Televisão

Gordon Ramsay bateu o recorde de palavrões a tentar apanhar percebes em Portugal

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o episódio de “Uncharted” gravado em Portugal.
Gordon Ramsay cozinhou com o chef Kiko.

Tendo visto os teasers que foram lançados no verão, em que Gordon Ramsay confeccionava um típico pequeno-almoço português de ovos e bacon e uma bifana com queijo, a minha expectativa para assistir ao episódio filmado em Portugal era alta. Depois destas invenções estava à espera de ver o chef a apresentar uma receita de feijoada de marshmallows ou mesmo pizza de cabidela. Mas afinal não: nem bifanas, nem feijoada, e a verdade é que a única coisa mais esquisita que aparece no episódio é o cabelo do Ramsay quando sai do mar. 

Foi transmitido a 15 de outubro, no National Geographic e no 24Kitchen, o primeiro episódio da terceira temporada de “Uncharted”, a série que acompanha Gordon Ramsay à volta do mundo, enquanto descobre culturas e receitas típicas de cada local. O episódio começa com o chef britânico a chegar montado numa mota de água à praia da Nazaré, onde tem um impaciente chef Kiko à sua espera.

“Kiko!”, grita. “Gordon, what took you so long, man?!”, responde Kiko, que provavelmente àquela hora já tinha ido à lota, ao mercado, aberto os seus sete restaurantes, corrido 25 quilómetros e gravado dois programas de televisão. Eu adorava ter a energia do chef Kiko porque ele parece ser daquelas pessoas que nunca vai abaixo, tipo coelho da Duracell, do género de beber um Red Bull e ficar a cozinhar todas as 1001 receitas de bacalhau, 48 horas ininterruptamente. 

Curiosamente o bacalhau não aparece no episódio e o destaque vai para outros petiscos como os percebes, que Kiko ensina a cozinhar, a comer e a pronunciar. Apesar do esforço do chef português, Ramsay apenas acerta no item comer. Kiko diz lentamente “per-ce-bes”, mas o sotaque do britânico fica aquém, o que é normal.

Acho que teria sido mais simples se Kiko tivesse dito o nome em inglês, que vem nos menus de algumas tascas no Algarve: “understands”. Um clássico, embora o meu favorito de sempre seja um cartaz que vi este verão em Lagos, com a inscrição “Há Pipis / We have Pussies”. Kiko desafia Gordon a conhecer o nosso País e no final ambos cozinham uma refeição com pratos tipicamente portugueses, cujo destinatário será o presidente da Câmara Municipal da Nazaré. 

O chef aceita o desafio e depois de experimentar percebes, Gordon voltou para dentro de água para aprender a apanhá-los. Ricardo, um profissional local, explica que cada quilo daquele crustáceo é vendido à volta de 100€, precisamente pela dificuldade e risco que envolve o processo da apanha. Gordon Ramsay não se acanha e aventura-se nas rochas da costa atlântica, na parte do programa em que diz mais palavrões do que num episódio inteiro do “Kitchen Nightmares”. 

Na sua busca para encontrar os melhores ingredientes para o almoço com o presidente da câmara, o chef foi até ao Alentejo conhecer “os porcos mais felizes do mundo”. Aí, depois de correr atrás deles, serviu-lhes um fantástico almoço cheio de nutrientes e comeu-os na grelha em formato de secretos. Claramente a parte da história que ninguém contou aos “porcos mais felizes do mundo”, o que vale é que eles não veem o National Geographic.

Foi ainda conhecer a fábrica dos pães de ló de Alfeizerão onde ficamos a perceber que Ramsay é ótimo a cozinhar mas péssimo a desenformar bolos. Depois embarcou numa traineira e foi para alto mar pescar sardinhas com rede, mas no final só conseguiu apanhar uma dúzia delas. Provavelmente as sardinhas viram que era o chef Gordon Ramsay e fugiram com medo de serem assadas com queijo e molho barbecue.  

De volta ao farol da Nazaré, Gordon e Kiko defrontaram-se para ver quais os pratos que mais agradam ao presidente da autarquia, Walter Chicharro, e à sua família. Ambos confeccionaram as suas versões de percebes, sardinhas e carne de porco à alentejana, mas no final a família escolheu apenas um vencedor. Não vou dizer quem é, para não “spoilar”, sendo que depois daquela almoçarada, quem ganhou mesmo foi o presidente e a sua família, que naquele dia eram claramente os chicharros mais felizes do mundo.

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