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Ele venceu o “Quem Quer Ser Milionário?” em 20 minutos — e quer dar o prémio

Donald Fear tornou-se no vencedor mais rápido, mas nem por isso quer largar a sua velha casa. Férias? Vai de autocaravana.
Afinal a coisa até é fácil

“Que tópico gostava que lhe saísse na última pergunta?”, perguntou o apresentador. “Algo que eu saiba responder”, respondeu o concorrente. Assim que a pergunta apareceu no ecrã, antes sequer dos campos das respostas estarem preenchidos, Donald Fear sabia que era o próximo milionário.

“Qual o pirata que morreu em 1718, na costa daquele que é hoje o estado norte-americano da Carolina do Norte?”, surgia no ecrã. Desta vez, a resposta não saiu fulminante como nas anteriores 14 rondas. Por fim, o concorrente criava um pouco de suspense, que durou apenas o suficiente para dizer as primeiras palavras: “Eu dei aulas de pirataria”. Clarkson revirou os olhos num esgar de espanto.

“A história da pirataria foi um bloco especiais que dei, parte de um bloco maior dedicado ao ‘Crime e Castigo’. Já não sei bem onde e quando morreram os outros, mas sei que o Barba-Negra morreu em 1718 na costa da Carolina do Norte. Resposta final”.

Aos 57 anos, o professor de história e política Donald Fear tornou-se no sexto vencedor dos 22 anos de história versão britânica do concurso — e foi também o mais veloz. Precisou apenas de 20 minutos para levar para casa um milhão de libras, pouco mais de um milhão de euros. O feito teve um enorme impacto, até pelo passado manchado do concurso, que em 2001 viu um dos seus vencedores ser desclassificado por fazer batota, numa história incrível que não deu um filme, mas deu uma minissérie — leia mais neste artigo da NiT.

O jeito para os concursos parece ser tradição familiar. O irmão Davyth havia ocupado aquela mesma cadeira alguns meses antes e conseguiu chegar à penúltima pergunta, onde fraquejou. Donald estava lá.

“Quando me inscrevi no programa ainda não sabia quanto é que ele tinha ganho, mas tinha o objetivo de tentar superá-lo. Quando soube quanto é que ele ganhou, pensei ‘Talvez não’”, confessou ao apresentador Jeremy Clarkson, que a certa altura, revelou sentir-se como quem está “sentado ao lado da Internet vestida de camisa cor de rosa”.

Um homem de datas

“Vai ter que abrandar, é suposto fazer-nos crer que não sabe as respostas todas”, gracejou Clarkson, enquanto via Fear a limpar ronda atrás de ronda, em poucos segundos e sem ajudas.

Nesta versão pandémica do concurso, a ajuda do público — que agora não existe —, transforma-se numa segunda chamada telefónica. Às três ajudas junta-se uma quarta, uma dica do próprio apresentador. Até nisso Fear se destacou: usou apenas a dos 50/50, apenas para confirmar o palpite do qual tinha quase certeza.

Perante a espantosa eficácia e rapidez nas respostas, foi questionado sobre a sua evidente “capacidade de absorção de informação”. Como é que isto acontece? “Como professor de história, o meu trabalho é saber coisas. Sempre foi algo de natural para mim. Lia os Atlas por diversão, memorizava listas de reis e rainhas, gostava disso”, explicou.

Chegada à penúltima pergunta, ainda as respostas não tinham surgido e Fear já sorria. Uma pergunta sobre política veio mesmo a calhar e foi resolvida com a rapidez habitual. “É inacreditável como a forma como as perguntas estão a cair”, confessou.

Já depois do final do concurso, abordou a forma simples como fintou a penúltima ronda. “A questão é algo básico que tem que se saber em qualquer curso de política”, revelou.

Um homem com nervos de aço

No estúdio, perante a possibilidade de sucesso daquele que seria o primeiro homem a vencer o concurso em 14 anos, os trabalhadores de outros programas começaram a acumular-se atrás da câmara. Toda a gente queria ver o momento decisivo.

Fear não fraquejou e todos se interrogaram: como é que ele sabia a resposta certa? “Sou um homem de datas. Não se é um professor de história durante 33 anos sem saber umas quantas — e a data de 1718 e o nome Barba-Negra vieram logo à memória.”

Claramente um conhecedor de ciência, história e política, admitiu mais tarde que talvez tivesse sofrido mais se as questões tivessem abordado a cultura pop.
Tenho umas quantas coletâneas da ‘NOW’ em CD, mas não sei quem era o número um em 2004”, revelou. E quando lhe perguntaram se conhecia as Kardashians, Fear foi tão rápido a admitir a derrota como a limpar rondas no concurso: “Quem?”.

O milionário socialista

Ainda o milhão estava à distância de 15 perguntas e Fear explicava a Clarkson o que faria com o dinheiro, isto se eventualmente conseguisse bater o irmão. “Talvez uma extravagância em termos de viagens, se tal for possível no meio da pandemia. Gostava de fazer um safari, viajar pela América, América do Sul, Peru. Um pouco por todo o lado”, respondeu.

A viagem foi bem mais curta. Com viagem marcada para Espanha que acabou por ser cancelada por causa do fecho dos corredores aéreos, pegou no milhão acabado de ganhar e embarcou numas humildes férias num parque de campismo na zona balnear britânica de Whitley Bay.

E nas próximas férias? “Por enquanto vamos viajar pela maravilhosa Grã-Bretanha, provavelmente começar pelo País de Gales — uma viagem de autocaravana em Gales, é nisso que eu vou gastar o milhão de libras”, confessa.

O professor que levava uma vida modesta é parco nas palavras sobre o futuro. “Não sei como gastar tanto dinheiro”, explica, antes de sublinhar que vai tentar garantir uma reforma confortável. “Os meus gostos são bastante sensatos. Gasto algum em CD, mas terei alguma dificuldade em gastar todo este dinheiro a comprar CD.”

A família tem motivos para sorrir

Apesar da modéstia, Fear parece já ter definido o destino de parte do prémio, ele que se descreve como “um pouco socialista democrata”. O bem-sucedido concorrente revelou que pretende distribuir pelo menos 70 por cento do prémio pela família — e afasta qualquer sugestão de carros luxuosos ou uma nova casa. “Moro num sítio lindo e já estou aqui há 27 anos”, aponta.

De origens humildes, cresceu num lar onde não havia televisão ou carro. O serão, recorda, era passado a jogar concursos de trivia. Nesta história, surge sempre o irmão Davyth, cujo feito Donald conseguiu mesmo superar.

Terá o irmão mais velho ficado chateado com o recorde quebrado pelo mais novo? “Ele está feliz por mim. [Depois de vencer] fomos de fim de semana com as esposas e embebedámo-nos juntos”.

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