Televisão

Era um adolescente fã do “Contra Informação”, agora faço a voz dos bonecos

O humorista Miguel Lambertini explica como conseguiu o seu mais recente trabalho neste remake do clássico da televisão.
O cronista é uma das cinco pessoas que fazem vozes.

Esta segunda-feira, 1 de março, estreou no portal Sapo o programa de humor “Do Contra”, a nova versão do clássico “Contra Informação”. Lembro-me de ser adolescente e ficar fascinado com a forma como estes bonecos e as suas vozes satirizavam, com humor, a realidade social e política do nosso país. Imaginei muitas vezes como seria fazer parte desta equipa de gente talentosa e deste programa que é, também ele, parte da história do humor português, mas nunca imaginei que isso pudesse um dia tornar-se realidade. 

Valeu, Miguel

Foi há mais de um ano que li um tweet do João Quadros que falava sobre o possível regresso do “Contra”. Desde esse momento que entrei em modo ninja e não descansei enquanto não consegui entrar em contacto com os produtores. No dia 7 de outubro de 2020, enviei-lhes uma mensagem via Linkedin, onde contava um pouco do meu percurso e partilhava um link com algumas imitações minhas.

A Mafalda respondeu no dia seguinte com a simples frase “valeu, Miguel”. Confesso que fiquei um pouco confuso. Como assim, valeu Miguel? O que é que isso quer dizer? Gostou? Odiou? Nem sequer um emoji para dar um bocadinho de cor. Apenas, “valeu, Miguel”. Percebi depois que era uma daquelas mensagens pré-escritas que o Linkedin apresenta na caixa de mensagens e então pensei para mim, “Ok, odiou. Pronto, olha, ao menos tentei”.

Depois, não sei porquê, deu-me um rasgo de nostalgia e veio-me à ideia a primeira imitação que me lembro de fazer. Foi ainda no século passado, e dito assim parece ter sido realmente há muitos, muitos anos. O imitado chamava-se Albertino e não é uma figura pública, mas era para mim, aluno do ensino primário, uma figura com uma aura fabulosa. Além de se chamar Albertino, claro, o que é desde logo um atributo fascinante para um miúdo habituado a conviver com nomes mais banais.

É costume dizer-se que, não raras vezes, as caricaturas ou imitações são uma forma de prestar homenagem. No meu caso foi mais do que isso, foi a forma ardilosa que encontrei, no esplendor dos meus sete ou oito anos, para cair nas graças deste homem que se apresentava sempre impecavelmente aprumado, do cabelo até às sandálias, envergando o seu hábito castanho, tão bem cuidado que lhe assentava como um fraque.

O Frei Albertino, como todos lhe chamavam, era um género de adido da Ordem Franciscana junto dos alunos do meu colégio, que era dirigido justamente por padres franciscanos. Era ele quem nos despertava a imaginação com episódios da vida de São Francisco de Assis, que me soavam na altura a excertos saídos de uma história de super-heróis. Mas mais do que isso, era o Frei Albertino que animava, de quando em vez, as nossas aulas e por isso sempre que o frade entrava pela sala adentro com a sua guitarra na mão, o meu dia alegrava-se imediatamente.

O Frei Albertino tinha uma voz estupenda e uma particularidade que me fez imediatamente querer imitá-lo: cantava sempre como se estivesse a entoar um salmo responsorial. Para quem tem mais do que fazer e não está tão familiarizado com o vocabulário litúrgico, basicamente o Frei cantava com a mesma modulação que aquela senhora que protagonizou o clássico meme “está muito alto”. A diferença é que não desafinava e a sua voz de tenor dava às músicas um toque especial. Fosse o “parabéns a você” ou “a minha sogra é um boi” dos Mata Ratos, naquela voz qualquer música ficava com um tom angelical.

Estranhamente, o Frei Albertino não costumava cantar-nos músicas do reportório dos Mata Ratos, mas até hoje nunca esqueci o prazer que me dava imitá-lo a cantar o hino do colégio, “Paaaaaz e beeeem, a toda a criatura saúdo por irmã”. É um prazer semelhante ao que tenho quando hoje imito as vozes do José Rodrigues dos Santos, do Jorge Jesus, do presidente Marcelo, do D. Duarte Pio, da Maria Vieira ou até do meu vizinho do quinto esquerdo, quando grita no duche “liguem o esquentador!!!”

Ser “Do Contra”

Cerca de uma semana mais tarde, após esta nostálgica reflexão, recebi um email da Mafalda com o título “Contra”. Confesso que fiquei mais excitado do que o Chicão à porta da Toys R’ Us mas lá me compus e cliquei no título.

Nesse email a produtora agradecia o meu contacto e escrevia “estive a ouvir as suas imitações e acho que tem algumas realmente boas. E o Trump? Consegue fazer a voz dele? Veja o que tem de personagens internacionais.” Fiquei estupidamente entusiasmado mas disfarcei, para não dar azar, como bom supersticioso que sou.

Felizmente, a partir daí as coisas rolaram, a equipa recebeu-me de braços abertos e hoje tenho a sorte de poder acrescentar ao meu dia a dia de trabalho o privilégio de dar voz a alguns dos bonecos “Do Contra”. Sejam as personagens mais recentes ou os eternos clássicos, como dizia o outro, não importa: “Quantos são! Venham todos que eu não tenho medo de ninguém!”

Leia também a reportagem da NiT nos bastidores de “Do Contra”.

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