Televisão

A história sinistra do médico que inseminou dezenas de mulheres sem elas saberem

Quincy Fortier inspira um novo documentário que chega agora à HBO. A NiT conta-lhe os pormenores.
Foram décadas de fraude.

Aos 54 anos, Wendy Babst estava a terminar a sua carreira de mais de uma década como detetive no condado de Clackamas, no estado americano de Oregon. Estávamos em março de 2018 e, para celebrar a reforma, ofereceu a si própria um kit de genealogia, um daqueles kits simples em que através do ADN se descobre mais sobre a nossa origem.

A ideia era descobrir, por mera curiosidade, um pouco mais sobre os seus antepassados. Na verdade, acabou por descobrir que tinha vários primos. Mas havia um problema: até aqui Wendy não tinha primos, ou sequer tios ou tias. “Percebi que algo estava errado”, conta a própria numa entrevista ao “The Washington Post”.

A história de Wendy começa muito antes, nos anos 60, quando a sua mãe, Cathy Holm, então com 22 anos, procurava engravidar. Aquele era um tempo em que assuntos mais íntimos, em especial relativos à saúde da mulher, eram ainda tabu. À procura de ajuda, Cathy Holm encontrou um especialista em fertilidade. Foi assim que chegou a Quincy Fortier.

Fortier era um médico consagrado no Nevada. Começou a sua carreira em 1945, nos anos 60 fundou um então inovador hospital de saúde da mulher, o primeiro em Las Vegas. Durante décadas era a figura de referência para muitas mulheres que procuravam ajuda para engravidar. Ao ponto de em 1991 ter sido eleito o médico do ano no Nevada.

O médico prometera à mãe de Wendy que a ajudaria a engravidar, recorrendo a esperma do seu marido. Mas não: usou o seu próprio. Era ele o pai biológico de Wendy. Na verdade, é o pai de um total de 26 pessoas — e falamos apenas das que já se conhecem.

Sem consentimento de ninguém, e mentindo às suas pacientes, Quincy Fortier foi usando repetidas vezes esperma seu para engravidar diferentes mulheres. Fê-lo durante anos, sem nunca ter sido acusado criminalmente, sem nunca ter perdido a sua licença. Morreu em 2006, quando tinha 94 anos. Estamos ainda hoje a descobrir mais sobre este caso.

A história de Wendy é o ponto de partida de “Baby God”, documentário que chegou a 4 de dezembro à HBO Portugal.

O filme é o culminar de dois anos de trabalho de Hannah Olson, ela que trabalhou como produtora em “Finding Your Roots With Henry Louis Gates Jr.”, um programa que já vai na sexta temporada e que permite a celebridades descobrirem mais sobre os seus antepassados. O programa combina testes de ADN com trabalho de investigação. Entre as muitas histórias já reveladas por ali, está, por exemplo, a do apresentador Anderson Cooper, que teve um antepassado esclavagista que foi morto à pancada por um dos seus escravos durante uma revolta. “Ele mereceu, não tenho dúvida”, afirmou na altura o pivot.

Quando Hannah Olson se lançou neste trabalho, descobriu que Fortier escondia ainda mais “segredos tenebrosos”, recorda ao “The Guardian”. É o caso das suspeitas que surgiram sobre um alegado abuso de uma enteada de Fortier, que terá engravidado e sido enviada para uma instituição para mães solteiras.

A criança que nasceu daquela relação chamava-se Jonathan e acabou por ser adotado por uma família no Minnesota. Foi um dos primos de Wendy que a realizadora descobriu durante a sua investigação, embora neste caso não tenha nascido através de inseminação artificial.

Já depois de ter sido nomeado Médico do Ano, em 1991, Fortier foi processado por pelo menos duas pacientes, precisamente por ser suspeito daquilo a que se convencionou chamar fraude de fertilidade. Os casos, que envolviam a paternidade de pelo menos quatro crianças, foram resolvidos fora do tribunal, com acordos que implicavam que a história nunca poderia ser contada em público.

Foi só em 2007, já depois da sua morte, que Fortier reconheceu pela primeira vez o seu crime. Um nota de rodapé no seu testamento admitia a possibilidade de ser pai de mais crianças. Ao “The Washington Post”, Babst imagina que o homem que descobriu ser seu pai biológico nunca terá imaginado que “um dia seria apanhado”. “Acho que ele não tinha maneira de imaginar que um teste que custa umas poucas dezenas de euros permitiria enviar uma amostra e revelar ligações a pessoas um pouco por todo o mundo.”

Há algo nesta história que, para as vítimas, será sempre uma injustiça por resolver. Este é um dos casos mais chocados de fraude em inseminação artificial mas está longe de ser o único caso nos EUA. O médico Donald Cline, que se retirou em 2009 no estado de Indiana, viu já mais de 60 pessoas acusarem-no do mesmo crime.

Centrado em Fortier, “Baby God” vem expor não apenas os abusos deste médico mas também o que o terá motivado e o impacto emocional que as suas atitudes tiveram nas vidas destas pessoas.

À procura do que ver este mês? Carregue na galeria e descubra 15 séries que estreiam ou regressam em dezembro (e que não vai querer perder).

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT