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Este homem escalou os 14 picos mais altos do mundo em apenas sete meses

Nirmal Purja fez o que toda a gente no mundo dizia que era impossível. Apesar das críticas, o seu recorde é o centro de “14 Montanhas”, o novo documentário da Netflix.
Purja deixou as forças de elite do exército para concretizar o sonho

A fotografia tirada a poucos metros do cume do Evereste rapidamente correu o mundo. Nela, um engarrafamento de montanhistas — na sua maioria ocidentais que pagam pela experiência de subir ao pico do planeta — atropela-se num estreito caminho, a aguardar a vez de chegar ao mais desejado pico.

Quase anónimo, do outro lado da câmara estava Nirmal Purja, um nepalês que tinha uma agenda mais complicada do que a dos montanhistas que se acumulavam à sua frente. Para trás já tinha deixado o temível Annapurna, o Dhaulagiri e o Kanchenjunga. Todas elas subidas acima dos oito mil metros de altitude, a chamada zona da morte.

A tarefa dantesca era apenas a primeira parte do Project Possible 14/7, uma meta ambiciosa que o montanhista nepalês de 38 definiu para si próprio. Purja não queria bater recordes, queria criar uma categoria só sua.

Em todo o planeta existem 14 picos acima dos oito mil metros. O nepalês queria escalá-los todos em tempo recorde. O que deveria levar cerca de oito anos, teria que ser feito em apenas sete meses. Impossível, diziam muitos. “Nada é impossível”, respondeu Purja, que acabou por ver essa máxima no novo documentário da Netflix, “14 Montanhas”, que estreou a 29 de novembro.

O facto de ter mostrado que semelhante ato de loucura poderia ser possível, não significa que tenha sido fácil. Longe disso. Ainda antes de chegar ao Evereste e ver a sua fotografia fazer manchete em centenas de jornais, esbarrou na primeira grande barreira, se não física, pelo menos mental.

Após chegar ao cume do Kanchenjunga, Purja e a sua equipa cruzam-se com um montanhista preso, a apenas 100 metros do topo. Estava sem oxigénio e num estado físico que não lhe permitia fazer o percurso de regresso. A equipa do Project Possible parou e acudiu-o. Pediram ajuda, mas ninguém chegou antes do anoitecer.

Mantiveram-se juntos durante 12 horas. Se até então apenas o homem tinha a vida em risco, também os seus salvadores estavam agora em perigo. Infelizmente, o montanhista não sobreviveu e morreu nos braços de Purja, que estava também ele em mau estado, sobretudo devido às alucinações provocadas pelo ECGA, um edema cerebral de grande altitude, frequente nos montanhistas que se encontram em dificuldades.

“Pela primeira vez, comecei a questionar o meu plano”, confessou o nepalês, que apesar de ainda a alucinar — confundiu outro colega com um Ieti —, foi capaz de escapar para prosseguir a escalada dos maiores picos do mundo.

No final de 2019, a missão estava cumprida. Ao Evereste seguiram-se os cumes de Lhotse e Makalu. Na segunda fase, Purja perdeu a cabeça e em apenas um mês — de 6 a 26 de julho —, escalou o Nanga Parbat, os Gasherbrum I e II, o K2 e o Broad Peak. O recorde foi estabelecido com um último esforço para chegar aos picos do Cho Oyu, Manaslu e Shishapangma.

Se o objetivo principal do projeto era mais do que ambicioso, a verdade é que Purja foi atirando uma ou outra pedra às engrenagens e, pelo caminho, a quebrar outros recordes. Completou as mais rápidas subidas da história das três maiores montanhas do mundo (Evereste, K2 e Kanchenjunga), mas também dos três picos mais altos. Foi também o autor de outra proeza que não surge no filme, já que foi atingida em 2021: escalar o K2 durante o inverno e sem a ajuda de botijas de oxigénio.

“Foi uma escolha minha, tinha as minhas razões. Foi uma decisão dura, mas um risco calculado. A minha autoconfiança, o facto de conhecer bem o meu corpo, a capacidade e a minha experiência de percorrer aqueles picos permitiu-me não só acompanhar o resto da equipa mas também liderá-los”, conta.

Purja é um herói improvável. Os montanhistas que fazem capas por escalarem os mais altos picos são quase sempre ocidentais. E em quase todos os casos, a chegada ao cume é possibilitada por uma equipa de sherpas, o povo que vive nas montanhas e que se habituou à dureza da vida em altitude.

O nepalês sente que é um representante desse grupo anónimo mas que está quase sempre por trás dos maiores feitos na escalada. Não foram apenas as estrelas do montanhismo que quebraram os cumes — com eles estavam outros homens que passaram pelas mesmas dificuldades, perigos e incertezas.

Nims, como é conhecido no mundo da escalada, nasceu no Nepal e ingressou nas Forças Armadas britânicas, onde fez parte da Brigada de Ghurkas, a força de elite nepalesa parte do exército britânico. Só começou a escalar em 2012 e por essa altura percebeu que tinha um dom.

“Fisicamente, acho que tenho uma propensão natural para isto. Não importa quão extremo é o desafio, eu não desisto. Consigo escalar sem dormir ou sem descansar”, conta. Os exames físicos feitos por especialistas revelaram isso mesmo, que Purja tem uma fisiologia única que lhe permite ser melhor do que todos os outros, pelo menos na montanha.

“Para mim, correr 100 metros ao nível do mar leva-me 11 ou 12 segundos. Consigo fazê-lo à mesma velocidade em altitude. É assim que eu sou. Não consigo bater ninguém no chão, mas lá em cima consigo bater qualquer pessoa”, explica.

Contrariamente ao que é habitual, Purja destacou cada um dos sherpas da sua equipa, que desta vez não ficaram anónimos. Não eram apenas sherpas, eram homens que completaram o feito ao seu lado: Mingma David, Gesman Tamang, Geljen, Saney e Lakpa Dendi.

“Os sherpas estiveram sempre envolvidos, a montar as cordas, mas nunca tiveram uma plataforma através da qual pudessem contar a sua história. Permaneceram sempre na sombra. Mas agora com a Internet e todas essas plataformas, podem aparecer. E a verdade vem sempre ao de cima”, conta.

Mesmo batendo recordes, o feito de Purja foi alvo de críticas de outros montanhistas, que apontaram para o facto do nepalês ter usado sempre oxigénio acima dos 7.500 metros, além de toda uma equipa que ajudou a fixar as cordas através das quais escalou os picos.

“O que ele fez é extraordinário, mas não é montanhismo. Montanhismo a sério é exploratório, trata-se de encontrar novas rotas para subir aos grandes picos. Não vejo como é que isto seja um feito histórico”, atirou o alpinista britânico Chris Bonington. “É uma performance que parece ser espetacular, mas não é espetacular”, sublinhou o colega de profissão Ralf Dujmovits.

Purja quis homenagear os quase sempre anónimos sherpas

As críticas tornaram-se ainda mais ferozes. Stephen Venables, o primeiro britânico a escalar o Evereste sem oxigénio, explicou que o uso de botijas menoriza o feito de Purja. “Sei que também usou cordas fixas. Não é bem alpinismo na minha conceção do termo. Certamente que vai entrar no Guinness, mas na história do montanhismo, será apenas uma nota de rodapé.”

Muitos apontaram para o feito do coreano Kim Chang-ho, que escalou os mesmos 14 picos, apesar de ter demorado perto de oito anos. Contudo, fê-lo sem o auxílio de oxigénio. Purja não gostou e ripostou, acusando os críticos de “federem a colonialismo” e de os “ocidentais não suportarem o sucesso dos nepaleses”.

Purja dedicou-se de corpo inteiro à missão do Project Possible. O militar abandonou as forças especiais a seis anos de ter direito a uma reforma completa. E teve que vender a casa para conseguir ter meios financeiros para concretizar o sonho.

“Não me alistei nas forças especiais por dinheiro e certamente que não estou a fazer isto por dinheiro. Sempre segui o meu coração”, conclui.

Mesmo antes de completar a subida aos 14 picos, Purja confessava a sua desilusão com o preconceito latente no mundo do alpinismo. “Sejamos honestos, se outra pessoa tivesse feito isto, estariam na capa de todos os jornais”, explicou em 2019, depois de dar nas vistas graças à fotografia que tirou no Evereste.

Com ou sem capas, o feito de Purja deu origem a um documentário da Netflix que agora chega a todo o mundo. Mas não foi essa a maior conquista do nepalês.

Assim que chegou ao cume do Sishapangma — depois de ver recusado o seu primeiro pedido para a escalada pelas autoridades chinesas —, ligou à mãe, doente em estado terminal. “Conseguimos”, disse-lhe, mesmo sabendo que poderia não regressar a tempo de se despedir dela em vida. Voltaria a casa a tempo de um último encontro. A mãe haveria de morrer quatro meses depois. “Durante a fase mais difícil da minha vida, sempre pensei em ti e foi em ti que encontrei a força necessária”, conclui em homenagem.

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