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Halle Berry está de volta — e conquistou o top da Netflix ao soco e ao pontapé

É protagonista e realizadora de “Ferida”, o filme com que quer regressar ao estrelato depois de vinte anos de insucessos.
Halle Berry está de volta

“Este momento é tão maior do que eu”, afirmou entre lágrimas e soluços, já com o Óscar para Melhor Atriz na mão. O Óscar que nunca tinha sido entregue a uma atriz afro-americana. “Este momento é para Dorothy Dandridge, Lena Horne, Diahann Carroll. É para as mulheres que estão ao meu lado (…) É para todas as mulheres de cor sem nome e sem rosto, que agora veem aberta uma nova possibilidade, porque esta noite abriu-se uma porta.”

A conquista simbólica pelo seu papel em “Monster’s Ball — Depois do Ódio” era a prova de que Halle Berry tinha lugar na lista privilegiada dos melhores de Hollywood. Aos 35 anos, Berry vinha de êxito atrás de êxito, do surgimento como Storm em “X-Men” ao papel de uma das protagonistas no blockbuster “Swordfish”, ao lado de John Travolta, Don Cheadle e Hugh Jackman. Foi a Bond Girl de “Morre Noutro Dia”. O que poderia correr mal?

Aparentemente, muita coisa. Depois da conquista do Óscar, a carreira de Berry entrou num ocaso difícil de entender. Fracasso de bilheteira atrás de fracasso de bilheteira, críticas impiedosas, tudo aconteceu à atriz que tão depressa entrou na chamada “A List” de Hollywood como dela desapareceu com a mesma rapidez.

Quase duas décadas depois da coroação gloriosa na gala dos Óscares, a maré parece estar a mudar. Aos 55 anos, Berry é a estrela de “Ferida”, o novo filme da Netflix que estreou a 24 de novembro e disparou para o primeiro lugar do top da plataforma em Portugal.

A atriz é Jackie Justice, uma famosa lutadora de Artes Marciais Mistas (MMA) que abandona a competição oficial. Com o regresso do filho que abandonou à nascença e sem grandes perspetivas, acaba por se envolver em lutas ilegais até que chega a grande oportunidade de regressar ao octógono.

Não só Berry é a protagonista como é a a realizadora do projeto, uma estreia no cargo para a atriz que parece querer voltar de vez aos grandes filmes, depois de uma aparição no terceiro capítulo da saga de John Wick. É também uma forma de exorcizar as últimas duas décadas de insucessos com um papel de força que, explica a própria, a ajuda a atirar para trás anos de objetificação.

“Estava muito desanimada depois de ganhar aquela estatueta jeitosa”, confessa a atriz. “Tinha a certeza que teria um camião com guiões parado à porta de minha casa. Era o que eu achava que ia acontecer: ‘agora vou ter direito a todos os grandes papéis’. Infelizmente, essa não foi a realidade.” 

Apesar de ter regressado à saga “X-Men”, viu fracassar as suas participações em “Gohtika” e “Catwoman”. Experimentou a nova onda de séries televisivas com “Extant”, outro fracasso.

“Se alguém te disser que depois de ganhares um Óscar, passas a poder escolher coisas que vão ser êxitos, estão a mentir-te”, afirmou em 2015 numa entrevista ao “The Guardian”. As razões do fracasso não são tão fáceis de descortinar: há quem diga que ser afro-americana não ajudou; que a idade prova que não há espaço para mulheres mais velhas nos bons papéis.

A verdade é que, vinte anos depois, nunca mais nenhuma mulher afro-americana atravessou a tal porta que Berry anunciava ter aberto em 2002. “Estou desapontada, ainda que inspirada pela quantidade de pessoas de cor que estão a fazer tão bons trabalhos. A qualidade e valor do nosso trabalho não é determinado por um troféu”, explica. “Gostava de ver mais reconhecimento, sem dúvida, mas todos temos que encontrar a vitória no nosso trabalho. A verdadeira vitória surge quando não estamos a vender apenas histórias de cor.”

Questionada sobre o papel que a idade poderá ter tido no seu ocaso, Berry desvaloriza. “Sempre tive dificuldades em encontrar papéis, sendo eu uma pessoa de cor. Quando tinha 21, era tão difícil quanto agora que tenho 48. Para mim, é exatamente o mesmo”, explicou em 2015.

Mais preocupada com o seu próprio percurso, mostra-se ainda assim desiludida. “Tenho continuado a tentar criar caminhos para mim própria. É difícil. É raro encontrar bons papéis que realmente me entusiasmam.”

“Sou, por norma, uma pessoa muito positiva. Não passo os meus dias a criticar isto e aquilo. Estou aqui para trabalhar e tenho mais montanhas para escalar. Tenho coisas para aprender. Mais desafios para enfrentar. E quero continuar a melhorar.”

As fichas de Berry estão agora todas em cima da mesa, lado a lado com “Ferida”. Como protagonista e realizadora, não há muito por onde se esconder. Mas o papel de Jackie Justice parece ter sido realmente feito à medida da atriz que é também uma lutadora na vida real.

Os socos e pontapés de Halle Berry

Quando se cruzou pela primeira vez com o guião de “Ferida”, o destino parecia querer repetir uma cena que Berry tantas vezes tinha visto nos últimos vinte anos.

“Deram-me o guião e adorei a história, mas tinha sido escrita para uma mulher branca, irlandesa católica de vinte e poucos anos. Mas não conseguia tirar o guião da minha cabeça e pensei se poderia ser reimaginado para alguém como eu”, contou à “Entertainment Weekly”. Berry achava que “tinha o que era preciso” para retratar uma mulher negra de meia idade, uma mulher a lutar por uma última oportunidade.

Blake Lively era a atriz pretendida para o papel. Assim que o recusou, Berry atacou a oportunidade. “Fui ter com o produtor, que tinha acabado de fazer o John Wick 3 comigo, e lancei a minha ideia. Ele adorou e disse-me: ‘Agora vai encontrar um realizador’.”

A tarefa complicou-se e depois de muitos encontros frustrados, a atriz pensou que se ninguém partilhava a sua visão, seria ela mesmo a assumir o cargo. O produtor consentiu e “Ferida” avançou.

Para o papel, Berry tinha outro trunfo a seu favor. Desde que começou a preparar-se para “John Wick 3” que a atriz mergulhou no mundo das artes marciais. É, aliás, uma fã da UFC e, entre a sua lista de filmes favoritos estão clássicos como “Rocky”, “Raging Bull” ou “Million Dollar Baby”.

A boa forma física também ajudou. Berry, esguia e musculada aos 55, atribui a forma a “alguma sorte” e a uma “vida limpa”, até porque sofre de diabetes, o que a obriga a ter uma alimentação altamente controlada.

Começou por praticar jujisu, depois judo. Atirou-se de cabeça ao muay thai, ao taekwondo e ao kickboxing. Treinou com outros lutadores, sobretudo de MMA. E a grande treinadora foi mesmo Valentina Schevchenko, atual campeã da UFC e rival de Berry no filme.

Pode não parecer, mas Berry é dura. Muito dura. Durante as gravações de “John Wick 3”, a atriz sofreu uma fratura em três costelas. A lesão aconteceu de forma impercetível e sem dor.

“Cheguei a pensar que tinha cancro ósseo”, recorda. “Depois pensei que era osteoporose. Não conseguia perceber porque é que isto me acontecia quando eu estava tão bem fisicamente.” Acabaria por perceber que era um sintoma da diabetes. “Tenho uma propensão para partir ossos mais facilmente do que outras pessoas.”

Chegada ao set de “Ferida”, um golpe de Shevchenko voltou a colocar a atriz em apuros. Resultado: mais duas costelas partidas. “Não queria parar porque tinha estado a preparar-me durante tanto tempo. Tínhamos ensaiado, eu estava pronta. A minha mente estava pronta, tínhamos que continuar. Compartimentalizei tudo e segui em frente. ‘Vou fingir que isto não dói. Vou usar a força de vontade para ultrapassar isto’. E assim o fizemos.”

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