebi que a história desta mulher tinha de ser contada enquanto ela era viva”, conta à NiT Sofia Pinto Coelho, explicando que esta história foi o ponto de partida para contar outras. “A partir daí comecei a interessar-me pelos arquivos que ainda estão por explorar. É aquela conversa de sempre: como é que os americanos fazem tantos filmes sobre o Vietname? Nós temos algumas abordagens, mas ainda existem outros olhares possíveis. O ângulo que me interessou foi o das pessoas comuns, sem académicos, sem políticos, sem militares, sem o 25 de Abril, eles por eles próprios… A partir daí surgiu mais uma história, a do episódio dois, que no fundo também é algo relativamente desconhecido.”

Este segundo episódio conta a história do antigo cabo Luís Silva. Foi apenas um dos milhares e milhares de africanos — na altura com nacionalidade portuguesa — que combateram pelo exército nacional contra os guerrilheiros e rebeldes. Este fenómeno não era residual, como explica Sofia Pinto Coelho.

“Quase um terço dos combatentes de guerra eram africanos. Tudo o que se discute hoje em dia sobre o racismo e a nacionalidade dos que vivem aqui, muitos deles são filhos dessas pessoas que deram o corpo às balas por Portugal e pelos portugueses brancos. Nos últimos anos da guerra em Moçambique, havia mais negros a combater do que brancos. Porque a maior parte dos brancos, nos anos 60, entre meio milhão e um milhão de jovens com idade para combater, emigraram. Para escapar à pobreza, ou para fugir à guerra, 200 a 300 mil simplesmente desertaram. Ou seja, não tínhamos homens para mandar combater.”

E acrescenta: “Faz muita aflição ver senhores que juraram à bandeira portuguesa, que agarraram em armas portuguesas, e que em 1975, com a mudança da Lei da Nacionalidade, de um dia para o outro perderam a nacionalidade. E muitos, muitos são feridos de guerra que não fazem a mais pálida ideia que teriam direito a pensões de invalidez. Foram abandonados, virámos as costas. Há uma espécie de dívida patriótica”.

O terceiro capítulo de “Despojos da Guerra” centra-se em jovens que foram enviados para a frente de combate. Foi o que aconteceu a cerca de 800 mil jovens durante aqueles anos. Neste caso, são contadas as histórias do piloto-aviador Miguel Pessoa e da enfermeira paraquedista Giselda Antunes.

Já o quarto episódio aborda os “filhos de tuga”, como muitas vezes são chamados nas antigas colónias. São as pessoas mestiças, fruto das relações entre militares portugueses e mulheres africanas, que foram deixados para trás. Muitos deles ainda hoje tentam descobrir alguma coisa sobre metade do seu ADN e identidade, como é o caso dos irmãos Elva e José Maria Indequi.

Perguntamos a Sofia Pinto Coelho por que razão a Guerra Colonial não é um tema mais abordado na sociedade portuguesa — nos EUA, os conflitos do Vietname ou da Coreia foram amplamente retratados na ficção e em documentários, por exemplo.

“Há uma espécie de apagamento estranho. Como isto também se junta com o 25 de Abril, este acabou por abafar a temática da guerra. ‘Livrámo-nos disto, vamos agora viver a democracia’. E andamos a viver a democracia desde então, inebriados. Por outro lado, também existe alguma responsabilidade das pessoas do jornalismo, dos realizadores e dos escritores. Os Spielbergs e os Coppolas se calhar contam melhores histórias do que nós [risos]. A maior parte das pessoas pensa, se calhar, ‘que horror, que seca, coisa de velhos’. E existe muita coisa ainda por abordar. Acabou por ser uma guerra incómoda. Na Segunda Guerra Mundial, os Aliados estavam do lado dos justos. A ideia dos bravos e dos que lutaram por um mundo melhor. Esta guerra acabou por ser uma guerra já fora de tempo. Mas quando uma pessoa pensa nos miúdos que eram convocados e tiveram de aprender a matar e a sobreviver… Tudo aquilo que vemos dos suores, dos dramas, dos amores, dos desamores, todas as emoções estão lá. É contá-las.”

Além disso, todas as discussões que existem atualmente sobre racismo e pós-colonialismo na sociedade portuguesa têm a ver com a forma como decorreu a Guerra Colonial. “Por isso é que isto se chama ‘Despojos de Guerra’, porque nós herdamos isto. Quando ainda temos filhos e netos dos africanos que eram portugueses, e alguns deles não conseguem obter a nacionalidade porque gamaram um telemóvel ou porque têm cadastro. Esquecemo-nos de que tudo isso deriva dessa guerra que foi terminada de uma forma inopinada, não negociada, e depois foi tudo resolvido à pressa.” O que também contribuiu para muitos dos problemas que as antigas colónias ainda hoje têm, enquanto países independentes.

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