Televisão

Do Spike de “Notting Hill” ao novo Littlefinger de Westeros: diga olá a Rhys Ifans

O ator galês de 55 anos deu nas vistas na comédia romântica de 1999. Agora é uma das estrelas da série da HBO.
Não podiam ser mais diferentes

“Otto Hightower é um homem mais honrado do que tu alguma vez serás”, exclama Viserys para o irmão, Daemon, numa das mais impactantes cenas do primeiro episódio de “House of the Dragon”, a prequela de “A Guerra dos Tronos” que estreou esta segunda-feira, 22 de agosto.

Otto, a Mão do Rei, e braço direito do governante dos Sete Reinos, interpretado por Rhys Ifans, deveria apresentar-se como um homem ponderado, justo, preocupado, honesto. Precisamente até ao momento em que, à boa moda de Littlefinger, lança uma estratégia digna da mente perversa de George R.R. Martin.

“Acho que poderias ir confortar [o rei]”, explica Otto à filha, que o questiona. “No seu quarto? Não saberia o que dizer.” Otto sabe bem o que pretende: “Vai-lhe fazer bem a visita. Podias usar um dos vestidos da tua mãe.”

Usar a filha menor para seduzir o recém-viúvo rei, vestida com as roupas da falecida mãe, com o intuito de conquistar algum poder, é algo que só poderia ser encarado com normalidade em Westeros. É também a nova encarnação de Ifans, o conhecido ator britânico que provavelmente não se recorda de ver num dos filmes mais vistos em 1999.

Numa época em que as comédias românticas esgotavam salas de cinema, Hugh Grant e Julia Roberts tornaram-se nas estrelas maiores do género, graças ao bem-sucedido filme de Richard Curtis. Num segundo plano, mas não menos interessante, surgiu Spike, o comic relief do filme e companheiro de casa de William Thacker.

Longe de ser uma estrela de primeira linha, o ator galês estreou-se precisamente em programas televisivos locais e no teatro. O primeiro filme, fê-lo ao lado do irmão, Llyr, também ator. Mas foi com o irreverente (e um tanto ou quanto estúpido) Spike que deu nas vistas e começou a encontrar algum espaço na indústria cinematográfica.

Pelo caminho, fez alguns trabalhos no mundo da música — foi protagonista, por exemplo, do single dos Oasis, “The Importance of Being Idle”. Outra nota surpreendente: Ifans foi o vocalista dos Super Furry Animals, antes de editarem qualquer disco. A sua voz nunca se ouviu oficialmente, pelo menos até março deste ano, quando a banda partilhou um tema com a voz de Ifans, gravado em 1993, “Of No Fixed Identity”.

Em 2009, surgiu a oportunidade de participar numa famosa saga, a de Harry Potter, de onde os fãs deverão conhecê-lo pelo seu papel como Xenophilius Lovegood, do filme de 2009, “Harry Potter e os Talismãs da Morte”.

Com os êxitos a viajarem aos pares, foi também convidado para encarnar Curt Connors, o lagarto vilão de “O Fantástico Homem-Aranha”, de 2010 — e regressaria para a sequela, já este ano, em “Homem-Aranha: Sem Volta a Casa”, um dos filmes mais vistos do ano.

Este último papel trouxe uma surpresa desagradável: Ifans emprestou apenas a voz à personagem, que quase sempre apareceu na sua versão de lagarto. As curtas cenas de Curt Connors foram roubadas a imagens de arquivo do filme de 2010. Ifans nunca precisou sequer de colocar os pés no set de gravações.

A onda ascendente esbarrou num pequeno escândalo que aconteceu em 2013, após uma desastrosa entrevista com uma jornalista do britânico “The Times”, descrita pela autora como “a entrevista do inferno”. “O jogo [destas entrevistas com atores] é que ouves simpaticamente o que eles têm para dizer sobre o filme, sobre o seu ‘método’, o brilhantismo dos seus co-protagonistas e realizadores. Depois, em troca, esperar que eles ofereçam — sem que tenhas que o importunar ou espicaçar como um obcecado — uma pequena história, um vislumbre do seu verdadeiro eu”, escreveu a jornalista, que sabia bem ao que ia.

“Eles [os atores] também odeiam este jogo, particularmente porque normalmente tem lugar em suites de hotéis, sentes que estás envolvido numa estranha forma de prostituição, onde permanece quase sempre incerto quem é a prostituta e o cliente.”

Ifans é a Mão do Rei de Viserys em “House of the Dragon”

Quase sempre “antipático” e “condescendente”, Ifans terá ripostado de forma fria a todos os tópicos lançados para cima da mesa, por mais inócuos que fossem. “Todas as questões pareciam irritá-lo cada vez mais, até que usei a minha pergunta de emergência, que garantidamente é lisonjeira e permite distrair entrevistados convencidos e irritados.” Turner quis saber que livro estaria Ifans a ler. A resposta foi curta: Rasputine. E a entrevista descambou num chorrilho de asneiras, até que Ifans foi curto e direto: “Vá-se foder. Quero terminar já esta entrevista. Aborrece-me. Estou aborrecido. Aborrecido.”

O desastre público foi atenuado pela máquina de imprensa e uma desculpa esfarrapada: Ifans estava sob o efeito de antibióticos e acabara de receber más notícias vindas de casa. Nem um ramo de flores com a sua assinatura acalmou a jornalista, que revelou tudo numa peça no “The Times”.

O tempo passou, e com um ano em cheio, o ator de 55 anos acaba de interpretar também o vilão de “The King’s Man”, Grigori Rasputin. Contudo, nenhum dos mais recentes papéis terá tanto significado como o de “The House of The Dragon”, a sua entrada numa das maiores sagas da história da televisão.

Na série, Ifans é Otto Hightower, da casa Hightower, uma das mais antigas de Westeros. É também a Mão do Rei, o cargo mais importante na corte de King’s Landing, que assumiu ainda durante o reinado de Jaehaerys Targaryen e manteve, agora ao lado de Viserys.

Do pouco que se pôde ver na estreia do primeiro episódio, Otto aparenta ser um homem justo e ponderado, mas também extremamente calculista — e tudo indica que terá um plano secreto para atingir os seus objetivos. Quais serão exatamente? Não se sabe.

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