Televisão

A história real que inspirou “Unorthodox” (e que chegou agora a Portugal)

Tal como Esty Shapiro, Deborah Feldman era uma judia a sentir-se sufocada na comunidade ultra-ortodoxa onde vivia.
A série estreou em março.

2020 tem sido um longo ano em muitos aspetos, e no que toca às séries de televisão têm sido bastantes as que têm aparecido e desaparecido do radar — muitas vezes numa questão de poucas semanas.

Provavelmente vai parecer que foi há mais tempo, mas foi nesta primavera que a minissérie “Unorthodox”, da Netflix, se tornou um sucesso internacional — Portugal incluído. O projeto só tem quatro episódios mas permitiu ao público um olhar sobre uma realidade desconhecida — e entrar em contacto com esta história real comovente e de liberdade.

A série acompanha Esther “Esty” Shapiro, uma jovem judia da comunidade ultra-ortodoxa de Williamsburg, um bairro de Brooklyn, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Ela cresceu naquele meio ultra conservador e sente-se sufocada — daí que fuja para Berlim, na Alemanha, terra dos seus antepassados, para se descobrir a si própria e tentar criar uma nova (e melhor) vida.

“Unorthodox” estreou no final de março e tornou-se uma das séries mais vistas durante o período de confinamento. Baseia-se no livro escrito por Deborah Feldman que conta a sua história real. “Unorthodox, a Verdadeira História das Minhas Raízes”, editado originalmente em 2012, foi publicado no final deste mês de setembro em Portugal. A edição da Presença tem 304 páginas e está disponível por 16,90€.

Tal como Esty, Deborah Feldman cresceu em Williamsburg, no seio de uma comunidade hassídica — criada por judeus sobreviventes do Holocausto, que viam na manutenção rígida das suas tradições o caminho para a salvação, para a vingança contra os nazis e para a afirmação da cultura judaica, que defendem que devia ter sido mantida sobre si própria, não se misturando com a “secular”.

Deborah foi criada pela avó. A sua mãe (tal como na minissérie da Netflix) abandonou a comunidade e assumiu-se mais tarde como lésbica. A diferença é que, na vida real, a mãe de Deborah Feldman apenas se mudou para outra zona de Brooklyn, e não para Berlim, na Alemanha. Aliás, a minissérie é bastante fiel relação ao que se passa na realidade em Nova Iorque. Mas a vida de Esty em Berlim, para onde foge depois de deixar o marido, é completamente fictícia.

Na vida real, Deborah Feldman também teve direito a um casamento arranjado quando tinha 17 anos. Tal como Esty, Deborah era uma miúda pouco convencional — gostava de ler livros que à partida lhe seriam proibidos e tinha ideias diferentes da maioria das mulheres da comunidade.

Deborah Feldman tem hoje 34 anos.

Esta é uma cultura rígida e severa. As mulheres têm de usar perucas por cima do cabelo rapado, não é possível usarem a Internet nem usarem produtos considerados seculares, entre muitas outras regras. Williamsburg funciona como uma comunidade fechada sobre si mesma, com as próprias escolas, serviços e centros de saúde, para que haja o mínimo contacto possível com o mundo “exterior”.

Uma das grandes missões dos hassídicos é aumentar a natalidade — fazer crescer a comunidade depois dos milhões de judeus europeus assassinados no Holocausto. Por isso mesmo, o grande dever de uma mulher, depois de casar, é engravidar.

Feldman casou com Eli quando tinha 17 anos. Só estivera com ele duas vezes antes — num processo idêntico àquele a que assistimos em detalhe na minissérie da Netflix. Era esperado de Deborah Feldman que ela engravidasse o mais rapidamente possível, mas a jovem de 17 anos quase não consiga suportar as relações sexuais, devido a uma condição de saúde chamada vaginismo. Tinha dores e não sentia vontade.

Deborah Feldman sentia uma pressão enorme da sua comunidade para o fazer. Os pais, os sogros, os tios e os primos falavam repetidamente do assunto, dizendo que tinha de o fazer para engravidar rapidamente.

Apesar de viver cada vez mais ansiosa e a sentir-se sufocada por todos, Deborah Feldman conseguiu engravidar quando tinha 19 anos. Ao mesmo tempo, começou a questionar se queria trazer a sua criança àquele mundo do qual já não gostava há bastante tempo.

Ao contrário da série da Netflix, porém, Deborah Feldman não fugiu rapidamente para Berlim, deixando a sua vida passada para trás. O seu afastamento da comunidade hassídica foi gradual. Primeiro, ela e o marido (e o filho bebé), mudaram-se para outra zona de Nova Iorque, diferente de Williamsburg.

Tem 304 páginas.

Deborah começou a estudar numa faculdade não judaica, a ter mais convívio com pessoas de fora da sua comunidade, e percebeu que não a tratavam mal por ser judia ou por pertencer àquela religião — ao longo do tempo foi desmistificando muitos dos dogmas e ideias pré-concebidas que lhe haviam sido impostos durante a sua vida inteira.

O episódio que fez com que tomasse definitivamente a decisão de abandonar este modo de vida (o que incluía divorciar-se do marido) ocorreu quando teve um grave acidente de carro. Sobreviveu por pouco, e nesse dia percebeu que não queria desperdiçar o resto da sua vida a continuar a viver daquela forma. 

No dia seguinte ao acidente, vendeu as suas jóias, alugou um carro e simplesmente abandonou o marido, com o apoio de alguns amigos. Tinha 23 anos. Durante algum tempo, Deborah e Eli partilharam a custódia do filho Isaac. Deborah depois voltaria a relacionar-se com a mãe.

Na minissérie da Netflix, Esty vai diretamente para Berlim, onde a mãe vive, e acaba por se tornar parte de um grupo de amigos de uma escola de música. Na vida real, Deborah Feldman (que foi uma produtora bastante ativa em “Unorthodox”) mudou-se para Berlim em 2014, com o seu filho, já alguns anos depois de abandonar a comunidade. O objetivo, contudo, em grande parte era o mesmo: viajar até às terras dos antepassados, descobrir o passado traumático que a fez crescer naquela comunidade peculiar. Esta história real é contada em pormenor, pela própria Deborah Feldman, no livro que chegou recentemente às livrarias portuguesas.

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