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“Festa é Festa”: aposto que é o político que vai ficar com a herança da “belha”

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa a nova novela da TVI.
Bino é o presidente da junta de freguesia.

Pode uma novela, em horário nobre, ter um enredo cómico e viver apenas desse pressuposto? Pode. É fácil de concretizar? Não. A TVI conseguiu fazê-lo? Acho que sim. Está a começar a ficar estranho eu só fazer perguntas e respostas? Está. “Festa é Festa” estreou esta segunda-feira, 26 de abril, à noite na TVI e inaugurou um novo género em Portugal: a novela cómica. 

Como humorista devo dizer que fico feliz com esta escolha, mas também sei que não é pêra-doce. Todos adoramos rir, principalmente em momentos de maior stress, como o que vivemos. Mas o que muita gente não compreende é que fazer as pessoas rir requer esforço. Fazê-las rir durante um episódio inteiro requer um esforço do caraças, porque todas as personagens-tipo de uma novela tradicional têm de ser transformadas para que as possamos ver sob a lente da sátira.

A psicótica, o egoísta, a inocente, o crápula, a romântica, o justiceiro não deixam de fazer parte do enredo, a diferença é que a carga dramática passa a ser cómica e esse é o maior desafio. Para quem já está um bocadinho farto de vilões malvados que atropelam o protagonista e só são descobertos no final da história, “Festa é Festa” é uma ótima alternativa. É verdade que também há atropelamentos, mas são feitos com bicicletas que transportam leite, o que em princípio não magoa tanto. 

A novela tem lugar numa aldeia no interior de Portugal, como tantas outras, que se prepara para realizar a sua festa de verão, no ano em que a maior benemérita da terra, a D. Corcovada (Maria do Céu Guerra), cumpre o seu centenário. Mais do que propriamente a festa, a herança da velhota parece ser o verdadeiro ponto de interesse de quase todas as personagens desta história. Uma dessas personagens é o Sôtor — é mesmo este o nome — que é interpretado pelo sôtor e ator José Carlos Pereira. Depois de anos e anos a estudar para terminar o curso de medicina, José Carlos Pereira já está finalmente a exercer.  

Zeca esteve tantos anos a estudar medicina que, quando começou, a profissão não se chamava médico, era feiticeiro. Ou seja, Zeca é médico na vida real e faz de médico na novela, o que é uma opção genial, mas, a meu ver, um pouco arriscada, porque pode dar azo a confusões. Já estou a imaginar o Dr. José Carlos antes de começar uma operação plástica ao nariz, a dizer para o paciente: “Pronto, agora relaxe, que vai correr tudo bem. E se não correr, isto é só o primeiro take, se for preciso voltamos a repetir até ficar no ponto. Agora, como anestesia, beba só este copo de ice tea que usamos para fingir que é whiskey.”

Todas as mulheres da aldeia estão perdidas de amores pelo novo médico, e enchem-lhe a sala de espera. Mulheres como a Dona Aida (Ana Guiomar), que aproveitam a consulta para se atirar ao sôtor: “Nós gostamos muito de si, nem imagina, nem imagina, nem imagina…” O médico relativiza e como diagnóstico para as crises de ansiedade recomenda a Dona Aida “um chazinho de camomila e exercícios de respiração”. Lá está, a pessoa passa anos a estudar medicina para depois receitar uma mesinha que a minha avó poderia sugerir.

Outras personagens interessantes e bem conseguidas são o Presidente da Junta Albino Jesus (Pedro Alves), um homem de caráter bastante duvidoso e que é a encarnação de alguns políticos na nossa praça. Principalmente por acumular as funções de coveiro, já que alguns dos nossos políticos foram exímios a enterrar o país. Também gostei do boneco de Tomé Trindade (Pedro Teixeira), que, apesar de ser o dono do café central da aldeia, veste-se como se o Pedro Teixeira fosse o dono do café central da aldeia. Sem esquecer o casal de imigrantes na França, Fernando e São Silva, que vão de férias à terrinha e que, como bons avecs, batizaram os seus filhos de Louis e Vuitton.  

“Festa é Festa” é uma lufada de ar fresco e o primeiro episódio abriu o apetite para seguir a história e descobrir quem é que, no final, fica com a herança da “belha”. Tenho para mim que é capaz de ser o político, porque a grande piada da comédia está em imitar a vida real. E como dizia o outro, “a vida real não é um conto de fadas. Se perderes o sapato à meia-noite… é sinal que estás bêbado”.

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