Televisão

E no chocante episódio final, “Ozark” escorrega — mas não cai

Os fãs odiaram, mas nem tudo é mau no desfecho de uma das melhores séries dos últimos anos.
É o adeus definitivo dos Byrde
80

Tony Soprano, Walter White, Dexter Morgan. As últimas duas décadas de televisão foram também a época dourada do anti-herói, o protagonista pecador cujas qualidades nos enternecem o coração e nos fazem torcer por aquele que seria, em condições normais, o vilão.

Foi na sombra dessas personagens que em 2017 nasceu Marty Byrde e “Ozark”. O anti-herói de Jason Bateman é um engravatado preso num casamento e num lar de classe média. Enterrado pelo sócio numa armadilha de ligações a cartéis de droga, encontra-se pela primeira vez na vida numa situação de risco: ameaçado de morte e desesperado, sela um acordo com os traficantes e promete usar os seus conhecimentos para os ajudar a lavar os milhões do negócio.

Cinco anos e quatro temporadas depois, a viagem de Byrde chegou ao fim num final que chocou (e irritou) muitos fãs. O episódio final que chegou à Netflix a 29 de abril, recebeu milhares de notas negativas. É, à data de hoje, o episódio com pior nota da série, nuns aceitáveis sete valores.

Encerrar uma história desta magnitude é sempre difícil — e não raras vezes uma tarefa ingrata. Há quem só goste de finais felizes, outros encontram conforto na tragédia total e há quem seja totalmente incapaz de lidar com as subtilezas das narrativas e os finais abertos.

No inevitável final, há que tomar algumas decisões difíceis e o pecado de Bill Dubuque e Mark Williams está na forma como hesitaram em tomá-las no desfecho da história. Mas tal como “A Guerra dos Tronos” não caiu automaticamente para a gaveta de “séries a não ver” por ter escorregado no último capítulo, também “Ozark” mantém o estatuto de uma das mais entusiasmantes séries dos últimos anos — e candidata a uma revisão no futuro.

Famosa pelo seu ritmo pausado e sem pressas — ao que, de resto, se mantém orgulhosamente firme no final —, “Ozark” fecha o círculo dos Byrde a escassos metros do que a família perseguia há vários anos: libertar-se da ameaça de morte do cartel Navarro.

Pelo caminho, os Byrde cheiraram o poder e, ao abrigo da eterna desculpa de que “tudo se faz pela família”, acabaram num sítio melhor do que começaram. Prestes a entregarem o cartel ao FBI e a lavagem de dinheiro a Ruth Langmore, precisavam apenas de um calma festa de angariação de fundos para selar o destino e voltarem a Chicago.

O carrossel da última temporada esteve cheio de voltas e reviravoltas, algumas mais credíveis do que outras. Um acelerar que, por vezes, colocou em causa a perícia de joalheiro com que história e personagens iam sendo moldados ao longo dos episódios.

Em último caso, foram precisamente as personagens e as atuações brilhantes — e menos a narrativa — que elevaram “Ozark”. E se Julia Garner foi a indiscutível estrela das primeiras três temporadas, a quarta foi um reinado absolutista de Wendy Byrde (Laura Linney).

A imagem de mãe que largou tudo para cuidar dos filhos foi-se desfazendo, à medida que se tornou mais ambiciosa, mais cruel e implacável. Se Marty procurava escapar da vida de crime o mais incólume possível, Wendy encontrou neste novo percurso a desculpa perfeita para vingar as suas frustrações.

Pelo caminho, um rasto de morte. Tudo isso choca visivelmente na mente e nas feições de Linney, que chega ao limiar da insanidade quando confrontada com a possível perda dos filhos — e a morte do irmão que continua a pesar-lhe na consciência.

É também ela que, nesta temporada, retira o que de melhor há nas personagens de Marty e Ruth. Numa lista das dez cenas mais memoráveis deste final de temporada, a grande tem, obrigatoriamente, como protagonista Wendy. Um testamento à importância da personagem e à destreza com que a personagem é escrita, mas também interpretada.

Por fim, Ruth, a personagem que protagoniza o momento mais chocante do último episódio. Foi talvez uma das decisões mais polémicas do capítulo e que tanto desagradou à maioria dos fãs. É, contudo, um final claramente consistente com o arco da personagem.

Sempre intempestiva, Ruth tomou a decisão de vingar a morte de Wyatt e assassinar Javi Elizondro, um dos traficantes do cartel. Quando tudo parecia que ia resultar e Ruth não só escaparia isenta de culpas, como acabaria os seus dias rica e a gerir o casino, o destino acertou contas. Não foi só o destino: foi a maldição dos Langmore.

Quando as peças estavam já alinhadas, a mãe de Javi confronta Clare Shaw que, perante Marty e Wendy, acaba por se amedrontar e confessar o nome da assassina do filho. O confronto final acontece precisamente no terreno dos Langmore, onde Ruth se despede com uma das suas famosas tiradas, antes de ser baleada no peito. Mais uma vítima da genética familiar dos Langmore — e do reinado de terror dos Byrde.

A decisão é claramente explicada pelo showrunner Chris Mundy. “A Ruth podia ter escolhido vingar-se ou não. E ela sabia que se o fizesse, isso poderia espoletar coisas que poderiam acabar por magoá-la.” E assim aconteceu, pondo um fim honrado e bem montado a uma das melhores personagens da série.

Por esta altura, os Byrde, sob ameaça de morte dos filhos, haviam perdido um par de minutos a tentar pensar numa forma de ajudar Ruth. À medida que disparavam potenciais estratégias, a perceção de que teriam que fazer (mais) um último sacrifício começa a tomar-lhes conta dos nervos. As expressões faciais gelam.

“Marty”, suspira Wendy. “Tenho mesmo de o dizer?”, responde Marty. “Tudo o que tentarmos fazer será um suicídio.” A racionalização estava feita para mais um derradeiro derramamento de sangue. Tudo pela família.

Julia Garner foi uma das grandes revelações

De volta a casa, já com o peso da morte de Ruth nos ombros, ainda vestidos de gala, os Byrde sentam-se na cozinha a meia-luz para um último copo de vinho. Poderia dizer-se que pagaram um preço alto pela liberdade, uma família esfrangalhada, filhos traumatizados, sangue nas mãos da morte de um irmão. Não foi tudo pela família: o caminho levou-os ao topo, enquanto passaram pelo fundo. Os Byrde são uma família rica, poderosa, que pisou tudo e todos pelo caminho, voluntaria ou involuntariamente.

E poderia ter sido aqui terminada a história dos Byrde e de “Ozark”, mas não. Numa decisão final, os criadores fizeram regressar Mel Sattem, o detetive privado que, atormentado pela culpa de se ter vendido aos Byrde, regressa com a prova que pode fazer cair os protagonistas.

Na sua cabeça, tinha deslindado o desaparecimento de Ben e, com o pote das cinzas debaixo do braço, quis anunciar aos Byrde que os iria fazer cair. É a partir daqui que também “Ozark” escorrega. Além de uma decisão pouco condizente com a argúcia que era reconhecida a Sattem, a opção de colocar a decisão final nas mãos de Jonah é um perfeito disparate.

Jonah foi sempre a consciência familiar dos Byrde. Apesar de se deixar encantar pelos esquemas criminosos de lavagem de dinheiro, recusou sempre a via violenta. Deixou a família depois da morte “necessária” de Ben e só foi resgatado após uma demonstração desgraçada do avô, que o levou a recuar na decisão de se mudar definitivamente.

Em momento algum se sentiu que Jonah poderia fazer uma quase inversão total na personagem, que é o que acontece no final realizado precisamente por Jason Bateman — que não consegue resistir à tentação do cliché, do fade to black à moda de “Sopranos”.

Perante a ameaça de Sattem, Jonah surge do nada, espingarda em punho, para salvar o dia. Sattem estremece com receio. Marty e Wendy esboçam uma feição de orgulho e contentamento. O ecrã apaga-se.

O mortal encarpado à retaguarda parecia perfeito no papel, mas Bateman hesita e acrescenta-lhe o som do disparo. O salto acaba com uma aterragem desmazelada. A teoria de que Jonah alvejou os pais não colhe. O disparo, que sabemos graças ao som que aconteceu, terá então ido na direção do detetive — o que significaria que, de forma inexplicável, o herdeiro dos Byrde cruzou finalmente a fronteira para o lado negro. “Pela família.”

Nada disso mancha o que foi “Ozark”, a viagem atribulada e admirável de uma clássica família americana que encontra num sistema corrupto a forma não só de se salvar, mas também de triunfar. É um final feliz para os Byrde, mas ainda assim trágico para todos os que serviram de danos colaterais, em nome da família.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT