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“Hell’s Kitchen”: se dependesse de Ljubomir, João tinha sido expulso 30 vezes

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o mais recente episódio do programa da SIC.
João tinha imunidade e foi o que o salvou.

Não sei o que foi mais penoso de assistir no episódio deste domingo, 2 de maio: a um homem de barba rija voltado para a parede como um miúdo mal comportado, ou ao penteado à princesa Leia da Rute. João é como aqueles atores de Hollywood que, quando morrem, as pessoas dizem: “mas espera aí, ele ainda estava vivo? Tinha quase a certeza que tinha patinado há uns anos”.

A verdade é que João vai-se aguentando — sabe Deus como — e “Hell’s Kitchen”, transmitido aos domingos à noite na SIC, parece cada vez mais o “Matrix”, pela forma como o João tem conseguido escapar-se às balas. Esta semana ninguém foi expulso, mas não foi por falta de vontade do chef. Se dependesse de Ljubomir, João tinha sido expulso umas 30 vezes durante o episódio, mas o desafio inicial ditou que lhe fosse dada imunidade, o que foi melhor que lhe sair o Euromilhões. 

Os concorrentes foram testados sobre o seu nível de conhecimentos de gastronomia portuguesa, com as equipas a serem representadas por João e Rafaela. No final do teste ficámos a saber que os concorrentes até conhecem algumas receitas, mas não conseguem identificar-lhes a origem. Acontece-me muitas vezes na rua, porque eu sou muito distraído e então as pessoas cumprimentam-me, dizem o meu nome e eu não faço a mínima ideia de onde as conheço. Depois fico ali mentalmente a jogar ao “quem é quem” para tentar descobrir quando é que foi a última vez que estive com aquele polvo à lagareiro e em que ocasião. Mas agora comecei a tomar Centrum e isto é capaz de melhorar. Já fico contente se me lembrar do nome das pessoas, porque “ooooolhó gajo” funciona uma ou duas vezes, mas à terceira as pessoas começam a desconfiar. 

No desafio seguinte, os concorrentes tinham de escolher uma receita típica de uma região do País para confecionar. Sendo alentejano, João optou por cozinhar umas migas. Só houve um pequeno detalhe: é que João não fazia ideia como é que se cozinham umas migas e optou por usar pão ralado. Um alentejano fazer migas com pão ralado é como um portuense fazer francesinha com chantilly. Até pode ser original, mas não deixa de ser estúpido. “Estás a envergonhar o País inteiro. Por isso, tira já a puta da jaleca e vai imediatamente para casa!”, gritou Ljubomir, para segundos depois fazer um “nhecos”… Afinal, João fica porque tem imunidade.

Alguém devia ter chamado os capacetes azuis da ONU, porque isto foi o princípio do massacre a João, que se prolongaria até ao final do programa. Como sentiram o aval do chef Ljubomir para cascar no alentejano, o resto da equipa uniu-se em matilha para fazer a folha a João, que era o líder desta semana.

Com a situação ao rubro, o chef ordena que eles se reúnam para tomar decisões e resolverem as querelas, antes que alguém apareça com o cutelo espetado nas costas. A equipa junta-se na despensa e cada um à sua vez tenta arrancar um bocado de carne a João. Ao ouvir o chavascal dos restantes lobos, o macho alfa aparece a brandir um bastão e manda-os todos embora com um aviso: “parem já com isso! Se houver algum problema resolvem com esta merda! Parecem putos da primeira classe, pá!” Claro, porque resolver os conflitos na base da porrada é uma atitude de grande maturidade. 

Entretanto, no meio do “Danças com Lobos”, as portas abrem e começam a chegar os clientes para mais uma noite de serviço no “Hell’s Kitchen”. “Hoje vem a minha mulher, conquistei-a dentro de uma cozinha, por isso não me deitem tudo a perder, se não parto a boca a alguém.” Ljubomir estava doido para molhar a fruta mas, infelizmente, como já todos sabemos de cor, na carta só há baba, tata e brulée para sobremesa. “O gajo é duro”, comenta Francis Obikwelu depois de ver Ljubomir mandar uma palmada numa travessa que voou pelos ares, numa chuva de gordura e escamas. Porquê? Porque estavam mal fritas, mas principalmente porque tinham sido feitas pelo João.

Nesta altura já não havia nada que o concorrente pudesse fazer para mudar a raiva que Ljubomir sentia. E quando o chefe lhe pediu um prato de arroz e João lhe entrega um tacho pela terceira vez, foi a gota de água. “Fecha a cozinha!”, grita Ljubomir para o chefe de sala. E depois atira para João: “Tu, vai para o canto da sala, virado para a parede e não olhas para trás! Se não queres, tiras a jaleca e voltas para casa”. Se fosse eu, naquele momento, tinha tirado a jaleca e mandava-os a todos para um sítio que eu cá sei. Só não me lembro é qual, porque hoje ainda não tomei Centrum. 

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