Televisão

Euforia e óculos falsos. A história de um dos primeiros pivôs negros da TV nacional

Cláudio França é o homem do momento, mas há duas décadas, José Mussuaili já fazia história na recém-inaugurada TVI.
Ele foi um dos primeiros pivôs negros na TV nacional

Foi um noticiário da manhã de fim de semana como outro qualquer. O mesmo genérico, a mesma mesa, os temas do dia. Em frente à câmara, como sempre, um pivô. Só que desta vez, todos repararam em Cláudio França, o jornalista que se estreou na posição. O que havia de diferente? A cor de pele.

A novidade que não é absoluta lançou o País num debate. De um lado, exaltava-se a conquista de um jovem que prossegue o caminho trilhado por poucos: contam-se pelos dedos os pivôs de pele negra que tiveram lugar de destaque na televisão. Do outro, os que viam na novidade algo que não seria digno de notícia. No coro de fundo, a franja radical do costume.

Para José Mussuaili, nada disto é novo. Há cerca de 25 anos, era ele quem se sentava à mesma secretária, em frente a uma câmara, a enfrentar o mesmo medo, o mesmo nervosismo, a colocar-se a si próprio as mesmas interrogações. Na era do jornalismo moderno, foi ele quem desbravou o caminho.

Filho de pais moçambicanos que se mudaram para Portugal na década de 60, nasceu e cresceu em Lisboa. Formou-se na rádio e acabou por ter a primeira experiência de televisão na equipa fundadora da TVI, em 1993. Ainda hoje, com 52 anos, recorda o dia em que foi escolhido como um dos dias mais felizes da sua vida.

Acabaria por fazer história ao ser chamado para se sentar no lugar de maior destaque de um canal televisivo: à frente da câmara como o homem que nos revela tudo o que de mais importante aconteceu nesse dia. No bairro onde vivia, recorda, “foi um tumulto”, de tal forma que nessa noite nem voltou a casa.

Mais de duas décadas depois, passou por diversos projetos e além de repórter, continuou a ser pivô na Banda TV, canal de cabo angolano. Hoje assiste com satisfação ao fenómeno de Cláudio França que, recorda, não é caso único. Além de deixar conselhos valiosos ao jovem jornalista que lhe segue as pisadas, é perentório na avaliação que faz da sociedade portuguesa: apesar das desigualdades raciais que precisam de ser resolvidas, acredita que “a sociedade não é racista”.

A aparição de Cláudio França como pivô gerou uma espécie de divisão. Enquanto uns aplaudiam, outros sublinhavam que tudo isto é uma não-notícia. Será?
Eu queria que fosse uma não-notícia, mas infelizmente é uma notícia. Há 25 anos, eu fui o primeiro jornalista negro a apresentar notícias em Portugal — o Adriano Parreira fê-lo nos anos 60, época em que se lançava a propaganda de que o País ia do Minho a Timor, e convinha que ele aparecesse —, e pelo meio tivemos outros, da Conceição Queiroz à Maria João Silveira. Mas de facto um negro como eu e o Cláudio, não existiam. Isto mostra a diversidade na sociedade portuguesa e espero que seja para continuar, para que daqui a meia-dúzia de anos não seja novidade nenhuma aparecer uma mulher negra de tranças a apresentar notícias. Ou um indiano. E porque não um chinês?

Fala-se muito desse dia, aquele em que se deixa de falar na questão da raça, o dia em que há uma representatividade plena. Como é que isso se mede?
Em Inglaterra e principalmente nos Estados Unidos, encontras pessoas de outras raças e etnias não brancas. Para eles não é novidade nenhuma. Isso vai acontecer quando começarem a entrar Cláudios e Conceições, sempre por mérito. Assim que começarem a aparecer naturalmente, as pessoas vão achar completamente normal.

Adriano Parreira foi pivô da RTP nos anos 60

Ainda não chegámos la?
Acho que para o cidadão comum já é normal. Estava um café ao lado de casa quando o Cláudio apareceu e as pessoas ouviram as notícias e ninguém se manifestou. Para os portugueses começa a deixar de ser tabu ou uma novidade. Agora, as instituições têm que assumir essa postura, não olhar a raças. Nos últimos tempos temos vivido alguns problemas raciais,mas julgo que são questões passageiras. A sociedade portuguesa não é racista, temos é pessoas que são racistas.

Do outro lado dos aplausos, houve quem apontasse o dedo e dissesse que estar a sublinhar a cor da pele do pivô é que é, por si, um ato racista. Isto faz sentido?
Eu acho que sim, que é normal virem com esse tipo de afirmações. Foi algo que fez despertar vários sentimentos de alegria, outros de espanto, de dizerem “porque é que estão espantados de isto não é novidade nenhuma”? Foi uma espécie de abanão controlado, porque já vimos africanos a apresentarem notícias na televisão nacional.

Chegará o dia em que deixaremos de falar sobre o assunto. Esse é o dia em que atingimos a tão desejada normalidade?
Exatamente. Mais ano menos ano, isso vai acontecer. A TVI deu o pontapé de saída comigo, isto falando da era moderna. Já tivemos a Alberta Marques Fernandes, a Maria João Silveira. Há uma tendência para normalizar, embora ainda haja uma resistência nas nossas redações ao acolher jornalistas negros. Quando os acolhem, não lhes dão o destaque que foi dado ao Cláudio ou aos outros. Porque será? Não têm talento? Não acredito nisso. Não sou só eu ou os que vieram depois de mim que têm talento. Há que dar oportunidades às pessoas.

“A sociedade portuguesa não é racista, temos é pessoas que são racistas”

Só?
Também não se podem acanhar. Eu lancei-me ao desafio, não tive vergonha. Fui para a Assembleia da República, fazia diretos sem qualquer tipo de complexo, de medo que estivessem a olhar para mim. Fui sempre sem qualquer sentimento de inferioridade.

Sublinhou-se também a coragem de Cláudio optar pelas rastas, sem as tentar esconder ou de certa forma normalizar o look. Isso também é importante?
É uma grande evolução deixarem-no usar as rastas enquanto apresenta as notícias. Mostra que a sociedade está a dar passos seguros e grandes para que a coisa seja normalizada. Isto apesar de no outro lado irem surgindo os partidos como o Chega.

Diz que Portugal não é racista. Só falta resolver a questão dos desequilíbrios?
É isso. Há um fenómeno mas creio que o Chega não representa a sociedade portuguesa. Acho que é uma questão passageira, mais ligada a dificuldades económicas. Na sua generalidade, não acho que a sociedade seja racista.

Começou na rádio. Nunca teve o sonho de ser pivô?
O meu irmão foi convidado para fazer um programa na rádio. Eu tinha para aí 19 anos, achava que tinha jeito para a música, tinha a mania que era DJ e era eu que escolhia a música do programa. Quando ele foi para a tropa, escolheram-me para o substituir. Eu achava que não tinha jeito, não queria, até porque às vezes gaguejo.

“O dia em que me convidaram para ser repórter da TVI foi um dos dias mais felizes da minha vida”

Como é que chegou à TVI?
Fiz rádio na Margem Sul, passei para a Voz de Almada e um dia encontrei-me com o José Carlos Soares, que me perguntou se não queria ir para um canal novo da igreja. Eu disse que sim, fiz um curso de três meses de jornalismo televisivo, correu bem e convidaram-me para ser repórter no canal. Foi um dos dias mais felizes da minha vida.

E daí ate chegar à secretária do pivô?
Já tinha alguma bagagem de reportagem política, mas depois comecei a fazer sociedade, gostava muito de ir até às aldeias. Do nada, para aí em 1993, sou convidado para ser pivô e substituir o Paulo Salvador. Creio que foi propositado, usaram essa desculpa para me lançarem. Lançaram-me num sábado, no Jornal da Uma.

Chegou a comentar que o atiraram para a frente das câmaras sem preparação.
Foi. Eu fazia parte da equipa de fim de semana. Tinha treinado uma vez, se tanto. Fui lançado às feras, estava nervosíssimo nesse dia. As pessoas perceberam e começaram a ficar preocupadas. O José Carlos Soares virou-se para mim e disse: “Tu não fazes diretos todos os dias? Não lês noticiários na rádio? Qual é o problema? Só é diferente porque é televisão. Só tens que ler o pivô que escreveste e acabou, não tens que estar com merdas que estás nervoso”. Correu tudo bem.

Numa das emissões da TVI — com os óculos de que não precisava

O pivô é uma das caras do canal, a imagem da marca. Sentiu que a cor poderia ser um problema?
A única discussão que houve dentro da redação foi se eu devia usar óculos ou não, isto porque eu não precisava deles, não usava no dia a dia. O Paulo Salvador bateu o pé e disse que os ia usar, para dar uma imagem melhor, até porque eu tinha cara de puto, mas já tinha por volta de 25. Colocaram-me um par de óculos para ter um ar mais responsável.

O que aconteceu depois dessa primeira aparição como pivô?
Morava no Barreiro e aquilo foi um boom. As pessoas da zona sabiam que eu estava ligado à comunicação social mas nunca pensaram que ia ser apresentador. Nesse dia houve uma revolução, um tumulto no bairro. O meu pai ligou-me logo a dizer para eu não ir para casa, porque tinha centenas de pessoas à minha espera. Aconselhou-me a ficar em Lisboa a dormir em casa da minha namorada. Estava um circo montado, tudo eufórico. Passado uns dias apareci e fizeram-me uma festa. Vendo agora à distância, acho que devia ter ido para lá nesse dia.

“No dia da estreia o meu pai ligou-me a dizer para não ir para casa. Estavam centenas de pessoas à minha espera no bairro”

Se hoje é normal ver negros na televisão, se há talento, se há vontade, porque não há mais representatividade? Deve avançar-se para um modelo de quotas?
Acho que seriam uma boa solução para Portugal. Existe no Brasil, creio que também nos Estados Unidos. Tem que haver representatividade, até para que outras etnias estejam representados. Temos uma grande comunidade, mas não temos, por exemplo, nenhum indiano na televisão portuguesa. A TV é um espelho da sociedade e se ela é formada por brancos, negros ou indianos, essas pessoas devem estar lá, até para servirem de exemplo aos mais novos. Eu não conheço o Cláudio, mas ninguém me diz que não posso ter servido de inspiração. A própria Conceição Queiroz já me confessou que se inspirou um pouco em mim. É uma questão de auto-estima para as próprias comunidades. Devem ter essa oportunidade, desde que tenham talento.

Que conselho daria ao Cláudio França?
Não ligar aos comentários que com certeza vai ouvir dentro e fora da redação. Se não ligar ao comentários que criam revolta nas pessoas — como aconteceu comigo —, vai correr bem. Tem que fazer o seu trabalho sem dar motivo às chefiar para o tirarem do ar, porque se ele está lá, é porque confiam nele. E que nunca deixe de ser jornalista. Já vi aí pela redes sociais, possivelmente pessoas ligadas ao Chega, a mandarem bocas por causa do cabelo. Ele que siga em frente, tem talento, é jovem, vai ter sucesso.

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