Televisão

“Gomorra” é a melhor série de máfia dos últimos anos (e devia estar a vê-la)

É quase um documentário sobre a vida da Camorra num dos bairros mais perigosos do mundo. Estreou em 2014 e está disponível na "HBO".
Ciro é uma das personagens principais

É muito fácil passar por cima de “Gomorra” no infindável catálogo das plataformas de streaming, neste caso da “HBO”: uma produção italiana sobre mafiosos, tráfico de droga e os bairros pobres de Nápoles. Mais uma? Não é nada disso.

Falada quase na totalidade no impercetível — até para os compatriotas de outras regiões italianas — dialeto napolitano, “Gomorra” guarda uma aura de autenticidade que dificilmente se encontra noutras séries do género. É um retrato fiel da dimensão alheada da realidade em que vivem os homens da máfia, onde as vidas valem muito pouco, o dinheiro é tudo e a traição pode chegar de qualquer canto. O retrato de uma vida de excessos, sangue e paranoia.

As suas origens remontam ao livro com o mesmo nome, da autoria de Roberto Saviano, jornalista de investigação que mergulhou no mundo da Camorra — a organização mafiosa de Nápoles — e sobreviveu para revelar tudo nas páginas das suas obras e crónicas. Ninguém além dos envolvidos conhece melhor o dia a dia do submundo do crime napolitano do que Saviano e as histórias mirabolantes deram origem primeiro a um filme, “Gomorra”, lançado em 2008, e que recebeu uma nomeação para os Globos de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Só em 2014 é que os relatos de Saviano chegavam à televisão, numa história onde o jornalista surge como produtor executivo. Com quatro temporadas já disponíveis, fugiu ao radar de muitos, conquistou poucos ou nenhuns prémios internacionais, mas nenhuma dessas ausências reflete a qualidade que esconde: é, provavelmente, um dos melhores retratos televisivos do mundo da máfia, que se mede à vontade com as melhores produções americanas.

Mais do que contar a história das suas personagens principais — que são cuidadosamente construídas e desenvolvidas, episódio a episódio —, “Gomorra” dá ares de documentário. A maioria das cenas são antecedidas de planos que revelam os cenários de uma Itália para lá dos postais: sombria, suja, pobre, violenta e cruel.

No centro de Gomorra estão as Velas de Scampia, as torres modernistas construídas nos anos 60 e 70 pelo arquiteto Franz Di Salvio sob o signo do existenzminimum, isto é, da habitação de subsistência, na qual os interiores dos apartamentos eram reduzidos a um mínimo indispensável. O objetivo, ainda assim, era o de criar um bairro verde, sociável, agradável, limpo. Depois chocou com a realidade.

Os planos foram sendo esquecidos. As zonas verdes, como Saviano recorda, nunca foram construídas. As escolas, igrejas e serviços também nunca nasceram nas redondezas. O terrível terramoto de 1980 desalojou milhares de napolitanos que ali se refugiaram, mesmo em apartamentos inacabados. Tornaram-se foragidos, excluídos de Nápoles, onde até mesmo os membros da Camorra eram vistos, pelos napolitanos do centro, como “os macaquinhos”.

Don Pietro Savastano é o dono daquilo tudo

A arquitetura, supostamente modernista, acabaria por se mostrar perfeita para abrigar atividades criminosas: torres inacessíveis, corredores estreitos e suspensos que davam acesso a pequenas escadas que conduziam a cada uma das habitações.

Foi precisamente isso que o mafioso real Aniello La Monica percebeu, quando decidiu tornar as Velas de Scampia na sua fortaleza. Primeiro veio o tráfego de tabaco, depois as toneladas de heroína. E ao contrário das ruas de Nápoles, onde a polícia conseguia fazer incursões surpresa, os traficantes sentiam-se seguros nas varandas de Scampia. Rapidamente se tornou no bairro mais perigoso de Itália, da Europa e um dos mais violentos do mundo.

Este é o contexto real. Depois, na série, somos apresentados às personagens que aglomeram características destas figuras reais que marcaram quatro décadas de crime em Nápoles. Desde logo, Don Pietro Savastano (Fortunato Cerlino), o homem forte que controla os arredores de Nápoles, nomeadamente Secondigliano e Scampia. Ao seu lado, o filho Gennaro Savastano (Salvatore Esposito), um jovem sem fibra para assumir a responsabilidade do cargo — e o seu amigo e mentor, o mafioso Ciro di Marzio (Marco D’Amore).

Contrariamente a muitas séries e filmes do género, as famílias são apenas acessórios. “Gomorra” não perde muito tempo com elas: o foco é o negócio, a forma como, ele sim, mais do que as relações familiares, molda a vida e a personalidade de cada um destes homens e mulheres.

Os cenários são assustadoramente reais

Sob um realismo que se equipara a “The Wire”, “Gomorra” consegue sempre encontrar o ritmo certo sem cair no aborrecimento ou numa simples sucessão de cenas de ação violentas — que existem, em grande dose, e sempre com um número considerável de vítimas mortais. Isso explica, também, a quantidade necessária de novas personagens por temporada.

Tudo o que ali se vê acontece — ou acontecia, já que a demolição das torres arrancou em 2020 — na vida real: os pontos de venda de droga sobre os quais tantas guerras se disputam, as cadeias de venda, as instalações desenhadas para permitir a venda ao postigo e a fuga dos traficantes. Relatos assustadoramente reais, feitos pelos locais e por Saviano, que encontram paralelo na série.

São quatro temporadas — e com uma quinta e final a caminho ainda em 2021, antecipada por um filme spinoff, “L’Immortale” — de puro prazer, entre tensão e suspense e os cenários aterradores dos labirínticos corredores de Scampia e das tenebrosas decorações kitsch das casas dos mafiosos, decoradas à base de estatuetas religiosas, cadeiras com armações de ouro e muitos cães de loiça.

E não seria uma boa série de crime sem uns bons twists habilmente executados e raramente previsíveis. Apesar de alguns saltos na caracterização das personagens — o caso mais flagrante é o de Gennaro Savastano, mas essa discussão não poderia ser tida sem spoilers —, “Gomorra” é absolutamente imperdível para qualquer fã do género.

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