Televisão

“Há sempre alguém a tentar vender-te alguma coisa. A série trouxe-me essa consciência”

A NiT entrevistou Ana Sofia Martins, que participa na segunda temporada da série internacional “Devils”, que estreou na HBO.
Ana Sofia Martins interpreta Carolina Elsher.

A modelo, apresentadora de televisão e atriz portuguesa Ana Sofia Martins é uma das estrelas da nova temporada de “Devils”, série internacional passada no mundo da alta finança, que estreou em 2020 e que em Portugal pode ser vista na HBO Max. A segunda temporada estreou na plataforma de streaming nesta terça-feira, 10 de maio.

Ana Sofia Martins interpreta Carolina Elsher, uma investidora sofisticada cuja missão é fazer dinheiro. Esta personagem promete não expor muito a sua intimidade nem deixar que ninguém se intrometa na sua vida.

A atriz contracenou com Patrick Dempsey, um dos protagonistas, que se tornou conhecido por fazer de McDreamy em “Anatomia de Grey”. A NiT entrevistou o ator americano em 2020. O elenco inclui ainda ​Alessandro Borghi, Laia Costa, Kasia Smutniak ou Lars Mikkelsen, entre outros. Leia a entrevista da NiT.

Como conseguiu o papel?
O meu agente inglês sugere-me várias self-tapes para fazer durante a semana e o “Devils” foi mais uma que apareceu. Ele achava que eu me enquadrava numa das personagens e sugeriu o meu nome ao diretor de casting. Entretanto fizemos a leitura para esta personagem — a Carolina Elsher — e também li para outra porque eles estavam indecisos. Depois aconteceu a Covid, toda a gente fechada em casa, as produções a parar. E o “Devils” esteve parado imenso tempo, achei que já nem ia acontecer. Pensei: pronto, fica para uma próxima porque agora o mundo acabou [risos]. Até que no final de 2020 recomeça tudo.

E o que é que a atraiu mais para querer fazer esta série, entre outras self-tapes que gravou?
Para já, é um thriller financeiro — aquelas coisas de que não ouvimos muito falar. É a única série neste momento que fala de temas correntes como o Brexit, a Covid, esta pandemia digital que é a forma como os nossos dados estão a ser utilizados a favor de empresas de multimilionários e a maior parte das pessoas não faz ideia quando está a aceitar cookies… Não queremos ler aquelas sete páginas que escreveram com letras pequeninas e aceitamos tudo. Mas estamos a dar a nossa privacidade, aquilo que consumimos. Isso atraiu-me porque andava muito interessada no tema, tanto que um amigo meu até me tinha oferecido um livro da Shoshana Zuboff que é o “Capitalismo de Vigilância” e de repente parece que tudo se congeminou ali num embrulho bonito do universo. A personagem é desafiante porque se move naquilo que consideramos um mundo masculino, dos homens de negócios. E ela não é diferente, acaba por ser um deles. Por ser tão boa naquilo que faz, as pessoas que a contratam não olham para o sexo dela, isso não é relevante. É uma mulher que preza muito a sua privacidade, mas usa-a quando lhe dá jeito [risos]. E como nunca me tinha calhado nada deste género, achei desafiante. Tive que procurá-la bem, não foi de um dia para o outro. Teve que ser extremamente trabalhada. 

Que preparação fez para o papel?
A primeira foi logo de linguagem, porque aqueles termos todos que a malta que se move na alta finança usa… Há termos que nem conhecia em português, quanto mais em inglês. Foi familiarizar-me com a gíria e a cadência com que estas pessoas falam, porque se movem com um ritmo completamente diferente. Depois, houve uma preparação física. Na altura estávamos todos fechados em casa a fazer exercícios que nem doidos, então aproveitei isso para a personagem. Nunca se vai ver porque a roupa que ela usa não permite que isso aconteça, mas acho que era a mulher da alta finança mais fit do mundo [risos]. Até porque durante as gravações estive em Roma muitos meses sozinha e tinha que fazer coisas para me entreter, nomeadamente exercício. E o styling dela é uma coisa incrível. O departamento de guarda-roupa… Nunca tinha estado num sítio assim em que de repente as roupas estão a ser feitas praticamente a partir do nosso corpo e há budget para isso. Foi giro trabalhar com condições diferentes.

Podemos dizer que a personagem é algo calculista?
Sim. Para a Carolina é o negócio e o lucro acima de tudo. Por isso é que dizia que ela não se deixa enrolar muito pela história da vida privada nem vai muito por aí, porque ela acorda e vai dormir a pensar em dinheiro. É isso que a move. Se isso faz dela uma pessoa calculista? Provavelmente. Porque depois também se move em vários ambientes, tanto está com o A, como com o B, como de repente está com o C. E isso pode levar a que o público a vilanize um pouco, mas nem tudo é aquilo que parece. Olha eu a defender a sacana da minha personagem [risos].

Mas nesta série não há nada a preto e branco, não é? Não é uma vilã propriamente dita.
Não, nem há disso, não há vilões nem bonzinhos. Há a verdade e o dinheiro. E quando estes dois mundos se misturam… por isso é que temos episódios tão empolgantes.

Fez alguma coisa que a ajudasse a entrar no espírito da personagem, além do uso da linguagem?
O que me ajudou foi estar isolada. Estava longe da minha família, dos meus amigos, por isso tive que me concentrar na Carolina a 200 por cento. E isso foi bom, porque ao mesmo tempo que estava numa situação que era incontornável, passei isso para a Carolina. Ela vive aquilo, o trabalho dela, os investimentos. Ela se puder pensar naquilo 24 horas por dia pensa. E como estava a pensar no trabalho dessa forma, tentei que isso passasse para ela. Porque acho que tem que haver verdade quando estamos a representar, nem que seja uma verdade que tenha sido adaptada de uma coisa para outra. 

Canalizar essa mesma energia. Deu por si mais interessada no mundo das finanças?
Sem dúvida [risos]. Quando era miúda, tinha televisão no meu quarto e adormecia todas as noites a ver aquele programa na RTP2, o “Financial Times”. Falava da bolsa, de como estavam os valores, e hoje dou por mim muito mais interessada não tanto no lado da finança, mas mais no lado digital da coisa, e como é que estes dois mundos se cruzam. Nomeadamente esta parte dos dados, o ter noção do quão vigiados estamos a ser constantemente e o lucro que dá sermos viciados nos telefones. Dou por mim muito mais consciente do mundo que me rodeia digitalmente. Isso não é particularmente uma coisa boa, porque quando tens noção para que é que estão a ser utilizados os teus dados, com que companhias, quais os propósitos deles, e vês que a toda a hora estão a enfiar-te publicidade pelos olhos adentro e “compra, compra, compra”, o mundo começa a não ser um lugar tão espetacular para se estar. Se reparares, a cada esquina, a toda a hora, está alguém a tentar vender-te alguma coisa. Acho que esta série me trouxe muito essa consciência. De repente é quase como se vilanizasses o mundo todo à tua volta. “Lá estão eles a tentar que eu veja a publicidade, não vejo” [risos]. Depois faço as minhas pequenas revoluções diárias. Agora, ao domingo, nunca uso o telefone.

Nunca?
Não sai da minha mesa de cabeceira. Vou fazer a minha vida, saio de casa, tudo. E os meus amigos e família próxima têm o número de telefone de casa, se houver alguma emergência contactam-me por aí. Estou a fazer um bocadinho este… detox digital, que parece uma moda e depois vai passar, mas basicamente é o que estou a fazer: não ser tão dependente do lado digital da vida. O que é quase impossível na minha profissão, para promover o que faço… Estou sempre nesta dualidade.

Mas é interessante porque, estando a Ana Sofia desse lado, tem não só a questão da promoção, mas enquanto figura pública é comum haver associações a marcas.
Mas isso eu já tinha… Aliás, acho que as marcas já perceberam há muito tempo que para mim já foi chão que deu uvas. Hoje, se não me identificar mesmo com a marca, não vai acontecer. Podem dar-me todo o dinheiro do mundo que isso não vai acontecer. Aliás, basta ires às minhas redes sociais e não há quase marca nenhuma. No meio disto tudo, quero ter integridade — que é um bocado contrassenso porque também estou nisto para fazer dinheiro. Mas já percebi que com as redes e o mind set que tenho neste momento… Não quer dizer que não possa mudar de ideias, porque as pessoas têm de pagar as contas, mas não é a minha primeira fonte de rendimento. Já foi, durante algum tempo, e acho que quando as pessoas estão no auge da popularidade não tem mal nenhum capitalizarem isso… Mas depois já é uma escolha tua. Se quiseres continuar a ir por ali, e não tenho nada contra quem o faz, mas neste momento isto é o que faz sentido para mim.

Mas esta visão em relação às marcas e ao mundo da publicidade digital já não teve a ver com “Devils”.
Não, já havia coisas que me faziam muita confusão. A pessoa que um dia está a vender um iogurte para a marca X e no dia a seguir para a marca Y. Dei por mim a questionar muito qual era o propósito disto tudo. E o propósito é só fazer dinheiro…

E qual foi o grande desafio em fazer este projeto?
Acho que foi não haver grande convívio entre os atores. O que havia era no dia em que fazíamos as cenas. Mas às vezes havia alguém que dizia “vamos tomar uma bebida” e era sempre tudo a medo, com a Covid. Porque se um de nós apanhasse ia pôr a produção em risco e ninguém queria ter esse ónus em cima. Na primeira reunião que fizemos no Zoom, o produtor foi muito direto e disse-nos: este é o nosso budget por episódio, por isso não estamos aqui para brincar, meus meninos, é para fazer a sério. E quando ouvi o valor fiquei “what?”. Porque estou habituada ao budget de uma novela portuguesa.

Esse distanciamento provocado pela pandemia também atrapalhou a dinâmica entre os atores para a construção das personagens?
Não, acho que isso até ajudou porque a ideia que tenho da minha personagem é que não é cá de grandes convívios nem de estar em grandes sítios com os colegas. Portanto, nesse aspeto, pode ter sido uma mais-valia. Mas pessoalmente foi desafiante não estar à vontade.

Ana Sofia Martins contracenou com Patrick Dempsey na série.

E foi mais prazeroso trabalhar numa produção de grande dimensão?
Não, foi exatamente igual. Foi só mais prazeroso não sentires às vezes a pressão de teres um budget pequenino. Por exemplo, tínhamos os argumentistas connosco, e qualquer mudança que fosse necessário fazer eles faziam isso na hora. Mas não é o budget que faz magia, às vezes são as pessoas e a boa vontade.

E como foi contracenar com aquele elenco?
Foi maravilhoso, gostei de todos. Quando se é novo num sítio, as pessoas têm a tendência de nos apaparicar um bocadinho mais e de nos quererem conhecer. E como éramos quatro atrizes novas nesta temporada, acho que sentimos um mimo de toda a equipa. Porque, como eles já vinham com uma equipa feita da primeira temporada que correu tão bem a nível mundial, eles quiseram continuar. E só se continua se as pessoas novas que aparecem venham com esse espírito. Acho que a equipa que já lá estava preparou-nos muito bem para isso. Porque vinham todos com vontade de fazer e fazer bem. Acho que é isso que faz a diferença e que dita o sucesso, ou não, dos projetos.

Neste momento está mais focada em fazer séries e cinema? Em projetos internacionais?
Não, agora estou focada em fazer o que aparecer. Porque vivemos num País em que não podemos ser muito esquisitos, não nos podemos dar a grandes luxos de escolhas. Com isto não digo que “nunca vou fazer uma novela”. Não, quero fazer projetos que façam sentido naquilo que defini para o meu futuro profissional. Sejam novelas, uma peça de teatro, uma série ou cinema. Agora, adorava experimentar fazer uma série no meu País. Já fiz uma pequena participação num filme do Vicente Alves do Ó, mas adorava ser uma das personagens do início ao fim num filme português. Mas acho que essas oportunidades surgirão a seu tempo. O mercado também está a sofrer algumas mudanças neste momento e o meu tempo também chegará. Sei esperar. Sou uma miúda muito paciente, profissionalmente, na vida pessoal é que não sou muito [risos].

Mas tem algum projeto entre mãos?
Agora estive a fazer umas dobragens que brevemente vou poder divulgar, de um filme de animação, também tenho “Os Demónios do Meu Avô” a sair este ano — o primeiro filme de animação stop-motion português. E tenho feito self-tapes a ver se confirmo uns projetos novos. Gostava muito [risos].

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