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Fábio Porchat: “O Porto que me perdoe mas sou mais lisboeta”

Entre o amor a Portugal e nadar nu numa gruta importante para Jon Snow, Fábio Porchat tem histórias para partilhar com a NiT.
Fábio Porchat tem novo programa por cá.

Aos 37 anos, Fábio Porchat é um dos comediantes brasileiros mais acarinhados em Portugal. E este é um daqueles casos em que o amor é recíproco. Numa altura em que o programa mais recente do comediante, “Que História é Essa, Porchat”, estreou na televisão portuguesa, a NiT foi descobrir que histórias vêm ai.

Num tempo em que entre pandemia e a tensão no Brasil parece haver pouco espaço para rir, o comediante lembra que mais do que nunca o humor é bem-vindo. É saudável para todos, incluindo a própria liberdade de expressão, que precisa que haja quem seja capaz de pisar o risco para garantir que ainda há liberdade.

A primeira temporada de “Que História É Essa, Porchat” estreou em Portugal na Globo, no último domingo, 8 de novembro, pelas 20h30. Entre convidados e público, há sempre novas histórias para descobrir.

Como tem sido este tempo de pandemia para o Fábio Porchat?
São mixed feelings. São tantas coisas de que a pessoa se vai dando conta. É lógico que para mim é mais fácil, sou de classe alta, tenho possibilidades, onde me segurar. Costumo dizer que não estamos todos no mesmo barco. Estamos todos no mesmo oceano, cada um no seu barco. O que é diferente. Em sociedade precisamos de ajudar um ao outro. Nós temos aqui um governo muito triste, que faz com que a pandemia seja inclusive politizada. Mas de um modo geral, estou bem. Estive em quarentena muito tempo, saindo pouco para coisas pontuais, como mercado ou farmácia. E agora já voltei a gravar. Já fiz o teste do nariz umas doze vezes, o meu nariz é praticamente um túnel.

Não deu para descansar?
Quando começou a quarentena a primeira coisa que pensei foi “vou descansar, não vou fazer nada”. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que nada disso era verdade. Trabalhei tanto quanto antes. Alguns dias até pior, porque como não há o trânsito habitual nem tenho essa desculpa, não é? Há uma reunião e outra e outra. Mas consegui voltar às aulas de inglês, a fazer exercício, a ver filmes e séries, tirei algum tempo para organizar a casa.

Como é que é fazer humor em tempos de pandemia?
O Brasil já tem tantas mazelas, tanta coisa horrível a acontecer, que a pandemia é a cereja no bolo do demónio. No fim das contas, fazer humor em pandemia é mais do que necessário, para as pessoas esquecerem um pouco e focarem-se noutras cosias para esquecer um pouco esse cansaço físico e emocional que a pandemia causa.

“Que História É Essa, Porchat” é o novo programa que vai ser transmitido em Portugal. O que podemos esperar?
“Que História É Essa, Porchat” começou depois de ter estado muito tempo a matutar porque é que, tendo a possibilidade, não queria fazer outro talk show.

Chegou a alguma conclusão?
Dei-me conta de que estava um pouco cansado da opinião das pessoas em todo o lugar. Aqui no Brasil se lacra demasiado, vocês têm essa expressão? Há muito essa atitude de “falei mesmo”, para causar impacto. E está tudo a lacrar, sobre racismo, a pandemia, ideologia, enfim. E é ótimo termos tanto espaço para darmos as nossas opiniões mas como há tanto lugar para isso queria um programa em que as pessoas não tivessem de dar opinião nenhuma. Também não queria saber como tudo começou, queria a essência do talk show. Para mim o filé mignon do talk show são as histórias que as pessoas contam, então resolvi fazer um programa só com as histórias. No fim de contas toda a gente, famoso ou anónimo, tem uma para contar. E quem sabe contar uma história consegue entreter todo o mundo. Quis ir pelo simples, no bom sentido que o simples traz.

Foi bem recebida, a ideia?
Quando a apresentei perguntaram-me se ia ser uma competição de histórias, um reality, se ia interpretar as histórias. Não, gente, não tem nada disso. Quando fazia um talk show era em função de um formato que é um sucesso. Quando pensei neste programa pensei no que é que eu sabia fazer. Sei contar histórias, sei improvisar e brincar com as pessoas. Então fiz um formato em função disso. É leve, divertido, ótimo para um domingo à noite, para terminar a semana. Para começar a segunda-feira livre de Bolsonaro, de coronavírus, de Trump…

Como é que descobrem estas histórias mais loucas?
É um misto. Ao início fomos atrás de amigos e conhecidos que tinham boas histórias. Agora muita gente já nos vem procurar. E nós queremos que, se a história é boa, tem de vir a pessoa contar. Claro que para coisas muito dramáticas [este programa] não é muito o lugar. Mas há histórias de quem foi assaltado, preso, que quase morreu, mas com coisas curiosas e interessantes. Temos uma equipa que vai atrás dessas histórias, entrevistamos as pessoas, para perceber a história e se a sabem contar. Queremos histórias que não tinham sido contadas antes. Se for com histórias que todo o mundo conhece, perde a magia da coisa.

Mudando um pouco a conversa, quando começaram a Porta dos Fundos, imaginavam o sucesso que ia ter?
Não, queríamos muito fazer um tipo de humor que não estava a ser feito e queríamos divertir-nos. Claro que queríamos que todo o mundo assistisse e se divertisse mas aconteceu muito mais rápido e numa proporção maior do que imaginávamos. Logo no dia em que fui a Portugal e as pessoas conheciam-me, fiquei impressionado. Como assim, como é que na Europa me conhecem?!

Aos 37 anos, continua hiperativo.

Quantas vezes veio cá desde o início da Porta dos Fundos?
[demora um pouco a pensar] Ah, não fui só em trabalho, já fui muito em trabalho mas também de férias. Tive uns dias em que fui conhecer o norte, andei por Braga, que não conhecia, Guimarães. Já passei um verão nas praias de Portugal e achei-as muito bonitas, não contava com isso. As praias brasileiras são lindas e havia aquela coisa de “vamos para a praia em Portugal”. Praia em Portugal? E depois fiquei muito impressionado. Gosto de conhecer, não só pela culinária, mas porque me sinto em casa. Dá-me uma paz. Parece que conheço toda aquela gente.

Como costuma ser recebido por cá?
Muito bem. E é curioso que as pessoas falam muito de o português ser comedido e é verdade, o brasileiro e português são bem diferentes. O povo brasileiro chega e é [aos berros] “É o PORCHAT!” e o português é [imitando, dentro do possível, o nosso sotaque] “gostaria muito de dizer que…” e vai embora. O meu produtor em Portugal diz que os portugueses não costumam tanto ir falar com o artista. Mas sempre foram muito recetivos [ao meu trabalho]. Fiz shows de stand-up em Portugal, no Tivoli, no Campo Pequeno, coliseu, e sempre fui muito bem recebido.

Já tem um sítio favorito em Portugal?
Boa pergunta. Tenho alguns. Adoro Lisboa, o pessoal do Porto que não me ouça mas sou muito lisboeta, talvez porque conheço mais. Mas sempre que vou de Lisboa para o Porto paro ali na Mealhada para comer leitão, no Rei dos Leitões, e é o meu sítio preferido de Portugal. Parece que ali tudo deu certo [risos]. Todo aquele mundo, a meio do caminho. Mas também adoro O Bom Jesus de Braga, das coisas mais lindas que já vi. O que eu gosto é isso, de poderes alugar um carro e andar por Portugal e descobrir caminhos. Ah, onde foi que fiquei muito impressionado? Monserrate?

Monserrate, sim. Em Sintra.
Que lugar lindo. E fui numa altura em que o dia já estava a cair, com um pouco de neblina. Cada cantinho de Portugal tem uma surpresa. E em Portugal sinto que vim dali, é um pouco mágico. Estou ali no Tejo e penso “caramba, o pessoal há 500 anos saiu daqui”. É meio mágico pensar que há 500 anos saíram de Portugal, foram ao Brasil e agora estou eu em Portugal.

O Fábio parece ter sempre novos projetos a caminho. Tem um lado hiperativo? É uma coisa pensada ou simplesmente vai acontecendo?
Acho que é uma mistura do lado hiperativo com a cabeça não parar de ter ideias. Tenho ideias o tempo todo, é uma coisa que até me enlouquece um pouco, não consigo fazer tudo o que quero. Mas se tivesse de fazer uma coisa só não ia conseguir, ia explodir. Agora a 10 de dezembro lançamos no YouTube o novo Especial de Natal. E já estou a pensar no do ano que vem.

Há um ano houve toda uma polémica no Brasil com o Especial de Natal da Porta dos Fundos. Podemos esperar nova guerra este ano, com uma parte da sociedade brasileira?
Com certeza, enquanto tivermos esse governo no país, com uma série de atitudes agressivas, com uma série de pessoas que se julgam guardiões da verdade, de “pessoas de bem”, não sei se vocês têm essa expressão aí?

Temos mas talvez não com o mesmo peso.
Aqui é das expressões mais tristes que temos, esse “eu sou um cidadão de bem”. Geralmente esse cidadão de bem é o oposto. As pessoas estão muito agressivas, e depois validadas pelo governo, a atacar, a bater. Imagino que, independentemente de haver polémica ou não, este ano deve ser igual.

É uma guerra que os humoristas continuam a ter de ter, a de que não há assuntos onde não se pode tocar?
É. E é difícil, que o nosso Brasil saiu de uma ditadura há não muitos anos. Há gente que não sabe lidar com a liberdade de expressão. O brasileiro ainda mistura muito o não gosto com o não pode. Querem impedir o outro de falar. “Ah, não se pode falar disso”. A liberdade de expressão é uma chave mestra de viver em democracia. O que não se pode, que é contra a lei, é incitar ao ódio, à violência, é ser racista, homofóbico. Agora se eu disser algo que desagrada, procure não ver, não assistir. É um entendimento entre a sociedade e os artistas, neste caso os humoristas. O artista é que puxa a corda, justamente pelo bem da sociedade, da democracia. Quando você diz que não pode falar sobre aquilo, o aquilo vira regra, a regra vira lei, a lei vira uma verdade, a verdade vira um monstro e quando você olha está a ser comido por esse monstro. Falamos sobre tudo precisamente para não deixar esses monstros crescerem. Se você acha isto e eu acho aquilo, vamos conversar. O “ah, tem que respeitar”.

O “respeito” costuma ser um argumento invocado.
Pois mas o desrespeitar não é contra a lei. Se eu acho que o Pedro é idiota,  é a minha opinião. E você diz: “ah, o Porchat é um péssimo comediante, é um mal para a sociedade”. Está ótimo, pode-se dizer isso. É ao contrário: o comediante tem de respeitar tudo o tempo todo, só que com grande responsabilidade. Citando o filósofo Homem-Aranha, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Pode fazer tudo? Pode. Eu, Fábio, quero fazer piadas preconceituosas?  Não, não quero.

Há alguma história do próprio Fábio que pudesse caber bem no programa?
Com certeza. Eu agora quando me acontece algo de errado eu já comemoro [risos]. Mas tenho histórias de viagens. Tive uma disenteria na Etiópia que quase me matou. Mas uma vez na Islândia nadei pelado numa caverna. A água era aquecida e descobri depois que não se pode nadar ali, que quando vem a água vulcânica aquilo chega aos 70 graus e ia-me assar. Descobri na hora. Vi a água, tirei logo a roupa, os chineses a olhar que eu pelado pareço um pastel de nata, mas nadei ali e descobri que foi a caverna onde Jon Snow perdeu a virgindade em “A Guerra dos Tronos”.

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