Televisão

Foi sem-abrigo e hoje é um dos mais ricos de Hollywood. Tyler Perry está de volta à Netflix

Investiu todas as poupanças numa peça que fracassou, mas não desistiu. Atualmente, tem o seu próprio estúdio de cinema. O novo filme “Cartas de Redenção” estreou sexta-feira, 2 de outubro.

“Cartas de Redenção”, o novo filme escrito e realizado por Tyler Perry, chegou à Netflix esta sexta-feira, 2 de outubro. Protagonizado por Naomi Baker e Jay Reeves, acompanha “uma mãe solteira e um homem preso que criam uma ligação inesperada através de cartas sentidas”, lê-se na sinopse. É mais uma história de recomeços assinada por alguém que também passou anos à procura de uma segunda oportunidade.

Antes dos filmes, das séries e dos estúdios com o seu nome, Tyler Perry dormiu num carro. Tinha investido as poupanças num espetáculo que quase ninguém foi ver e continuava a gastar o que conseguia juntar em novas tentativas. Quando podia, pagava um quarto num hotel à semana. Nas restantes noites, o automóvel servia de casa, contou numa entrevista a Oprah Winfrey, publicada em 2010 na revista “O”. 

Atualmente, a “Forbes” avalia a sua fortuna no equivalente a cerca de 1,25 mil milhões de euros. O dinheiro vem dos filmes e da televisão, mas também de uma decisão que acompanhou o crescimento da carreira: manter a propriedade do trabalho que criava. Segundo a revista, é dono da totalidade dos conteúdos que produziu.

O norte-americano, de 57 anos, nasceu em Nova Orleães, no Louisiana, com o nome Emmitt Perry Jr. Cresceu numa família pobre e sofreu maus-tratos por parte do homem que o criou. A mudança de nome foi uma forma de se afastar dele. A infância difícil acabaria por entrar nas histórias que começou a escrever, onde a violência familiar e a possibilidade de recuperar de um trauma surgem com frequência.

O primeiro impulso chegou através da televisão. Ao assistir a uma emissão do programa de Oprah Winfrey, ouviu falar dos benefícios de escrever sobre experiências dolorosas. Começou a enviar cartas a si próprio e encontrou nelas o ponto de partida para “I Know I’ve Been Changed”, uma peça sobre sobreviventes de abuso infantil.

Em 1992, levou-a ao palco em Atlanta. Tinha conseguido poupar 12 mil dólares e usou o dinheiro para montar a produção, na qual acumulava as funções de autor, produtor, encenador e ator. Esperava encher a sala. Ao longo do fim de semana, apareceram apenas 30 pessoas.

O fracasso não ficou por ali. Voltou a trabalhar, juntou dinheiro e tentou apresentar o espetáculo novamente. Quando não conseguia autorização para faltar ao emprego, deixava-o para fazer teatro. A peça voltava a falhar e as despesas continuavam a chegar. Entre a renda e as contas, acabou sem casa.

Na conversa com Oprah, explicou que este ciclo se repetiu entre 1992 e 1998. Passava de um trabalho para outro e regressava à mesma produção, convencido de que aquele era o caminho que queria seguir.

A mudança aconteceu em 1998. Depois de vários anos de tentativas, “I Know I’ve Been Changed” esgotou oito apresentações no House of Blues, em Atlanta. Duas semanas depois, chegou ao Fox Theatre, também em Atlanta, onde foi vista por quase nove mil pessoas. A peça que lhe tinha consumido as poupanças começava finalmente a pagar as contas.

Tyler Perry conquistou público no teatro antes de entrar em Hollywood. Uma das personagens que criou tornou-se a imagem mais conhecida da carreira: Madea, uma avó de língua afiada, interpretada pelo próprio. Apareceu em 2000, na peça “I Can Do Bad All by Myself”, e regressou em vários espetáculos.

A personagem fazia rir, mas permitia-lhe abordar os assuntos que já atravessavam os primeiros textos. Por trás das discussões e das respostas exageradas, havia histórias de família, fé e perdão. Numa entrevista ao programa “60 Minutes”, do canal CBS, explicou que o humor era uma forma de aproximar o público desses temas.

Em 2005, “Diary of a Mad Black Woman” levou esse universo ao cinema. O filme custou 5,5 milhões de dólares e arrecadou cerca de 51 milhões nas bilheteiras, segundo a “Forbes”. As receitas continuaram a crescer com os alugueres, as vendas de DVD e os direitos de transmissão.

A televisão abriu outra frente. Vieram séries como “House of Payne” e, mais tarde, uma parceria com Oprah Winfrey para produzir conteúdos para o canal OWN. “The Haves and the Have Nots”, que estreou em 2013, foi um dos títulos dessa colaboração. Pelo meio, também trabalhou como ator em produções de outros realizadores, incluindo “Gone Girl”, de David Fincher.

O ritmo de trabalho deu-lhe um catálogo que podia continuar a render mesmo depois de cada estreia. Quando a “Forbes” o apresentou como multimilionário, em 2020, já reunia mais de 1200 episódios de televisão, 22 filmes e pelo menos duas dezenas de peças. “Não fui para uma escola de negócios. Tudo o que aprendi, aprendi pelo caminho”, disse à publicação, numa entrevista à “CNN”. 

Uma das maiores apostas aconteceu em 2015, quando comprou cerca de 134 hectares do antigo complexo militar de Fort McPherson, em Atlanta. O terreno passou a acolher os Tyler Perry Studios, com 12 pavilhões de rodagem e espaços que permitem recriar diferentes cenários. O lugar tinha um significado particular para o realizador: os terrenos tinham sido usados por militares confederados. Numa entrevista à “Forbes”, destacou o simbolismo de ser um homem negro a construir o seu negócio num espaço associado à defesa da escravatura.

Além de receberem as suas produções, os estúdios foram utilizados por outros projetos. “Black Panther”, “Bad Boys para Sempre” e “The Walking Dead” estão entre os exemplos referidos pela “Forbes”. Perry tinha passado de tentar pagar o aluguer de uma sala de teatro a disponibilizar instalações a grandes produções.

As críticas e as acusações

O sucesso comercial nunca foi acompanhado por uma aprovação unânime. Em 2009, numa entrevista à revista “Black Enterprise”, Spike Lee criticou as suas comédias televisivas, acusando-as de recorrerem a caricaturas da população negra. Perry respondeu no programa “60 Minutes”, da CBS, que essa leitura desvalorizava um público que Hollywood tinha ignorado durante muito tempo. 

Ao “60 Minutes”, defendeu que as personagens eram inspiradas em pessoas com quem tinha crescido, sobretudo nas mulheres da sua família e da comunidade. Para o realizador, os espectadores reconheciam-se naquele universo, mesmo quando os comportamentos eram exagerados para provocar o riso.

Atualmente, o seu nome passou a estar associado a acusações de outra natureza. Em junho de 2025, Derek Dixon, ator da série “The Oval”, apresentou um processo civil no qual acusou Tyler Perry de assédio, agressão sexual e retaliação profissional. Segundo a “Reuters”, Dixon alegou que o realizador usava o controlo sobre a sua personagem para o pressionar. A defesa rejeitou as acusações, classificando-as como falsas e descrevendo o processo como uma tentativa de extorsão.

Em dezembro do mesmo ano, Mario Rodriguez, que participou em “Boo! A Madea Halloween”, apresentou outra ação por alegadas agressões sexuais. O advogado de Perry também negou essas acusações, informou a “Associated Press”.

Em agosto de 2026, a defesa voltou a contestar a versão de Rodriguez em documentos entregues ao tribunal. Alegou que as acusações eram fabricadas e que qualquer contacto teria sido consentido. O processo continuava em fase de recolha de provas, segundo a atualização publicada em setembro pelo escritório que representa o ator. As alegações permanecem contestadas pelas partes e não equivalem a factos provados em tribunal.

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