Televisão

Homicídios, drogas e abusos sexuais: a família de Armie Hammer vai dar uma série

É a própria tia do ator, Casey Hammer, que vai produzir esta série documental sobre os segredos da família milionária.
O ator de 34 anos está a ser investigado por violação.

Em janeiro deste ano, o ator americano Armie Hammer, de 34 anos, foi acusado por várias mulheres de ter tido comportamentos sexuais perturbadores relacionados com um fetiche de canibalismo. Apesar de não terem sido apresentadas provas, o ator saiu de um filme onde ia contracenar com Jennifer Lopez.

Conhecido por filmes como “Chama-me Pelo Teu Nome” ou “A Rede Social”, Armie negou todas as acusações. Ainda assim, os seus agentes deixaram de trabalhar consigo e abandonou o elenco de vários outros filmes e séries, tornando-se rapidamente uma persona non grata em Hollywood.

Dois meses depois, em março, a polícia de Los Angeles anunciou que estava a investigar a alegação de uma mulher de 24 anos, que dizia ter sido violada por Armie Hammer em abril de 2017. A alegada vítima disse que foi abusada durante mais de quatro horas em Los Angeles, e que Hammer cometeu vários atos violentos e não consensuais durante aquele tempo.

Hammer voltou a defender-se através do seu advogado, que alegou que a acusação era ultrajante e que todas as relações do ator sempre tinham sido consensuais. O caso está a ser investigado e ainda não houve quaisquer conclusões, mas a carreira promissora de Armie Hammer foi profundamente afetada.

Nos últimos dias, a “Deadline” noticiou que a tia de Armie Hammer, Casey Hammer, está a desenvolver uma minissérie documental sobre os segredos da família. A produção está a ser apresentada a várias plataformas de streaming e canais de televisão. Armie e Casey não têm uma relação próxima nem falam há mais de dez anos, mas a tia comentou a situação do sobrinho numa entrevista recente ao podcast Juicy Scoop.

“Quando isto tudo começou a acontecer com o Armie, sempre disse que quem sai aos seus… Foi o ambiente em que nós crescemos — era muito violento, abusivo e tóxico”, disse Casey Hammer.

“A história da família Hammer é como a de ‘Succession’ mas em esteróides”, descreveram à “Deadline” dois dos produtores da futura série,  Elli Hakami e Julian P. Hobbs. A própria Casey Hammer já tinha dito anteriormente que não tinha conseguido ver por completo a série da HBO sobre uma família milionária de Nova Iorque e os respetivos jogos de poder, por ser algo demasiado próximo dos traumas da sua família.

“É uma dinastia disfuncional em que as personagens masculinas exibem todas as consequências devastadoras do privilégio que se torna selvagem”, acrescentaram Hakami e Hobbs. “Agora, e pela primeira vez, Casey Hammer vai não só contar a sua história, mas a história definitiva da família, sem deixar nada por contar.” A tia de Armie Hammer já tinha escrito um livro de memórias em 2015, “Surviving My Birthright”, onde contava muitas destas histórias.

Julius, Armand e Julian Hammer

Julius Hammer, o trisavô condenado por homicídio

Julius Hammer, o trisavô de Armie Hammer, era um imigrante russo que se mudou para o bairro do Bronx, em Nova Iorque, nos EUA, no início do século XX. Era médico e foi condenado por homicídio em 1919, após ter feito um aborto à mulher de um diplomata russo, que morreu alguns dias depois do procedimento.

Armand Hammer, o magnata influente do petróleo e da arte

A fortuna milionária da família Hammer, contudo, começa com Armand Hammer, filho de Julius e bisavó de Armie (que na verdade também se chama Armand). Nascido no Bronx, fez os primeiros milhões de dólares ao comprar grandes quantidades de whiskey antes da proibição da venda de álcool nos EUA.

Em 1921, viajou para a Rússia, a pátria dos pais, que estava em pleno processo revolucionário. Acabou por ficar cerca de nove anos na Europa, a negociar peles de animais e outros produtos, a comprar arte do tempo dos czares a preços baratos e a desenvolver uma relação de amizade com Vladimir Lenine. Nas décadas que se seguiram, em que os EUA e a União Soviética se tornaram inimigos e começaram a Guerra Fria, Armand Hammer serviu, muitas vezes, como embaixador não oficial entre os dois países.

Na América continuou a fazer fortuna, sobretudo como negociante de arte, e decidiu mudar de vida aos 58 anos, numa espécie de reforma antecipada, em meados dos anos 50, quando se mudou para a Califórnia. O que fez foi investir em dois poços de petróleo de uma empresa chamada Occidental Petroleum. O objetivo era sobretudo ter benefícios fiscais e não que funcionasse como investimento, mas o petróleo deu tanto dinheiro que só aumentou ainda mais a fortuna milionária dos Hammer. O império crescia e crescia.

Porém, a empresa esteve sempre envolvida em vários tipos de controvérsia. Foi acusada diversas vezes de usar dinheiro para doações ilegais a campanhas políticas, entre outros delitos do género. Ao mesmo tempo, Armand Hammer tornou-se conhecido por doar milhões de dólares para a investigação científica relacionada com o cancro, e foi um mecenas da arte — ainda que, mesmo nessa área, não tenha escapado às polémicas. 

Armand Hammer desistiu de ter a sua coleção no LA County Art Museum depois de a instituição recusar ceder às exigências de Hammer, que desejava que os nomes dos outros doadores fossem retirados, e queria que houvesse um enorme retrato seu, e da sua mulher, em permanente exibição ao lado das obras de arte.

Armand Hammer com o Príncipe Carlos.

Armand Hammer, que também era amigo de figuras como o Príncipe Carlos do Reino Unido ou o ditador líbio Muammar Kadhafi, é descrito pela neta Casey Hammer (a tia de Armie) como o patriarca que controlava tudo na família. “Era como um tabuleiro de xadrez, e ele controlava todos os movimentos”, descreve Casey Hammer.

Pouco antes de morrer, em 1990, Armand tinha prometido a Casey que lhe ia deixar uma parte considerável da fortuna, mas a grande fatia — 180 milhões de dólares (o equivalente a cerca de 150 milhões de euros) — foi para o seu irmão Michael, o pai de Armie.

Julian Hammer, o avô homicida e alegado abusador sexual

Os relatos perturbadores de Casey Hammer têm sobretudo a ver com o pai, Julian, filho de Armand Hammer. Casey lembra-se de ser criança e acordar na véspera de Natal com o som de um tiro. O seu pai estava a segurar uma arma carregada enquanto discutia com a mãe, que mais tarde nesse dia foi espancada (apesar de não ter levado com a bala disparada). No dia seguinte, Natal, comportavam-se como se nada tivesse acontecido enquanto davam os presentes às crianças. Casey Hammer aponta como o ambiente familiar era totalmente disfuncional e tóxico.

Casey diz que o seu pai era um alcoólico viciado em metanfetaminas — e alega que abusou sexualmente dela (e de outros membros da família) de forma violenta ao longo dos anos. No livro que escreveu, recorda como era frequente a mãe acordá-la a meio da noite para fugirem para um hotel e escapar da ira embriagada do pai. “A minha mãe tinha sempre muito medo que ele nos fosse matar”, escreve no livro.

Os problemas não acabaram quando a mãe de Casey decidiu deixar o pai e mudar de cidade — sendo que, na audiência em tribunal pela custódia, Armand Hammer foi implacável e aniquilou verbalmente a mãe de Casey, fazendo com que Julian apenas tivesse de pagar uma pensão de alimentos de cerca de 200 dólares mensais.

Quando vinha passar fins de semana à Califórnia, o que era frequente, Casey dava por si a brincar no quarto enquanto nas divisões ao lado havia orgias e consumo de drogas. Encontrou diversas vezes fotos pornográficas do pai e das suas namoradas, e lembra-se de uma vez ser perseguida pela casa por uma ex-namorada do pai, completamente drogada, que empunhava uma faca.

Além disso, Julian Hammer tinha mesmo cometido um homicídio no passado. Em 1955, na manhã do seu 26.º aniversário, Julian matou um homem na sua casa. O incidente terá sido despoletado por uma dívida de jogo. Julian foi detido na altura, mas as acusações foram mais tarde descartadas.

Michael Hammer tem hoje 65 anos.

O escândalo da galeria de arte — que envolve Michael Hammer, o pai de Armie

Ao contrário dos antepassados, Michael Hammer, o pai de Armie, não tem histórias tão rocambolescas de violência. Contudo, foi o grande herdeiro da fortuna da família, e herdou também a Knoedler Art Gallery, uma das mais famosas galerias de arte de Nova Iorque.

Em 2009, a presidente da galeria, Ann Freedman, abandonou o cargo após as notícias sobre a origem misteriosa de muitas das pinturas que a galeria vendia a colecionadores milionários. Dois anos depois, a galeria colapsou.

Uma investigação do FBI provou que, entre 1994 e 2009, várias pinturas de artistas tão conhecidos como Jackson Pollock, Mark Rothko ou Willem de Kooning, que tinham sido vendidas por milhões de dólares eram, na verdade, cópias. No total, a Knoedler foi acusada de ter vendido de forma intencional 63 pinturas falsas.

Todos os colecionadores prejudicados acabaram por chegar a acordos com os proprietários da galeria, através de compensações monetárias. No único caso que foi a tribunal (e que depois também se resolveu com um acordo), Michael Hammer foi acusado de usar os cartões de crédito da galeria para sustentar o seu estilo de vida de luxo.

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