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Embaixada dos Açores: “O Pico veste-se de luz e sombra, de chuva e brio”

O realizador Luís Filipe Borges é apaixonado pelo arquipélago, especialmente pela ilha. Produziu lá a sua primeira obra.
Tem uma beleza indescritível.

Foi à primeira vista, Ilha Maior. Uma viagem com, pelo menos, 15 anos ao serviço da RTP—Açores. Estadia no Pocinho Bay, Moto 4 disponível para desbravar estradas longitudinais e transversais, um dia inteiro numa encosta vinhateira a lembrar a Itália dos filmes, gastronomia de estalo na Aldeia da Fonte, os cenários interiores — da savana para os trópicos para a tundra — e sempre a montanha a revelar-se de ângulos diversos e multifacetados deslumbres pictóricos.

O Pico veste-se de luz e sombra, de chuva e brio, farol do Atlântico e sucesso de Alta Costura, mastodonte simultaneamente poético e assustador, guardado pelas sentinelas solitárias de beleza comovente, as lagoas onde qualquer um pode habitar sozinho a certeza de que estar ali é um privilégio que a lotaria do mundo nos destinou em sorte.

E, depois, o sublime Triângulo: São Jorge em toda a sua largura, cicatriz de terra no Mar, o Faial dos antigos senhores, hoje um irmão próximo. O canal e a Gruta das Torres, a Calheta do Nesquim e as baleias omnipresentes, a literatura de mãos dadas com a vida — que é um milagre.

Sim, aprendi-o agora no regresso. Um milagre. A antiga ilha do degredo, a terra negra de terror, durante séculos amenizada pelo ADN de um povo resiliente. Nas palavras de Manuel Costa, diretor do museu mais visitado dos Açores, “o Pico é um milagre”. “Um milagre ter sido habitado, um milagre ter criado vida aqui, um milagre o ponto a que chegou hoje”.

A “epopeia de pedra do homem do Pico” fez desta talvez a mais inspiradora das 9 ilhas. E a História insinua-nos docemente isso mesmo, desde logo através de nomes tão singelos e filosóficos como Criação Velha ou Terra do Pão. Para mim, humilde terceirense concebido nas Furnas, São Miguel, é a ilha predileta.

Por isso mesmo, na primeira vez em que produzi na vida, o primeiro episódio de “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas”, passou-se integramente na Ilha Montanha.

Nos 57 minutos, além das palavras de Manuel Costa, residem a força telúrica do Terry – timoneiro da MiratecArtes, o empreendedorismo do Cella Bar ou da Casa Âncora, o charme do Caffe 5, a paixão da Paim Bookhouse, a sabedoria do Comendador do Povo, o jazz melódico e vulcânico da Sara Miguel, a tradição dos Canarinho, Pai e Filho, o absoluto primor – world class — da Aldeia da Ginjeira ou das Lava Homes, a cultura de Manuel Ávila – “com sangue de dragoeiro a correr nas veias”, o carimbo de picaroto usado como motivo do maior (e mais do que justificado) orgulho, a força musical da dupla Tony – canadiano imigrado no Pico – e Wilson – jovem da ilha emigrado na Bélgica, o carisma e espírito destes protagonistas todos que, juntos, demonstram a coragem e a alegria, a sobrevivência nobre e a sempiterna esperança no amanhã das quase 15 mil almas do Pico.

E, nesse porvir, vou deitando água nas sementes duma fantasia: um dia, viver aqui.

Incidente diplomático

Já tem uns meses a prolongada crise sísmica na Ilha Dragão, assim apelidada devido à sua morfologia, a bela São Jorge e a sua extensão de quase 60 quilómetros de comprido por uma largura de meia dúzia. A CNN Portugal agarrou-se à possibilidade de uma tragédia como gato aos bofes e presenteou o País e o mundo (como diz o outro), com esta pérola:

Aparentemente, os abalos escalaram de tal ordem que – além das suas míticas fajãs – São Jorge ganhou um novo bilhete-postal, uma lagoa surpreendente e inusitadamente similar à Lagoa do Fogo, sita bem distante para oriente, na ilha de São Miguel. 

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Tem dicas sobre spots açorianos que merecem atenção? Vistas deslumbrantes e menos conhecidas? Pessoas que vale a pena conhecer? Gostava de sugerir uma história à Embaixada dos Açores ou contar um episódio hilariante sobre malta de fora que tentou apanhar o metro, achou que tinha de nadar até à próxima caixa multibanco ou estava convencida de existir um rio em São Miguel? Envia um email para embaixadadosacores@nullnit.pt.

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