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O diabo na Terra e o diabo no corpo. O homem que criou “Lucifer” e “Californication”

Tom Kapinos fez de duas figuras bem peculiares protagonistas de enorme sucesso.
Os sucessos de Tom Kapinos.

Houve um tempo em que Tom Kapinos era um tipo deprimido. As palavras não são nossas, mas do próprio. Durante anos, o produtor e argumentista andou a ler e a analisar argumentos de outras pessoas, até que em 1999 teve a sua primeira oportunidade.

Nada aconteceu como era esperado mas as coisas lá se desenvolveram. Mais ou menos, vá. Em 1999, conseguiu vender o seu primeiro argumento. Chamava-se “The Virgin Mary” e ia ter Jennifer Aniston como atriz. A Fox gostou, comprou os direitos… e guardou a história numa gaveta. Oportunidade conseguida, oportunidade perdida. Ou talvez não.

A Fox gostou o suficiente para fazer um convite a Kapinos. Foi assim que ele foi parar a “Dawson’s Creek”. Começou como um dos argumentistas e quatro anos depois era já produtor. Foi profissional, as coisas até correram bem, mas faltava qualquer coisa.

A série era uma história de um grupo de jovens entre dramas pessoais e amorosos, por vezes romântica, por vezes melodramática, por vezes algo lamechas. Fora daquele mundo, o argumentista (que conta que cresceu entre bibliotecas) via-se sem ideias, desinspirado.

“Fui inspirado pela minha própria falta de inspiração. Tinha saído de quatro temporadas de ‘Dawson’s Creek’ e era uma série que não refletia minimamente as minhas sensibilidades. Estava deprimido, estava a ter dificuldades em escrever e tive de arranjar um desafio criativo para mim próprio.”

“Na altura”, contou em vídeo para a Showtime, “muitos amigos meus estavam a casar. Tinham filhos. E estes tipos que tinham passados os 20 e os 30 anos em festas, agora tinham que perguntar às mulheres se podiam ir ver um filme. E então comecei a imaginar esta personagem que iria dar luta para não cair nessa abençoada vida de casado.”

Desse exercício começou a nascer Hank Moody, personagem tão encantadora quanto auto-destrutiva. Estávamos ainda muito longe de ver David Duchovny a assumir o papel no ecrã. Na verdade, aquilo que viria a ser “Californication” começou por ser uma peça, uma que Kapinos guardou para si.

Depressão deu lugar ao sucesso.

Por sorte, passado um ano, a mulher tirou-a da gaveta. Quase que a salvou, como o próprio Kapinos admitiu em 2008 numa sessão de perguntas e respostas. “As primeiras 60 páginas eram ótimas.” E daquele esboço nasceram os primeiros episódios da série.

“Californication” estreou em 2007 e tornou-se um sucesso, muito à conta de um protagonista em modo anti-herói. Na maior parte das vezes Hank faz a coisa errada, especialmente (mas não só) com ele próprio.

No passado, Kapinos ponderara escrever um romance mas a simples ideia bloqueava-lhe a escrita. Houve um tempo em que achou que poderia ser jornalista de rock, mas temeu que com o tempo ficasse “invejoso e ressentido” com as pessoas sobre as quais iria escrever.

Ainda assim, continuou a escrever. O primeiro argumento que inventou, ainda nos tempos de escola, mostrou aos pais, que sorriram e lhe sugeriram que seria bom continuar a estudar. Depois veio “The Princess & The Punk”, onde brincava com o conceito de comédia romântica, e uma comédia de vampiros inspirada no rock de Shane Black, tudo projetos que nunca viram a luz do dia. “Tudo merda. Mas sou um crente na ideia de que temos de fazer uma série de coisas más antes de percebermos o que estamos a fazer.”

Com “Californication”, essa descoberta chegou finalmente. Hank tinha qualquer coisa de Kapinos. Era da mesma cidade que ele, Los Angeles, e a frustração do autor com a sua escrita é inspirada nas próprias frustrações de Kapinos.

Hank tinha o diabo no corpo. Perdia-se em álcool, drogas, festas, mulheres e nas suas frustrações. Foram sete temporadas, vários prémios e o tal Hank que ficou, após anos de dúvidas e lutas internas.

Do diabo no corpo para o Diabo na terra. Eis que entra em ação, em 2016, Lucifer Morningstar (Tom Ellis). “Lucifer” foi vagamente inspirado numa personagem de “Sandman”, de Neil Gaiman. E a premissa é deliciosa: o Diabo, entediado com as suas funções nas profundezas do Inferno, junta-se aos humanos.

É em Los Angeles, a mesma cidade onde Hank Moody se perdia, que Lucifer dá por si a ajudar a polícia em várias investigações. Criador de “Lucifer”, Tom Kapinos abriu caminho com o episódio piloto, assumindo depois o cadeirão de produtor executivo.

A série conta com casos em que o Diabo dá uma ajuda mas, ao mesmo tempo, foge daquela rigidez do formato de série repetitiva. Durante três temporadas de sucesso relativo na Fox, vai conseguindo juntar uma legião de fãs. Até que a Fox decidiu cortar as asas ao diabo.

Dos confins dos Inferno até à “cidade dos anjos”, a série conseguiu que a sua ruidosa legião de fãs a salvasse. Foi assim que pousou na Netflix, onde conquistou outra dimensão. “A série é muito, muito popular em países católicos”, comentava o ator principal, Tom Ellis, numa entrevista ao “The Guardian”, sobre a ironia de interpretar o próprio Diabo. “Acho que há um fascínio com o Diabo em si, e não tem só a ver com a série.”

Se “Californication” tinha um lado de espiral auto-destrutiva a lembrar Charles Bukowski, “Lucifer” tem outra abordagem, com outro humor. Na Netflix encontrou espaço para explorar os próprios contornos. Já teve um capítulo musical, algo que “Buffy, Caçadora de Vampiros” já havia feito de forma hilariante com demónios, tem outro totalmente a preto e branco e até um episódio em que o showrunner intragável de uma versão fictícia de “Lucifer” (uma espécie de série dentro de uma série) é assassinado.

Em comum há este lado de anti-herói. Não são tipos bonzinhos, mesmo que às vezes o queiram ser. Ou, melhor, por vezes falham de forma encantadora. Afinal de contas é uma questão de natureza de ambas as personagens. Fica só a dúvida de como é que se dariam caso se cruzassem. Com “Californication”, Kapinos divertiu-se a juntar atores que passaram por “Dawson’s Creek”.

Quem sabe um dia o Diabo não encontra este seu invulgar par. Por enquanto podemos (re)descobrir as duas criações de Tom Kapinos, de 51 anos, em separado. As sete temporadas de “Californication” chegaram recentemente à HBO Portugal. Já Lucifer vai na quinta temporada, agora na Netflix.

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