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“Bacalhau, o fiel amigo? A 20€ o quilo, deve ser amigo do João Rendeiro”

O humorista Miguel Lambertini analisa o último episódio de “MasterChef”, entre cloches, batatas, couratos e bacalhau a preço de ouro.
Anote: isto chama-se uma cloche.

No Masterchef de ontem manteve-se a preferência pelos ingredientes típicos da cozinha portuguesa: o bacalhau, a carne de porco e os queijos. Os chefs começaram por apresentar uma cloche misteriosa. O que estaria lá dentro, um prato de fusão, uma sobremesa molecular? E mais importante do que isso, como é que eu sei que aquela campânula de metal se chama cloche? Fui ver ao Google.

Dentro da cloche estavam na realidade três alfinetes dourados que, servidos em qualquer restaurante, dariam direito a queixa e inspeção da ASAE, mas para além disso davam também imunidade a quem os recebesse.

O primeiro prato que os aspirantes tiveram de cozinhar foi o bacalhau. De acordo com o chef Vítor Sobral, “20% do bacalhau pescado em todo o mundo é consumido em Portugal”, sendo que 90% desse bacalhau é cozinhado pelo chef Sobral nos seus restaurantes.

Nós adoramos bacalhau principalmente no Natal, claro. Por falar nisso, estou um bocado stressado porque este ano a consoada é lá em casa, ainda são algumas pessoas e não sei se a Uber Eats entrega Mac no dia 24 à noite. É que eu descobri que um bom bacalhau custa o mesmo que uma viagem a Nova Iorque para duas pessoas com tudo incluído. Não sei porque é que chamam ao bacalhau o fiel amigo, mas a 20€ o quilo, deve ser amigo do João Rendeiro.

Os cozinheiros amadores tinham três partes do bacalhau para cozinhar: lombo, rabo ou abas. O Telmo disse logo que “gostava de ficar com o rabo ou o lombo”, mas que do bacalhau era indiferente a parte que lhe calhava. Quem apresentasse o prato primeiro tinha mais probabilidade de ganhar a imunidade. Foi o que fez a Camila, que fala um português com sotaque brasileiro de uma sueca a viver em Trás-os-Montes.

A advogada tinha o rabo para cozinhar e fez um prato de Moqueca de Bacalhau que de acordo com os jurados “estava maravilhoso”. Camila ganhou o primeiro pin de imunidade e eliminou assim os restantes concorrentes que cozinhavam rabo de bacalhau. 

Entretanto, nas abas, a Mafalda terminou e apresentou aos chefs um arroz de bacalhau que eles adoraram e por isso ganhou o pin e acabou com a esperança dos restantes concorrentes que estavam a cozinhar abas. Uma delas era a Lucina que comentou: “tenho pena de não poder apresentar o meu prato porque era algo diferente” E diferente era realmente, Lucina apresentou meio ananás com pasta de bacalhau e cenas lá dentro cheio de figos à volta e frutos amarelos no topo. Lucina não fez um prato arrojado, fez uma Carmen Miranda de bacalhau.

“Epá não me deixaste apresentar o meu prato” diz Lucina desgostosa para Mafalda que responde, “Pois não, é que eu estava cheia de medo do teu prato.” Estávamos todos Mafalda, muito medo, principalmente os chefs, que teriam de provar aquilo.

Para terminar a prova ficava apenas a faltar o prato de lombo. Alberto puxou das suas origens latinas e preparou um prato de street food colombiana, que só o nome já dá logo vontade de comer, Carimañolas de bacalhau. Um género de croquetes que deixaram os chefs arrebatados e por isso o último pin de imunidade foi atribuído ao Alberto. Na segunda prova tivemos mais uma caixa mistério e lá dentro estavam, nada mais nada menos do que sandes de carne assada, sandes de courato e bifana. 

Os chefs explicaram que pela primeira vez iriam servir pratos no restaurante do MasterChef, com Alberto, Mafalda e Camila a liderar as três equipas, que teriam de criar uma reinvenção das típicas sandes tugas.

Os convidados deste episódio eram foodies e influencers, cujos termos deixaram algumas dúvidas na concorrente Fernanda. “Não sei se comem com os olhos, se comem com a boca…” comentou. Eu estou com a Fernando, também tenho dúvidas mas acho que às vezes nem comem porque demoram tanto tempo a tirar fotos aos pratos e a publicar stories que muitas vezes há ingredientes no prato que entretanto passaram de validade. Os foodies de instagram não gostam de comer, gostam de nos fazer inveja. E nunca dizem que um prato está insosso, dizem “a meu ver faltava um pouco de cor, mas nada que uma pitada do filtro Ludwig não resolva #foodislife #jápoupeimais50euro”.

A acompanhar os sanduíches os cozinheiros terão de utilizar batata portuguesa. Nisto, entra Miss Tata, uma batata com olhos, pernas e braços — que eu diria que seria mais da zona ali de Chernobyl — mas afinal é uma mascote usada para promover a batata nos mercados nacionais e internacionais.

Durante a prova a equipa azul acusou bastante o stress e houve alguma troca de galhardetes entre Petra, Bia e Lucina. Mas no final quem teve o maior número de likes foi mesmo o prato de couratos da equipa azul e por isso tudo acabou em bem, com a equipa a fazer a sua dança de kuduro, liderada pela professora Petra.

Quem diria que uma sandes de courato seria vencedora de uma prova do Masterchef. Depois disto acho que ficou o caminho aberto para grandes receitas como foie gras de tremoços e pudim de caracóis queimado ao momento. Claro que se quiserem mesmo mesmo inovar, podem sempre fazer o bacalhau à Carmen Miranda, da Lucina. Tem imensa cor e como em princípio não o vão comer, os foodies vão adorar.

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