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Personagem de “Bridgerton” é inspirada em rainha com sangue português

Charlotte inspira-se na rainha que casou com George III e que seria descendente de negros — com ligação à monarquia nacional.
A série vira a sociedade britânica do avesso.

Mantém-se uma das séries do momento, apesar de ter estreado em 2020. O sucesso tem sido tanto que, em 2023, deu lugar ao spin-off  “Queen Charlotte: A Bridgerton Story“. A terceira temporada foi lançada no passado 16 de maio, mas mesmo antes da sua estreia, já se sabia que um quarto capítulo seria confirmado.

Inspirada nos romances da autora Julia Quinn e com narração de Julie Andrews, a história idealizada por Shonda Rhimes ganha novos contornos logo a começar no elenco, onde atores negros se apresentam como figuras de relevo na sociedade britânica. Mas até que ponto é historicamente correto o que nos mostram no ecrã?

“Olhem para a nossa rainha. Olhem para o nosso rei. Observem o seu casamento, tudo o que ele faz por nós, o que nos permite ser. Éramos duas sociedades divididas pela cor, até que um rei se apaixonou por uma de nós. O amor conquista tudo”, nota uma das personagens da série.

“Bridgerton” leva, de certa forma, ao limite uma realidade residual. De acordo com historiadores, existiam de facto alguns nobres negros, embora a sua aceitação não fosse, nem de perto, tão alargada como a exposta na série.

A exatidão histórica nunca foi o objetivo dos criadores de “Bridgerton”, que revelam a intenção de “criar um mundo que refletisse aquele em que hoje vivemos”. Entre as personagens há nobres e duques negros que nunca debatem a questão da cor — à exceção do comentário acima.

O exemplo paradigmático é o da Rainha Charlotte, interpretada por Golda Rosheuvel, uma mulher negra que acaba por subir ao trono de Inglaterra. Apesar de ser uma visão moderna de uma produção de época, existe pelo menos uma suspeita de que, no caso da rainha, nem tudo seja uma total invenção.

A personagem inspira-se na figura real de Charlotte de Mecklenburg-Strelitz, que casou com George III para se tornar rainha de Inglaterra entre 1761 e 1818. A genética da aristocrata de ascendência germânica e filha de um duque de uma pequena cidade do norte da Alemanha sempre levantou muitas dúvidas.

O mito existe e permanece entre as comunidades negras, que sempre olharam com desconfiança para os retratos de Charlotte, cujos traços faciais aparentavam alguma mistura de etnias. “Apontavam-se os traços fisiológicos que tão obviamente identificam a etnicidade desta jovem”, afirma o “Frontline”, programa de investigação da norte-americana “PBS”.

Sem fotografias e apenas com base em retratos — cujos pintores tendiam a embelezar e a suavizar as feições tidas como menos atraentes dos sujeitos —, os traços negros são mais aparentes nas pinturas de Sir Allan Ramsay, um intelectual que publicamente se opunha à escravatura.

As feições da rainha despertaram a atenção dos historiadores

Segundo o historiador Mario de Valdes y Cocom, é possível traçar a ascendência de Charlotte até Margarida de Castro e Sousa, pertencente “ao ramo mestiço da Casa Real Portuguesa”. “Podem ser traçadas seis linhas diferentes entre a Rainha Charlotte e Margarida de Castro e Sousa, num património genético que devido à consanguinidade era já minúsculo — e explica a inegável aparência africana da rainha”, explica.

A investigação publicada em 1990 estabeleceu, portanto, que “a rainha Charlotte é descendente direta de um filho ilegítimo de uma amante africana ligada à casa real portuguesa”.

Ao “Washington Post”, o historiador americano revelou que esse filho teria nascido da relação ilegítima de Afonso III com a amante “Ouruana”, também conhecida como “Mourana” ou “Madragana”, supostamente uma muçulmana negra — um dado que ainda hoje é alvo de discussão. Há suspeitas de que o caso tenha ocorrido, após a conquista de Faro por parte do rei português aos mouros. A partir daí, acredita-se que tenha exigido a filha do governador para tal infidelidade. 

Diziam que tinha “o nariz demasiado largo e os lábios demasiado grossos”. Valdes remete outras suspeitas da etnicidade de Charlotte para o relato de um médico real, o Barão Christian Friedrich Stockmar. Terá descrito a rainha como “pequena e sinuosa, com uma verdadeira cara de mulata”. Um dos ministros terá dito que teria “um nariz demasiado largo e lábios demasiado grossos”. Várias menções são feitas ao seu aspeto físico, das feições à tez de pele mais escura e ao cabelo encaracolado.

“Muitos historiadores acreditam que Charlotte foi a primeira rainha mestiça. Isso de certa forma influenciou-me”, explica Chris van Dusen, o showrunner de “Bridgerton”. “Comecei a pensar como é que seria se tal acontecesse. O que poderia ter feito essa rainha? Poderia ela usar os seus poderes para elevar outras pessoas de cor na sociedade? Dar-lhes títulos?”

O efeito Shonda Rhimes — criadora de séries de êxito como “Anatomia de Grey” ou “Scandal” que assinou um contrato de exclusividade com a Netflix no valor de 100 milhões de euros — fez-se sentir e colocou o mundo a comentar tudo o que está relacionado com a bizarra sociedade britânica imaginada na série. Trata-se de uma viagem no tempo ao início do século XIX, onde acompanha a vida de Daphne Bridgerton, a filha mais velha de uma família poderosa.

Carregue na galeria e conheça outras das séries e temporadas que estreiam em maio nas plataformas de streaming e canais de televisão.

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