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“I May Destroy You”: já viu uma das melhores minisséries do último ano?

Michaela Coel, a talentosa atriz e escritora transformou o seu trauma pessoal num dos maiores sucessos internacionais da HBO.
Fixe bem este nome

Aos 31, Michaela Coel era a primeira negra a receber a honra de discursar no célebre MacTaggart Lecture. Transmitida em direto, a atriz subiu ao palanque enquanto o público esperava um discurso formal. Mas, na verdade, Coel deu-lhes uma história poderosa de resiliência, crescimento e revelou um segredo: a violação que sofrera anos antes.

O segredo deixou de o ser, mas esta não seria a última vez que Coel contaria a história. Foi esse episódio traumático que transportou para o seu grande projeto, a minissérie “I May Destroy You”, lançada em 2020 e aclamada como uma das mais brilhantes produções do ano.

Hoje, aos 33 anos, a britânica é descrita por alguns como “o talento de uma geração”, uma voz autêntica entre millenials. A produção — que está disponível na “HBO” — espalhou-se por todas as listas das melhores séries do ano.

“É, resumindo, um feito extraordinário e deslumbrante, sem qualquer nota em falso. Filmada com humor e ideias, talento e personalidade que explodem na perfeição a cada reviravolta”, escreveu o “The Guardian”, que a elegeu como a melhor das melhores de 2020.

Autora de duas séries, a temática não foge muito daquela que ela própria vive no dia a dia, com temas e personagens semi-autobiográficas. Isso significa que é na sua história de vida que se escondem muitos dos segredos dos seus guiões.

A miúda outsider do bairro pobre

Cresceu “entre modernos arranha-céus e becos medievais”, num bairro social londrino. A família Boakye-Collinson era uma das poucas famílias negras no edifício. Era uma zona pobre, um complexo criado em 1977 para acolher muitos sem-abrigo. “A minha casa, da qual tenho muito orgulho”, confessou em 2018.

O facto de ser uma das poucas negras no bairro nunca a incomodou muito. Pelo menos até que alguém deixou um saco com cocó de cão na caixa do correio. “Quem são os inimigos da minha família?”

Foi a pobreza que, curiosamente, a levou ao palco. Já a viver sozinha com a mãe — uma imigrante ganesa que trabalhava nas limpezas enquanto estudava ciências sociais —, acabou por ser inscrita num teatro local que não cobrava nada à participação de crianças nos seus workshops. “Era grátis, mais barato do que pagar a alguém para tomar conta de mim. Aos oito anos inscrevi-me. Era a única pessoa negra na escola.”

Era adolescente quando descobriu o poder da Internet e que podia criar um site completamente anónimo: “A arma mais poderosa que uma miúda de 13 anos podia ter”.

Começou a escrever. Sobre os colegas, sobre a escola, sobre a vida, muitas vezes com palavras duras. Era uma espécie de bully da Internet e, como seria de esperar, a arma acabou por ser usada contra si mesma.

“Era uma nova era: tinha uma faca mais aguçada, uma arma silenciosa com balas ilimitadas, um gatilho anónimo; delicioso. Pelo menos até me ter encontrado do lado errado da arma. Chamaram-me “o côco de labios grandes que fez três broches na semana passada”, contou.

Côco é um insulto usado para descrever quem é negro por fora e branco por dentro. O que viam quando olhavam para a primeira negra na história da escola [a instituição católica onde estudou] que se inscreveu na equipa de danças irlandesas. Mas broches? Fiquei furiosa. A única coisa que soprava era o clarinete”, recordou.

O estatuto de outsider significava que era também o alvo de duras sessões de bullying, fechada numa sala e insultada — de onde só saía quando chegavam as lágrimas.

A raiva era despejada no blogue, de forma dura, por vezes bem-humorada e ocasionalmente autodepreciativa. “Estava-me a cagar para tudo.”

Mais velha, desistiu por duas vezes da universidade, até perceber que era teatro que queria fazer. Aos 23 anos, inscreveu-se num curso de interpretação na Silk Street Theatre, um sítio com muitos talentos e onde os agentes recrutavam ativamente.

Também ali Coel estava em minoria: era a única mulher negra inscrita nos últimos cinco anos. “O diretor da escola referia-se a mim como ‘o elefante na sala’”, recorda.

O golpe de sorte surgiu com “Chewing Gum”, guião que escreveu para um projeto final do curso de teatro. A peça acabou por ser produzida num pequeno teatro londrino, a que se seguiram outros.

A peça era um sucesso: num monólogo, Coel contava a história de Tracey Gordon, a história de uma rapariga de 14 anos. Produtores da FremantleMedia repararam no seu talento e ajudaram-na a vender a história ao Channel 4.

A proposta foi aceite e deu origem a um telefilme. Tracey era agora uma jovem de 24 anos, uma virgem e devota católica que se deixa tentar pelo sexo — também aqui Coel introduz detalhes biográficos, ela que se agarrou à religião antes de se libertar.

Finalmente, o grande hit

“Estava a fazer uma direta a trabalhar no escritório; tinha um episódio para entregar às sete da manhã. Fiz uma pausa e fui beber um copo com um amigo que estava pela zona”, recordou na palestra de 2018. “Só me consciencializei enquanto escrevia a segunda temporada, muitas horas depois. Tive sorte. Deu-me um flashback e percebi que tinha sido violada por estranhos.”

Este é, sem tirar nem pôr, o arranque de “I May Destroy You” e da experiência de Arabella, uma escritora millenial que se fez famosa no Twitter. Mais autobiográfico do que isto seria praticamente impossível.

Esta não foi, contudo, a única experiência de assédio e de abuso que sofreu. Coel revelou também a abordagem de um produtor londrino durante uma festa. “Sabes quanto é que eu te quero foder neste momento?”, terá dito o homem que a atriz recusou nomear. “Virei costas e fui para casa. A pessoa que foi comigo à festa ligou-me mais tarde. Alguém lhe tinha chamado ‘preto’. Era o mesmo homem”, recorda.

A verdade é que Coel reuniu todas estas experiências e transformou-as na sua grande obra. Aos 33 anos, pode orgulhar-se de ter uma minissérie escrita, concebida, realizada e interpretada por si. Não é para todos. Sobretudo se tivermos em conta o sucesso que “I May Destroy You” fez entre críticos.

O papel de Arabella é definitivamente a sua grande e maior presença no ecrã. Passou por várias produções de sucesso, mas sempre com pequenos papéis: fez dois episódios do hit britânico “Top Boy”; teve a honra de dizer três palavras em “Star Wars: Os Últimos Jedi”; e apareceu em dois capítulos de “Black Mirror”.

Arabella é a personagem de Coel em “I May Destroy You”

Esta história poderia ter sido muito diferente, tivesse Coel aceitado a proposta milionária da Netflix. Em 2017, a gigante do streaming terá mesmo oferecido um milhão de euros para ficar com os direitos da minissérie. Coel exigiu uma percentagem dos direitos da produção. Quando recebeu um não, despediu-se

“Pedi cinco por cento e do outro lado da chamada só ouvi silêncio. O executivo disse: ‘Não é assim que fazemos as coisas aqui. Ninguém faz isso, não é um grande problema’. E eu disse que se não era um grande problema, gostaria de ficar com os meus cinco por cento”. Ainda tentou baixar para os 0,5 por cento, sem sucesso. “Eu não estou louca. Isto é que é de loucos”, disse para si no final. Depois veio a “BBC”, que lhe deu total controlo criativo da minissérie — e a “HBO” juntou-se ao projeto.

O público adorou. Os críticos também. Tudo indicava que Coel e “I May Destroy You” seriam a grande sensação da tão ansiada época dos prémios. Mas assim que chegaram as nomeações dos Globos de Ouro, instalou-se a desilusão. Foi descrita como o snub do ano, isto é, a rejeição mais chocante.

Apesar de já ter no bolso um BAFTA pela interpretação na série televisiva de “Chewing Gum” que sucedeu o telefilme, Coel ambicionava mais. Teve que se contentar com a nomeação para melhor interpretação numa minissérie nos Screen Actors Guild, onde vai competir com Cate Blanchett, Nicole Kidman, Anya Taylor-Joy e Kerry Washington.

Mesmo com a ausência nos Globos, todos sabem que não será a última vez que ouvimos falar de Michaela Coel — a mulher que entrou à força na lista dos 100 mais influentes de 2020 da “Time” e na das mulheres influentes do ano na “Vogue Britânica”. E o derradeiro argumento está disponível para que todos o vejam: os 12 episódios de “I May Destroy You”, disponíveis na “HBO Portugal”.

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