Televisão

“Dopesick”: a nova série que conta a história real da crise dos opióides na América

Mais de 600 mil pessoas já perderam a vida. E há uma empresa que é a principal responsável por tudo isto — e continua impune.
Tem oito episódios.

Depois de anos e anos a investir milhões de dólares na guerra às drogas — com operações no México e América do Sul — os Estados Unidos da América assistiram a uma crise interna de vício de opióides. O mais irónico nesta história é que o problema não veio dos perigosos cartéis sul-americanos, mas sim de uma família de executivos milionários. Falamos de drogas legais, que se podem comprar numa farmácia.

Desde 1996 que se estima que 600 mil americanos já perderam a vida por causa destes fármacos. Pelo menos outras centenas de milhares de pessoas vivem viciadas. E há uma empresa específica que é apontada como a principal responsável: a Purdue Pharma, que continua impune.

A 12 de novembro, estreia na Disney+ a série “Dopesick”. Com oito episódios, faz um retrato desta realidade e explica como se desenrolou. Criada por Danny Strong, baseia-se num livro da jornalista Beth Macy, que explorou o tema de forma aprofundada.

O elenco junta nomes como Michael Keaton, Peter Sarsgaard, Michael Stuhlbarg, Will Poulter, Kaitlyn Dever e Rosario Dawson. Os primeiros dois capítulos foram dirigidos pelo aclamado cineasta Barry Levinson. Os dois últimos foram realizados pelo próprio Danny Strong.

A Purdue Pharma é gerida pela família Sackler. Foi em 1996 que lançaram o medicamento OxyContin. Conseguiram persuadir a Food and Drug Administration (FDA), que regula os fármacos nos EUA, a aprovar estes comprimidos. Como? Sob a falsa premissa de que eram menos viciantes do que os restantes opióides usados legalmente como analgésicos.

Sempre foi vendido como um medicamento para dores de costas, de joelhos e outras queixas comuns. A empresa fez uma campanha de marketing super agressiva. Centenas de vendedores começaram a persuadir médicos para receitarem OxyContin. Ofereceram-lhes refeições caras, enviaram-lhes bilhetes para espetáculos, deram presentes às secretárias. Resultou.

O grande foco da empresa farmacêutica foram estados como a Virgínia, o Kentucky ou o Maine. Afinal, eram regiões com grandes comunidades de mineiros, lenhadores ou agricultores. Pessoas com vidas duras e difíceis, muitas delas com problemas de saúde crónicos devido às suas profissões.

Quando entrou em força no mercado, nunca mais parou de vender — as consequências do fármaco ao nível da adição tornaram-se uma verdadeira epidemia. Nessas comunidades, o número de toxicodependentes disparou. O crime explodiu. Pessoas comuns começaram a assaltar farmácias ou a cometer assaltos para ter dinheiro para comprar os comprimidos.

“O meu objetivo com esta série é dar à Purdue e aos Sackler o julgamento que eles nunca tiveram”, diz Danny Strong ao jornal “The Guardian”. “Para mostrar os crimes da empresa que era gerida por esta família. Quando as pessoas virem a ascensão dos comportamentos criminosos… é tão chocante que vão perceber como aconteceu e porque é que as instituições governamentais que supostamente protegem o público fracassaram. E não falharam por acaso.”

O “The Guardian” argumenta que a forma como os Sackler se afastaram das responsabilidades em relação ao que aconteceu já se tornou um caso de estudo. A família, que lucrou o equivalente a cerca de oito mil milhões de euros, rodeou-se de poderosos advogados, fez lobby nos sítios certos e conseguiu ir evitando as investigações judiciais.

Isso não os impediu, claro, de terem sido processados milhares de vezes por indivíduos, estados, autarquias, hospitais, sindicatos, tribos de índios nativos americanos e outras entidades. 

Ao longo deste tempo, a Purdue só foi condenada em 2007, por marketing ilegal. E no ano passado foi condenada por subornar médicos, mentir sobre os perigos do medicamento e por defraudar o governo americano.

A história continua super atual: nas últimas semanas, foi firmado um acordo com os Sackler, no qual a família deixa a gestão da farmacêutica e parte da sua fortuna, mas garante-lhes imunidade legal em relação a quaisquer casos relacionados com opióides. Muitos ativistas que têm acompanhado o caso têm dito que a família está basicamente a comprar a sua imunidade.

Contudo, o assunto tem sido cada vez mais debatido na opinião pública. Têm sido publicados livros e, além de “Dopesick”, também a Netflix vai apostar numa série sobre o tema.

“Não me consigo lembrar de nenhuma família americana que tenha causado tantos danos e destruição, que tenha provocado tantas mortes em massa”, defende Danny Strong. Em “Dopesick”, os Sackler são retratados como milionários elitistas e sem escrúpulos.

Michael Keaton, o principal protagonista, interpreta um médico que acaba ele próprio por se tornar viciado em OxyContin. A sua personagem foi inspirada pelas histórias reais de vários médicos. O enredo também acompanha a investigação das autoridades policiais.

Carregue na galeria para conhecer outras das novidades televisivas para os próximos tempos.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT