Televisão

Estou em isolamento e aproveitei para experimentar o “Big Brother” da Netflix

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa "Love is Blind", o primeiro reality show da plataforma de streaming.
Tem uma temporada, por enquanto.

Era suposto o “Big Brother” estrear no próximo domingo, 22 de março, na TVI, para que milhões de portugueses pudessem acompanhar o dia a dia de dez pessoas fechadas numa casa. Ironicamente, com o estado de emergência por causa do coronavírus, dez milhões de portugueses estão fechados em casa e todos passamos a ser uma espécie de concorrentes do “Big Brother”.

Cá por casa até já começámos a usar chinelos da Fila com meias, convertemos a casa de banho num confessionário e, não quero parecer gabarolas, mas tenho impressão que mais dois ou três dias e tenho hipóteses de sacar a minha mulher no quarto do amor. Começa a ser difícil encontrar atividades para entreter os miúdos em casa e só ainda não aderi às sopas de cavalo cansado porque é um desperdício de bom vinho, e neste momento há que poupar.  

É certo que já não vai poder assistir ao mais antigo reality show da televisão portuguesa, mas agora que tem algum tempo extra porque não experimentar a nova alternativa da Netflix, “Love is Blind”? O mote “o amor é cego” é a base desta experiência social que procura encontrar o amor entre desconhecidos. Numa casa que inclui dois espaços — um dedicado às mulheres, e outro destinado aos homens — todos os participantes estão à procura do amor e esperam sair do programa casados.

Ao contrário de outros formatos, como “Casados à Primeira Vista”, aqui os participantes só podem conhecer-se através de “cápsulas”, um género de mini quartos decorados em estilo “Star Trek”, separados apenas por um vidro fosco.

Aqui têm encontros a dois onde podem ouvir a voz um do outro, mas sem nunca poderem ver quem é a pessoa que está do lado de lá. No fundo, é uma versão atualizada dos encontros online, onde muitas vezes as pessoas não se vêem e falam apenas pelo chat, e isso não as impede de se apaixonarem loucamente. O problema é quando descobrem, dois meses depois, que afinal não estiveram a falar com a Rita, aluna da Católica e campeã de surf, mas com o Carlos Alberto, contabilista de 55 anos da Bobadela… E que entretanto aquelas dick pics que lhe enviaram com um emoji de um coração já estão a rodar meio mundo na deep web. 

Em “Love is Blind” não se coloca essa questão, porque não há roubos de identidade, mas poderá haver algumas surpresas. No primeiro episódio ficamos a conhecer os principais concorrentes e percebemos que muitos escapam aos estereótipos que estamos habituados a ver na sociedade americana: o mexicano que não tem traços latinos, a miúda muito feminina e aparentemente frágil que é ex-militar, o cientista que não tem óculos e tem aspeto de jogador de futebol americano, tudo para mostrar que o amor é cego e quem vê caras não vê corações — à exceção talvez de cirurgiões plásticos que sejam também cardiologistas. 

Depois destes encontros, os participantes podem escolher pedir em casamento uma das pessoas que conheceram e isso significa que irão casar-se passados 30 dias. Segue-se a lua de mel num destino paradisíaco, e a partir daí voltam juntos para a vida real, onde vão poder conhecer as respetivas famílias e perceber que afinal não têm nada a ver um com o outro e aquela foi a decisão mais idiota das suas vidas. Atenção, isto não é um spoiler, eu só vi mesmo o primeiro episódio e não sei o que acontecerá nos próximos, mas quase que podia apostar que estas relações vão durar tanto como um pacote de bolachas aberto na despensa. 

“É literalmente a primeira vez que uma experiência destas é feita”, diz o apresentador Nick Lachey enquanto dá as boas vindas aos concorrentes. Mas, lamentavelmente, Nick não está a dizer a verdade, isto porque há 25 anos já a SIC tinha lançado o “Encontros Imediatos”, apresentado pela Maria Vieira — sim, a parrachita apresentou programas de televisão — cuja premissa era exatamente a de escolher um companheiro sem nunca o ver antes. Claro que no reality show da Netflix não há pessoas desdentadas, mas de resto é muito semelhante.  

“Estar nesta experiência é uma sensação surreal. Coisas que acontecem num dia aqui podem demorar meses ou mais lá fora. É uma montanha russa de emoções”, explica Cameron, um dos participantes. A quem o dizes, meu caro, eu estou fechado em casa há uma semana e se vejo mais um anúncio da Sagres com um grupo de amigos na praia a beber cervejas ao pôr do sol, começo a chorar compulsivamente.  

Se estiverem tão entediados como eu, fica a sugestão para animar o vosso tempo de quarentena em casa, agora que todos fazemos parte da nova edição do “Big Brother 2020”. Entretanto vou só ali ao confessionário pedir à produção mais uns rolos de fita adesiva e corda, para brincar com os meus filhos aos índios e cowboys.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT