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A história do maior roubo de arte de sempre é contada na nova série da Netflix

“Isto é um Assalto” estreou a 7 de abril na plataforma de streaming. Tudo aconteceu em 1990, em Boston.
Tem quatro episódios.

Foi na madrugada de 18 de março de 1990, durante apenas 81 minutos, que o maior roubo de sempre de obras de arte aconteceu. Dois ladrões vestidos de polícias invadiram o museu Isabella Stewart Garden, em Boston, nos EUA, e saíram de lá com obras no valor de cerca de 420 milhões de euros.

31 anos depois, as peças nunca foram recuperadas nem nunca ninguém foi julgado pelo caso. As autoridades têm hoje uma teoria, mas nunca foi oficialmente comprovada — e durante anos e anos o mistério adensou-se e tornou-se num fenómeno popular.

Uma nova série documental relata este caso em pormenor. “Isto é um Assalto: O Maior Roubo de Arte do Mundo” estreou a 7 de abril na Netflix. Tem quatro episódios, cada um com cerca de 50 minutos. Foi realizada por Colin Barnicle, natural da área de Boston, e a frase “Isto é um assalto” terá sido dita por um dos ladrões ao segurança do museu que estava de serviço, Richard Abath.

Os assaltantes levaram com eles três quadros de Rembrandt — um deles é a única paisagem marítima conhecida do pintor holandês; um quadro de Vermeer (que tem um espólio escasso, que não chega às 40 pinturas); vários esboços de Degas; e trabalhos de Manet e Flinck. Apesar de terem passado por muitas outras peças de maior valor, levaram ainda um vaso chinês e uma águia de bronze de uma bandeira napoleónica.

Richard Abath, o segurança, foi encontrado pela polícia amarrado e amordaçado com fita adesiva, nos túneis abaixo do museu de Boston. Na altura começaram logo a surgir suspeitas de que tinha sido um crime orquestrado com a ajuda de alguém que lá trabalhava e as atenções rapidamente se viraram para o segurança de 23 anos que admitiu ir várias vezes trabalhar pedrado. Mas nunca nada foi provado.

Certo é que os sistemas de segurança do Isabella Stewart Garden, para um museu repleto de obras de grande valor, eram praticamente rudimentares. A direção do museu fundado em 1899 não via a segurança como uma prioridade e isso tornou o espaço num alvo fácil.

A diretora do Isabella Stewart Garden, Anne Hawley, só estava no cargo há seis meses quando o assalto aconteceu. O museu ofereceu uma recompensa de cinco milhões de dólares (que depois subiu para dez milhões), mas as peças nunca foram recuperadas. Hawley ficou no lugar até 2016 e é uma das principais entrevistadas nesta série documental da Netflix.

A produção, que demorou mais de cinco anos a ser feita, tem ainda entrevistas com jornalistas locais e investigadores, além de a equipa ter analisado milhares de documentos. Centra-se também nas múltiplas teorias que surgiram após o roubo — que foram ampliadas e disseminadas alguns anos mais tarde, na era da Internet.

“Quisemos começar com uma página em branco, sem assumir nada, e partir daí para vermos onde é que as provas nos levavam”, disse Barnicle ao jornal britânico “The Guardian”.

Houve duas testemunhas, dois adolescentes do secundário que estavam a sair de uma festa, que viram dois homens vestidos de polícias num carro. Terão sido os assaltantes. As teorias iam desde uma conspiração promovida pelo IRA até um crime cometido por mafiosos locais, que é aquilo que a investigação do FBI defende, embora não tenha sido comprovado. De qualquer forma, como a série aponta, parece a hipótese mais plausível.

Alegadamente, o roubo foi cometido por dois associados do mafioso Carmello Merlino. Segundo esta teoria, os ladrões foram George Reissfelder e Leonard DiMuzio, de 51 e 49 anos, que frequentavam regularmente uma oficina de carros ligada à máfia. Ambos morreram em 1991, um ano após o assalto, um por overdose de cocaína e o outro num tiroteio.

Merlino foi detido pelo FBI em 1999, e condenado por outro crime, de tentativa de assalto. Morreu na prisão em 2005. O FBI acredita que as obras estiveram a ser guardadas durante algum tempo por outro associado, Robert Guarente, um homem que tinha sido condenado por assaltos a bancos, e que morreu em 2004. O único membro do grupo ainda vivo que pudesse ter informações sobre o assalto é David Turner, que foi detido com Merlino em 1999 e libertado da prisão em 2019, aos 52 anos. Segundo o realizador, recusou ser entrevistado para a série.

Apesar de o FBI não ter provas nem grandes teorias sobre o paradeiro das obras, a autoridade policial americana acredita que elas passaram por um circuito de transporte ligado à máfia, em redes que passavam por Filadélfia e Connecticut. O último alegado avistamento de um dos quadros foi em 2003.

O realizador da série, Colin Barnicle, acredita que o assalto foi por encomenda — e que os ladrões e a rede mafiosa estava apenas a cometer o crime para entregar as obras a outros destinatários. Barnicle diz ainda que tem esperanças que a série possa trazer mais atenção para este caso.

O realizador acredita que algumas das peças menores, como o vaso chinês ou a águia de bronze — ou mesmo os esboços pouco elaborados de grandes pintores — possam estar neste momento na posse de alguém que pode nem sequer conhecer o devido valor ou origem. Até porque na altura do roubo foram os grandes quadros que foram sobretudo publicitados pelas autoridades, já que eram a grande prioridade. “A minha esperança é que a série acabe com um dos trabalhos de volta à respetiva moldura”, disse Barnicle ao “The Guardian”.

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