Televisão

Dos abusos do pai ao sucesso no boxe: Jake Paul mostra tudo no novo documentário

O youtuber é o protagonista do primeiro episódio da série "Untold", que estreia esta terça-feira na Netflix.
O "miúdo problemático" está de volta

Fez-se famoso no Vine antes de reinar no YouTube, ao lado do irmão. Pelo caminho acumulou milhões de euros que lhe permitiram fazer um pouco de tudo. Cantou, dançou, insultou e chocou até encontrar aquele que aparentemente é mais um dos seus talentos: o pugilismo.

Aliás, foi precisamente esta modalidade que lhe permitiu ter acesso a uma das séries documentais da Netflix, a “Untold”, cujos episódios se centram em histórias incríveis e estranhas do mundo do desporto. A terceira temporada arranca agora com Jake Paul, ao lado de Johnny Manziel, Vic Conte e os Florida Gators como protagonistas dos novos quatro episódios.

A história da Criança Problemática, como Paul é conhecido nos ringues, marca a estreia da nova temporada já esta terça-feira, 1 de agosto. “O meu pai era tão duro connosco que a nossa imaginação, a minha e a do meu irmão, começou a borbulhar”, explica o norte-americano de 26 anos, no trailer do documentário, onde revela alguns dos abusos sofridos às mãos do pai, Greg Paul.

“Sim, o meu pai fartou-se de me dar chapadas. Mas não o censuro. Percebo porque é que o fez — ele não sabia mais”, explica Jake. Uma ideia corroborada pelo irmão Logan.

“Porra, o Greg Paul era uma ameaça. Um tipo intenso. O Jake usa a palavra abuso. Eu diria que era pouco legal.”

A acusação é negada pelo pai, que afirma nunca ter “tocado com um dedo” nos dois filhos, apesar de confessar pegar nos rapazes e atirá-los “contra o sofá”. “Algo que é suposto os pais fazerem”, acrescenta. “Muitas pessoas dizem que eu sou demasiado rígido e eu digo-lhes: ‘Entreguem-me os vossos miúdos por duas semanas. Quando voltarem, vão ser miúdos melhores.”

Ainda assim, Jake atribui o seu sucesso à criatividade que aplicou nos vídeos que o tornaram famoso. Criatividade que associa à necessidade de um escape devido à dureza da educação dada pelo pai. “Um dia arranjámos uma câmara e começámos a filmar as nossas vidas”, conta.

Começaram por casa a fazer acrobacias e “coisas parvas”, como o próprio descreveu ao “The Hollywood Reporter”. As redes sociais eram mundo em ascensão. Foi primeiro no Vine, entretanto desaparecido, que ganharam fama. Jake chegou a ter cinco milhões de seguidores em 2013, antes de fazer a passagem para o YouTube.

Ainda era adolescente quando assinou os primeiros contratos contratos com grandes marcas, como a Burger King. Aos 17 anos, já ganhava bom dinheiro. Inicialmente, o plano era usar esse rendimento inesperado para pagar a faculdade. Mas quando acabou o secundário, foi morar sozinho para Los Angeles.

“Quando cheguei nem sabia bem o que era um agente. Mas cheguei lá e comecei rapidamente a conhecer toda a gente que podia”.

A abordagem resultou. Enquanto os vídeos ganhavam milhões de visualizações e chamavam a atenção de mais marcas, foi contratado pela própria Disney, para a série “Bizaardvark”.

Os vídeos na altura já davam origem a discussão. Rapidamente a polémica chegou à vida real. Em Los Angeles, partilhava casa com outros youtubers. Certo dia, os vizinhos queixaram-se do incêndio que viam na piscina sem água da casa de Jake. A Disney despediu-o pouco depois. Estávamos em julho de 2017. Este e o ano seguinte foram particularmente difíceis para os dois irmãos.

Houve polémicas com vídeos, como quando Jake simulou uma detenção ou quando os dois irmãos organizaram um concurso a ver quem beijava melhor a mesma rapariga (e pelo meio o pai de ambos também participava). Num vídeo em que surpreendia Post Malone na sua casa, acabou por revelar detalhes do rapper, como a matrícula do carro (Jake pediu depois desculpa). Jake aventurou-se ainda na música, uma delas descrita pelo próprio irmão como “uma música de merda”, com um videoclipe recheado de carrões, relógios caros e outros sinais de riqueza.

Nalguns casos, a polémica foi mesmo criminal, como a acusação já este ano de abuso por parte da tiktoker Justine Paradise e as buscas levadas a equipa pelo FBI na sua casa em Los Angeles (onde foram apreendidas armas). Jake foi ainda acusado de fraude por um curso em que ensinava como ter sucesso como influencer. Houve ainda um célebre vídeo do irmão a filmar um corpo numa floresta no Japão conhecida por ser local de suicídios, em 2018.

Entre lutas, insultos e uma rivalidade tremenda, os dois irmãos tornaram-se numas das maiores figuras do YouTube, ao passo que faziam milhões. E com Logan no posto do mais famoso, Jake fazia o que podia na sua sombra: tornou-se na Criança Problemática e encarnou a figura do miúdo que todos adoram odiar.

“Era fácil bater em mim. Odiar o Jake Paul tornou-se numa moda. E não é fácil ser-se odiado por todo o mundo.”

Com as marcas a cortarem laços com Jake por causa do seu comportamento errático — chegou a ser acusado de agressão sexual, que sempre negou —, viu-se praticamente falido. “Ele precisava de um motivo para viver”, revelou o irmão. Encontrou-o no pugilismo. “O que aprendi na indústria do entretenimento é que há uma correlação com o boxe, isto porque o boxe também é entretenimento. Mas antes de tudo, é um espetáculo e, ao que parece, nós éramos ótimos nisso.” Os irmãos Paul viraram-se então para o pugilismo,mas neste campo, o protagonismo é praticamente todo de Jake.

Em 2018, juntamente com o irmão, enfentou outro youtuber, KSI. Logan empatou com KSI. Na luta entre os dois irmãos mais novos ganhou Jake, com KO ao quinto round. Em janeiro de 2020 veio o primeiro combate profissional, contra o YouTuber AnEsonGib. Vitória por KO no primeiro round. Seguiu-se um ex-basquetebolista, Nate Robinson. Nova vitória por KO, agora no segundo round.

A carreira evoluiu, tudo porque Jake Paul encontrou novo público (e adversários) no mundo das artes marciais. Especialista em polémicas, foi provocando cada vez mais o universo da UFC.

Jake Paul parecia imparável. Além de mostrar algum talento no ringue — apesar de os seus primeiros seis combates nunca terem sido contra pugilistas no ativo e a tempo inteiro —, é fora dele que realmente brilha. Ninguém promove um espetáculo como Jake, capaz de concentrar em si todo o ódio do mundo. E de, pelo caminho, provocar tudo e todos. Um dom que, segundo Mike Tyson, é de admirar. “Sou um fã de pessoas que sabem encher plateias”, refere no documentário.

O percurso totalmente vitorioso e com momentos brilhantes — o KO que aplicou a Tyron Woodley II no seu segundo combate foi eleito como o knockout do ano — teve um percalço em janeiro de 2023. E embora muitos pugilistas lhe reconhecessem mérito e valor desportivo, o “The New York Times” apontou com dureza um facto óbvio após o final do embate: “Jake Paul finalmente enfrentou um verdadeiro pugilista. E perdeu.”

Apesar da derrota e de fazer do espetáculo do ódio o motor dos seus combates — e da sua profissão —, Paul encarou a vitória de Fury com humildade. “Ele ganhou justamente. É assim o boxe (…) é assim o desporto: por vezes ganhas de forma gloriosa, noutras ocasiões perdes. Julguem-me pelas minhas derrotas porque eu vou voltar.”

E é precisamente isso que vai acontecer, com um timing perfeito para Paul arrecadar mais uns milhões. É que o seu próximo combate acontece já no sábado, 5 de agosto, apenas quatro dias após a estreia do seu documentário na Netflix. A máquina não vai parar de fazer dinheiro.

Carregue na galeria para conhecer as novas séries que chegam à televisão em agosto.

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