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E no grande final, “Better Call Saul” pode mesmo ter destronado “Breaking Bad”

O juízo pode ser contestado, mas é difícil negar que é uma das melhores séries de sempre. Leia a crítica ao derradeiro episódio.
Foi um longo caminho para Saul Goodman
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A quatro episódios do grande final de “Better Call Saul”, quase tudo parecia resolvido. O que restaria por contar em mais de quase quatro horas de televisão? Vince Gilligan e Peter Gould — os criadores de “Breaking Bad” e deste spin-off que chegou ao seu fim na segunda-feira, 15 de agosto — tinham uma boa surpresa preparada para todos os céticos.

No bolso, traziam quatro capítulos que mantêm o seu registo imaculado no que toca à mestria do detalhe e na capacidade de encontrar, quase sempre, a forma mais airosa de encerrar uma história. Quem viveu os traumáticos últimos episódios de “A Guerra dos Tronos” dará o devido respeito a este argumento.

Quase uma década separa o final das duas séries e, em 2015, poucos acreditavam que o sucesso, a originalidade e o brilhantismo de “Breaking Bad” pudesse ser replicado. Sete anos depois, está ainda por acontecer o grande falhanço da dupla Gilligan/Gould.

O spin-off começou a ser magicado em 2013, pouco antes da revelação do apoteótico fim de história de Walter White. Gilligan e Gould tinham garantida a produção de uma nova série centrada em Saul Goodman, o excêntrico advogado criado na segunda temporada da série. Isso revelou-se um problema bicudo de resolver: seria uma série sobre quê?

Goodman era um dos favoritos do fiel público de “Breaking Bad”, mas era também uma personagem abonecada, não raras vezes usado como comic relief. Chegou-se a ponderar criar uma sitcom em torno da personagem — uma comédia sobre as suas desventuras no apoio legal a criminosos mais ou menos talentosos. Perceberam que isso só poderia resultar num fracasso e, em bom tempo, viraram os planos do avesso e centraram-se numa única questão. Se Goodman é, afinal, uma personagem criada por Jimmy McGill, “que problema é que resolveu essa troca de identidade”?

Ao longo de seis temporadas, os criadores esventraram um mudo em três dimensões, sempre a uma velocidade duas rotações abaixo da de “Breaking Bad”. No centro estava Jimmy McGill, um trapaceiro nato com um bom coração a destoar; nas margens, Saul Goodman, Slippin’ Jimmy e Gene Takavic, este último a sua “suposta” derradeira encarnação.

Em “Better Call Saul”, Gilligan e Gould troca as explosões de “Breaking Bad” pelos silêncios. Não é, aliás, a primeira vez que elogiamos esta opção arriscada da dupla nos dias que correm.

A troca das reviravoltas do mundo do crime pelo longo, complexo e ardiloso trabalho do desenvolvimento de personagens compensou e de que maneira. São poucas as séries que, em 2022, dedicam tanta parte do seu tempo a pequenos detalhes aparentemente insignificantes, mas tão gratificantes para quem lhes dá valor e atenção.

Numa das cenas que encerram o episódio final de “Better Call Saul”, poucas palavras são trocadas pelas personagens de Bob Odenkirk e Rhea Seehorn. No cenário a preto e branco, que marca a linha de tempo que sucede os acontecimentos de “Breaking Bad”, partilham, como fizeram durante anos, um cigarro.

Por detrás desse silêncio, das feições marcadas, dos pequenos gestos, está uma das mais intensas e interessantes histórias contadas nos últimos anos da televisão. Gilligan e Gould tiveram a ousadia de confiar nos telespectadores: de os obrigar a preencher os espaços em branco — com a certeza de que lhes deram todas as ferramentas para mergulharem na complexidade de cada personagem.

O episódio final colocou, assim, um fim à epopeia de Jimmy McGill, que regressou à sua mais honesta e mais fiel versão. Num volte-face extraordinário — e após conseguir transformar uma prisão perpétua numa pena de apenas sete anos —, Goodman praticamente deu a vida por um momento de redenção perante Kim Wexler.

Elegantemente, sem melodramas desnecessários, Gilligan e Gould fizeram a aterragem perfeita e colocaram novamente em cima da mesa o dilema: qual é o seu melhor trabalho, “Breaking Bad” ou “Better Call Saul”?

A julgar pela forma com cada uma encerrou a narrativa, será uma resposta difícil de dar. Se o epílogo da vida de Walter White foi sustentado com uma da melhor sequência de episódios da história da televisão, dificilmente se poderá dizer que a conclusão dada a Saul Goodman ficou para trás.

Sem tiros, sangue ou violência. Sem gritos, dramatismos ou histerismos. Bastou apenas o libertar da carga emocional acumulada, cena após cena, gesto após gesto, ao longo de sete longos anos. Resolvidas as linhas de Frings, de Mike e dos Salamancas, com os cartéis bem longe, restava apenas dar um encerramento condigno à trágica relação de Jimmy e Kim. E assim aconteceu, numa homenagem que é tanto um monumento às duas gloriosas personagens, como à forma brilhante como se arrumou uma das melhores séries deste século.

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