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Dos “Morangos com Açúcar” a protagonista na Netflix: a jornada de Miguel Nunes

Aos 33 anos, é o ator principal de “Glória”, a primeira série portuguesa da plataforma de streaming.
Miguel Nunes interpreta João Vidal.

Tinha 12 anos quando se estreou como ator em “Querido Professor”, produção da SIC, no ano 2000. Duas décadas de carreira depois, Miguel Nunes é o grande protagonista de “Glória”, a primeira série original portuguesa da Netflix. Estreou na sexta-feira, 5 de novembro, e desde então não abandonou o top 10 das tendências da plataforma de streaming no nosso País. Também tem sido a mais vista no Luxemburgo, onde existe uma grande comunidade lusodescendente.

Miguel Nunes, de 33 anos, interpreta João Vidal. É um engenheiro de famílias ligadas ao regime do Estado Novo que vai trabalhar para a RARET, centro americano de retransmissões localizado em Glória do Ribatejo durante a Guerra Fria. O que ninguém sabe é que, assombrado pelos terrores da Guerra Colonial, João foi recrutado pelo KGB, os serviços secretos soviéticos.

A série de dez episódios, criada por Pedro Lopes e realizada por Tiago Guedes, acompanha João na sua estadia no Ribatejo. O protagonista, de intenções misteriosas, está numa encruzilhada entre os interesses do regime, a agenda da CIA e as missões de espionagem do KGB.

Em declarações à NiT, o argumentista Pedro Lopes explica como criou o personagem. “Não queríamos que fosse evidente, mas sim uma personagem em construção. Porque também ele, de alguma maneira, está a questionar a forma como foi educado. A experiência da guerra mudou-o, aquilo que viu do império colonial, há todo aqui um processo. Primeiro de desconstrução daquilo que para ele era evidente, e depois de descobrir um novo caminho e que papel é que pode ter neste jogo de espionagem.”

E acrescenta: “Tem um certo mistério no olhar, uma empatia, por vezes uma certa fragilidade. Mas depois também tem… há um lado negro e de violência na personagem. Foi muito interessante ver as cenas, a gestão que vai dentro dele e nunca sabemos por que lado é que ele vai explodir ou não”.

Miguel Nunes explica à NiT como preparou o papel, um processo que começou “de uma forma muito solitária”, por causa da pandemia. “Teve muito a ver com esta construção do pensamento político dele, ligado às questões da guerra colonial, da falta de liberdade de expressão, na relação com os países africanos, na independência que estavam a começar a reclamar.”

O ator natural de Lisboa diz que a personagem de João se foi construindo através de entrevistas que foi lendo. “De pessoas que viveram na clandestinidade política. Houve um depoimento particular, da Margarida Tengarrinha, que me fez muito sentido. A sua história é muito tocante, a luta em que participou e na importância que teve. E como ela houveram muitos outros. Também li a biografia do Amílcar Cabral, um dos grandes impulsionadores do PAIGC.”

Miguel Nunes fez ainda um treino físico exigente com o coordenador de duplos e manobras perigosas David Chan Cordeiro (cuja história já contámos na NiT). “Foi para perceber como era o corpo deste João, sendo que tinha tido sido treinado pelo KGB, e fizemos um treino militar para questões mais ligadas a um corpo de soldado. Porque é um corpo que não é muito parecido com o meu, pedia uma energia mais vital, de exteriorizar alguma violência, que é uma coisa que não faz parte da minha pessoa. Ou, se faz, está bem lá no fundo e tenho que ir lá buscar.”

O ator assume que foi “a preparação mais longa” que já teve de fazer, mas, quando lhe perguntamos, não sabe dizer se foi “a mais completa”. “É difícil dizer, porque sinto que ainda não conheço totalmente o João. Há coisas que as personagens só revelam mais tarde. Há questões ainda por compreender.”

Depois da preparação, começaram os ensaios. A rodagem demorou cinco meses. “Obviamente que filmar quase todos os dias durante tanto tempo é bastante exigente, mas é muito prazeroso, e foi uma oportunidade pela qual me sinto muito grato.”

Miguel Nunes conta que o facto de ter visitado a RARET para as filmagens ajudou-o a construir o personagem e a entrar naquele universo. “Se bem que, com a formação teatral, somos um bocado obrigados a treinar a imaginação e a criatividade [risos]. Mas, sim: as séries e o cinema têm isso. De repente aquilo que vimos no papel… as coisas acontecem para serem habitadas e isso é impressionante.”

Questionado sobre se esta série poderá mudar a sua vida, o ator não vai tão longe — mas assume que pode ser uma porta aberta para outros projetos de referência. “Pode dar-me oportunidades que, obviamente, se não tivesse feito este trabalho, não as teria. Mas acho que mudar a minha vida é uma coisa muito drástica. A vida está cá, já existe, é minha, tem 33 anos [risos]. Mas penso que pode mudar a minha vida profissional.”

O percurso de Miguel Nunes antes de “Glória”

Foi em “Querido Professor” que se estreou como ator. Cinco anos depois, participava num episódio de “Clube das Chaves”. Mas só ficou realmente conhecido quando interpretou Duarte Marquês em mais de 200 episódios de “Morangos com Açúcar”, entre 2006 e 2007, na quarta temporada da célebre série juvenil.

Interpretou o personagem Duarte Marquês nos “Morangos com Açúcar”.

Ao longo dos anos, trabalhou em teatro e foi participando em filmes, tanto longas como curtas-metragens. Fez “E O Tempo Passa”, “O Que Há de Novo no Amor?” e venceu o prémio de Melhor Jovem Ator no LEFFEST pelo papel que interpretou em “Cisne”, de Teresa Villaverde.

Em 2012 concluiu o curso na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa. Na série da RTP “Os Filhos do Rock”, fez de Zé Pedro, icónico guitarrista dos Xutos & Pontapés. Em 2016, fez um dos papéis mais importantes da sua carreira. Protagonizou “Cartas da Guerra”, filme de Ivo M. Ferreira baseado no livro homónimo de António Lobo Antunes, que foi aclamado pela crítica internacional.

Seguiram-se papéis nas séries “Dentro” e “Madre Paula”, e nas novelas “Paixão” e “Na Corda Bamba”. Participou ainda nos filmes “Ruth”, “Linhas Tortas”, “A Arte de Morrer Longe” e na produção italiana “Resurrezione”. Também será um dos protagonistas do próximo filme de Edgar Pêra, “The Nothingness Club – Não Sou Nada”, que está neste momento em fase de pós-produção.

Paralelamente ao seu trabalho enquanto ator, já se estreou como realizador e argumentista. Foi em 2018 que dirigiu e escreveu a curta-metragem “Anjo”, que também protagonizou. Juntou um elenco com nomes como Joana de Verona, Edgar Morais, Beatriz Godinho, Miguel Raposo e Ana Vilela da Costa, entre outros.

Leia a crítica da NiT aos primeiros episódios de “Glória” — e descubra a história real da RARET que inspirou esta série. Carregue na galeria para conhecer outras das séries (e temporadas) novas para descobrir em novembro.

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