Televisão

Foi agente do FBI durante mais de 30 anos. Agora ajuda a criar séries de televisão

Capturou mais de 2 mil fugitivos. Trabalhou em “FBI” e “FBI: Most Wanted” e agora em “Clarice”, o spinoff de “O Silêncio dos Inocentes”.
"Clarice" tem 10 episódios.

Durante mais de 31 anos, Scott Garriola foi agente do FBI. Trabalhou em grandes investigações, perseguiu fugitivos perigosos, prendeu mais de dois mil criminosos e há dois anos reformou-se. Perdeu peso, diminuiu os níveis de stress, e começou a trabalhar em séries de televisão.

Foi consultor técnico em “FBI” e “FBI: Most Wanted”, até chegar a “Clarice”, o spinoff de “O Silêncio dos Inocentes”, série de dez episódios que estreou em Portugal a 19 de abril, na Fox.

A história acompanha Clarice depois dos acontecimentos do primeiro filme com Anthony Hopkins. Vai resolver casos enquanto lida com a pressão de ser uma jovem agente bastante conhecida, num mundo dominado por homens, no início dos anos 90.

Scott Garriola era um jovem agente precisamente nessa altura, por isso teve muitos conselhos e orientações a dar aos argumentistas e produtores da série. Curiosamente, o agente do FBI estava em Quantico quando o realizador Jonathan Demme e a sua equipa lá gravaram algumas cenas para “O Silêncio dos Inocentes”. 

Em conversa com a NiT, Garriola conta que o seu supervisor até entrou no icónico filme. Leia a entrevista com o ex-agente do FBI, que também foi, de alguma forma, interpretado no filme “Black Mass – Jogo Sujo”, protagonizado por Johnny Depp.

Como é que passou de agente do FBI a consultor de séries de televisão?
Obrigatoriamente, temos de nos reformar aos 57 anos. Eu já estava a fazer 57 e o FBI permite fazer uma extensão, dão-te três extensões de um ano, eu estava na minha primeira e a pensar: deixa-me ficar o máximo tempo que conseguir. E, depois, no verão de 2019, recebi uma chamada de um amigo, que é um produtor de televisão numa série chamada “All Rise”. “Olha, vendi a minha série. Queres ser um consultor técnico?” E eu disse que não, ainda estava a divertir-me ali, a série é sobre um tribunal de estado, eu trabalho num sistema federal. E ele disse: “conheço as pessoas que estão a fazer a série ‘FBI: Most Wanted’ e ‘FBI’, do Dick Wolf. Queres que lhes ligue?” E eu disse que sim. Eu não estava a planear reformar-me, mas encontrei-me com as pessoas de ambas as séries “FBI” e eles precisavam de um consultor técnico. Eles perguntaram: quando podes começar? E eu: tenho de me reformar primeiro. Reformei-me em setembro de 2019 e dois meses depois, quando estava a trabalhar nas séries, recebi outra chamada da CBS sobre esta história, “Clarice”.

E foi assim que chegou a esta nova série.
Encontrei-me com [os criadores] Alex Kurtzman e Jenny Lumet. Falaram-me da ideia. Eles talvez estivessem à espera de ter uma mulher, já que a Clarice é a personagem principal, mas é uma série de elenco. E o facto de eu ter trabalhado em 1993… Não havia muitas pessoas que ainda estavam no meio. Então decidiram que me queriam usar, então sentei-me numa sala com eles durante várias semanas. Tentámos desconstruir a história e foi assim que se criou o episódio piloto. Eles são génios, eu estava apenas a dar algum realismo à coisa, a explicar como é que o FBI iria reagir e coisas assim. E quando venderam o piloto, começámos a trabalhar na temporada. Depois apareceu a Covid-19 e eu não consegui viajar para as gravações, que aconteceram no Canadá, mas fiz muito trabalho pelo Zoom, com o departamento de adereços, figurinos, todos eles. “O que é que vestias na altura?”, “O que é que conduzias?”, “Que arma usavas?” Foi assim que aconteceu.

Sempre se interessou por séries que retratavam o trabalho do FBI ou das autoridades policiais no geral?
Sempre achei difícil ver séries sobre autoridades por causa da falta de realismo. A minha mulher adora as séries, mas eu nunca as via. Porque eu fiz aquilo durante mais de 31 anos. Quando eu queria ver televisão, não era séries de polícias. E nunca pensei em entrar na indústria porque eu simplesmente estava a ser consumido. Eu trabalhei a perseguir fugitivos nos últimos 22 anos da minha carreira e consumia-me imenso. Por isso, se eu fosse ver televisão, provavelmente ia ver realitys ou documentários.

Scott Garriola começou a trabalhar no FBI em 1988.

Ainda assim, que exemplos daria de boas séries, que tenham retratado bem o trabalho do FBI ou das autoridades?
Das séries que vi, eu diria “NYPD Blue”, sempre achei que era bastante honesta. Havia uma outra chamada “Southland”. E o que tento fazer agora, nas séries em que trabalho, é transmitir o máximo de realismo possível. Mas agora que estou deste lado, percebo que não temos tempo para esperar três meses por uma amostra de ADN. Ou não tens tempo para esperar pelos registos telefónicos, ou imagens de câmaras de videovigilância. Tens de comprimir tudo. Tens de manter o nível dramático o mais alto possível. Eu consigo perceber melhor isso agora, em comparação quando estava no FBI.

E as maiores diferenças entre a realidade e as séries de televisão tem a ver com esses procedimentos, e o tempo que as coisas demoram?
Sim, acho que é o ritmo de investigação. Na televisão tens de fazer uma investigação de 45 minutos, ou o que for. É o maior elemento que separa do mundo real: o tempo que levamos a fazer tudo, seja as fotografias ou os resultados de laboratório. Na televisão tem de ser tudo muito rápido.

E já era um fã ou tinha visto o filme “O Silêncio dos Inocentes”?
Sim, e agora revi o filme e reli o livro. E eu estava em Quantico quando eles estavam a filmar, por volta de 1988. Lembro-me de estar lá e estava alguma coisa a acontecer. Eu estava lá numa área de treino e acho que eles estavam a filmar. E o meu conselheiro de turma apareceu mesmo no filme. Ele é o que vai ter com a Clarice no início e diz-lhe que o Crawford a quer ver. Por isso eu sou um grande fã do filme, acho que foi muito bem feito.

E agora, qual foi o maior desafio em fazer esta série?
Acho que um dos maiores desafios foi não estar no set de gravações. Eu não ia ter um grande input com os atores, mas falei com alguns deles, e mostrar-lhes a forma de se mexer e de agir, esses pequenos detalhes, achei que podia levar isso ao set. Foi um pouco duro não poder viajar para lá. E o outro desafio foi tentar lembrar-me do que estava a acontecer em 1993. O ambiente, as nossas atitudes, a cultura, e tentar trazer isso para a série, quase 30 anos depois. Dei muitas entrevistas sobre casos antigos em que as pessoas me perguntavam “o que estavas a sentir na altura?” E é difícil voltar no tempo e perceber o que estava a sentir naquele momento. E também tentar lembrar-me do que vestíamos ou das táticas que usávamos, porque foram evoluindo ao longo das décadas. A minha sorte é que, nesta altura, eu estava numa equipa num caso específico de crime organizado. Era um assassinato por contrato relacionado com os Chippendales. E foi um caso que durou de 1991 até 1996. Eu estava envolvido numa investigação longa, por isso ainda tenho apontamentos, documentos e “adereços” dessa altura. Portanto, isso ajudou muito a lembrar-me.

Portanto, aquilo que fez foi contar as suas experiências pessoais aos argumentistas e aos produtores da série.
Sim. Na altura ainda havia muitos agentes que tinham servido na altura do [J. Edgar] Hoover, havia uma mentalidade diferente. Quando eu cheguei, em 88, o Hoover tinha saído há 16 anos, mas ainda havia agentes que tinham trabalhado com ele e sob a sua tutela, tinham toda uma mentalidade diferente. Eu entrei num sistema novo. E senti-me como uma ponte entre a velha e a nova escola, ao entrar naquela altura, ser treinado pelos veteranos e depois tornei-me eu o veterano treinador. Mas como era um jovem agente como a Clarice na altura, tentei explicar como é que eu era tratado, e tentei levar as minhas experiências.

Scott Garriola com Whitey Bulger, protagonista de “Black Mass”, criminoso procurado durante 16 anos.

E em “O Silêncio dos Inocentes”, o tema das disputas internas no FBI é um tema importante no filme. A forma como Clarice era tratada…
Sim, eu lembro-me da cena, ela é uma mulher pequena e está rodeada por todos estes grandes homens brancos. E havia muita coisa a acontecer no FBI nos anos 80 e 90, processos de discriminação racial, processos de assédio sexual… E muitos dos problemas não vieram a público, porque é essa a natureza do FBI. E acho que isso tem um papel no filme, mas ainda mais na série. Todos os problemas com que as agentes têm de lidar como jovens mulheres, e uma delas é de uma minoria, por exemplo. E a Clarice já tem esta bagagem de ser uma espécie de agente super-estrela, por isso tem coisas com que lidar.

Há experiências suas diretas que estão na série?
Acho que nada pessoal… Lembro-me de quando estávamos a construir o episódio piloto, de falarmos desses problemas raciais, por exemplo, mas eu não sou uma minoria, por isso não o experienciei. Mas pus um agente hispânico e um agente afro-americano a falar com os argumentistas, a dar-lhes as suas experiências. E faz parte do trabalho de ser um consultor. Se não sabes a resposta, tentas encontrá-la. Mas a relação da Clarice com o supervisor… eu tive relações bastante atribuladas com os meus supervisores. E tentei levar o máximo disso para a história. Mas, mais uma vez, eu não sou uma pequena mulher, por isso nunca poderia ter a mesma experiência do que a Clarice. 

Depois de “FBI”, “FBI: Most Wanted” e “Clarice”, planeia continuar a trabalhar nesta área?
Sim, quando eu estava a sair do FBI, estava à procura de trabalhos normais que ex-agentes do FBI costumam fazer, na área de segurança ou investigação, mas isto caiu-me no colo e eu gosto. Não só sinto que posso dar muita coisa às séries de televisão, com base nas minhas experiências… Trabalhei em muitos tipos de ambientes, em Nova Orleães, em Los Angeles, diferentes tipos de casos, e acho que posso contribuir bastante. Talvez até gostasse de desenvolver algumas das minhas ideias, mais para a frente. Vamos ver. É uma indústria difícil, mas adoro o que estou a fazer. Gostava de estar um pouco mais envolvido e adorava poder continuar.

E o Scott também foi interpretado, de alguma forma, no filme “Black Mass”.
Sim, depois da detenção do Whitey Bulger, voltámos a Boston e um ano ou dois depois marcaram uma reunião com o realizador e os produtores do filme. E eles filmaram mesmo a cena de detenção que nós fizemos em Santa Monica. Mas cortaram a grande maioria, por isso em “Black Mass” tudo o que vês é assim uma imagem meio turva de um agente do FBI a mover-se em direção ao Bulger. E até puseram um ator a interpretar-me, mas quase não o vês, cortaram muita coisa. Dei uma entrevista para a produtora, que entrou na versão Blu-ray, que nunca vi, porque não tenho Blu-ray [risos]. E também apareci no “60 Minutes”, eu testemunhei em tribunal, fui a última testemunha da acusação, por causa de tudo o que encontrámos e das declarações que ele fez. É uma grande história, uma grande experiência, eu estava no sítio certo — mas à hora errada, porque nessa semana estava de férias [risos], mas estava na cidade e correu bem. Por isso, sim, fui interpretado mas deixaram-me na sala de edição [risos].

Mas acha que essa experiência de ter falado e colaborado com os produtores de “Black Mass” também o levou para este caminho, de agora trabalhar em séries?
Acho que não. Acho que aquilo que pode ter despertado um pouco o interesse foi há 25 anos, quando um amigo meu estava a fazer uma série chamada “C-16: FBI” na ABC. Eu ajudei um pouco, com a ideia do episódio piloto, e dei algum aconselhamento aos atores. Mas foi há 25 anos e depois estive a perseguir fugitivos sem parar. Apanhar os maus é um trabalho duro, muito stressante. Por isso nunca mais tive tempo para pensar nisso, até à minha idade da reforma.

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