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Drogas, violações e abusos: o documentário sobre o lado negro da mansão da Playboy

Hugh Hefner é acusado por antigos trabalhadores e Playmates de gerir uma espécie de culto que assentava no abuso constante de mulheres.
O mundo da Playboy girava à sua volta

Jenniffer Saginor tinha apenas 11 anos quando se mudou para a célebre mansão da Playboy. Seria natural que isso acontecesse, já que era a filha do médico pessoal de Hefner, então magnata do império da marca. Ao contrário das outras dezenas de mulheres que passeavam pela casa, Saginor era vista como uma espécie de filha. Até que deixou de o ser.

Teria apenas 17 anos quando, um dia, foi chamada por Hefner para ir ao seu quarto. Lá dentro, Saginor, hoje com 51 anos, deparou-se com o dono da Playboy na cama, ao lado de uma Playmate, pela qual Hefner sabia que Saginor estava apaixonada.

A jovem sentiu revela que sentiu “a energia a mudar”, enquanto Hefner tentava convencê-las a terem sexo consigo. Saginor recusou e alertou que o pai estava logo ali ao fundo do corredor. “Aqui somos todos uma família”, terá respondido Hefner. O encontro terminou abruptamente e não se voltou a repetir, mas mais de trinta anos depois, a mulher que cresceu na mansão mais famosa do mundo decidiu contar a sua história.

Este é apenas um de muitos testemunhos feitos por mulheres que passaram pelas mãos de Hugh Hefner — que morreu em 2017 com 91 anos — e que agora decidiram revelar os segredos mais sombrios da mansão da Playboy. Em “Secrets of Playboy”, a nova minissérie documental do canal A&E, Hefner é retratado como um homem perigoso que terá tirado partido do seu estatuto para, ao longo de décadas, abusar e violar dezenas de mulheres. Uma espécie de proxeneta de luxo, que dominava as Playmates e as usava para proporcionar orgias aos amigos VIP.

Ao longo de três episódios, a série entrevista antigos trabalhadores de Hefner, bem como diversas Playmates e ex-namoradas do magnata. E todos eles pintam um cenário negro dos anos áureos da Playboy.

Era precisamente na mansão que, todas as quintas-feiras, tinha lugar a Pig Night, a “noite do porco”. A revelação é feita por Stefan Tetenbaum, arrumador de carros da mansão entre os anos 70 e 80.

Nessas noites, as convidadas eram prostitutas recolhidas nas ruas de Los Angeles; uma operação que ficava a cargo de proxenetas locais, a mando de Hefner. Seriam elas as estrelas das orgias que tinham como convidados alguns dos amigos de Hefner, que não corriam quaisquer riscos.

Cada uma das prostitutas era examinada por um médico antes da festa, para despistar qualquer tipo de doenças sexualmente transmissíveis. Hefner, que tratava as prostitutas por “porcas”, deixava apenas uma recomendação aos seus convidados VIP: para não as tratarem dessa forma.

Tratamento pior recebiam as Playmates, as coelhinhas que durante décadas viveram na mansão num ambiente de terror. Segundo várias testemunhas, Hefner agia como se fosse dono de cada uma das mulheres, usadas para alimentar as orgias quase diárias que tinham lugar na mansão. E caso dificultassem a tarefa, eram regularmente tratadas com recurso a medicamentos sedativos, vulgarmente conhecidos por “abre-pernas”, por serem habitualmente usados em casos de violação.

“Era uma espécie de culto. Estas mulheres tinham sido educadas e levadas a acreditar que eram parte desta família, quando na verdade o Hefner acreditava que era dono delas”, explica Miki Garcia, antigo diretor de vendas da Playboy. Mais chocantes são os testemunhos de quem viveu as festas e o dia a dia da mansão na primeira pessoa.

As orgias eram obrigatórias e ninguém ousava dizer que não. “Aconteciam pelo menos cinco noites por semana. Tinham um protocolo. [O Hugh] gostava de dirigi-las e todos seguiam as ordens, porque sabíamos que ele se irritava se isso não acontecesse”, revela Sondra Theodore, antiga modelo que teve uma relação com Hefner nos anos 70.

Theodore assistiu regularmente à chegada de novas mulheres, que rapidamente entravam no esquema maquiavélico de Hefner. “Via-as chegarem, uma atrás da outra, de cara jovem, adoráveis, e a sua beleza rapidamente desvanecia. Nós não éramos nada para ele. Ele era como um vampiro. Sugou a vida destas miúdas durante décadas.”

Não eram só as mulheres que eram inundadas com drogas. O próprio Hefner mantinha-se ativo com uma dose diária de anfetaminas, segundo Lisa Loving Barrett, uma das suas assistentes que dá o testemunho na minissérie. Mas todos, sem exceção, tomavam cocaína. Era tão simples e estava tão rapidamente disponível que existia uma pequena sala de maquilhagem onde todos sabiam existir uma “pilha de cocaína”.

Quem também assistiu a estas orgias “robóticas” foi Holly Madison, antiga namorada de Hefner que se mudou para a mansão em 2000, tinha apenas 21 anos. Logo na primeira noite, foi lhe oferecido um sedativo, que recusou, mas acabaria por participar numa orgia.

“Era tudo muito mecânico e robótico. Limitava-me a copiar o que as outras faziam. Era nojento o facto do Hef nunca querer usar proteção”, revela. De acordo com Madison, Hefner promovia a competição entre as Playmates, motivava-as a fazerem cirurgias plásticas e mantinha-as sob uma ameaça velada.

Entregou-se ao álcool para conseguir sobreviver, mas chegou a ponderar o suicídio. Deixar a casa não era uma opção em cima da mesa. “Tinha medo de sair da casa, apesar de ter essa vontade desde o início”, conta. “Se eu saísse, teria à minha espera uma montanha de revenge porn pronta a ser publicada.”

Hefner aproveitaria os momentos em que as mulheres estavam mais vulneráveis e inconscientes para as fotografar. Os registos eram depois usados nas mais diversas chantagens. “Quando saías com ele, ele estava sempre a tirar fotografias de mulheres inconscientes e nuas. Depois imprimia oito exemplares, para ele e para todas as mulheres passarem de mão em mão. Era nojento”, conta.

Esta pressão levou a que muitas Playmates entrassem em profundas depressões e se refugiassem no álcool e nas drogas. “Chegámos a ter Playmates com overdoses e algumas que cometeram suicídio”, revela Miki Garcia.

Não eram só as moradoras da casa que sofriam, Hefner tinha por hábito convidar jornalistas importantes para visitarem a casa, apenas para os poder apanhar em situações vulneráveis, revela Theodore. “Acabavam por fazer algo de que se arrependiam e ele tinha provas, para mais tarde, caso fosse preciso e estivesse para sair algo de negativo [para a Playboy], ele podia avisá-los de que isso não iria acontecer.”

A minissérie revela ainda dois momentos absolutamente chocantes. Um deles envolveu Linda Lovelace, a famosa atriz pornográfica de “Garganta Funda”, que chegou à mansão já completamente embriagada e drogada.

Já no interior da mansão e envolvida numa orgia com os amigos mais próximos de Hefner, o impensável aconteceu. “De repente, aparece um Pastor Alemão”, conta a antiga matriarca das coelhinhas, PJ Masten. “Conseguiram pô-la tão confusa que ela acabou por fazer sexo oral ao cão. Querem falar sobre depravação? Era nojento.”

O impensável acontecia também fora da mansão, nos vários clubes Playboy que Hefner abriu pelo país. Vendidos como bares sofisticados para membros, eram apenas uma extensão do que acontecia na casa principal — e onde até existiam equipas sempre preparadas para limpar e ocultar qualquer confusão provocada pelos diversos VIP que frequentavam os espaços.

Um desses incidentes envolveu Don Cornelius, famosos apresentador do programa “Soul Train” que morreu em 2012 e que numa noite terá levado duas coelhinhas para sua casa. Lá ficaram, retidas em quartos separados e desaparecidas durante três dias. As duas irmãs de 20 e 21 terão sido amordaçadas e violadas durante esse período.

“A irmã conseguia ouvir a outra a gritar. Havia objetos de madeira com as quais foi sodomizada, ela conseguia ouvir a outra irmã a ser brutalizada. Foi horrível”, revelou Masten. O caso nunca foi denunciado à polícia, apesar de, segundo a própria, Hefner ter tido conhecimento do caso. Cornelius nunca foi suspenso — e uma semana depois estava de volta aos clubes.

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