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Imperdível: “Andor” é a melhor versão de “Star Wars” desde a trilogia original

A série chegou à Disney+ a 21 de setembro e serve de prequela a "Rogue One" e a uma das suas personagens principais, Cassian Andor.
É uma das séries do ano

Cassian Andor. O nome tornou-se familiar em 2016, com a chegada aos cinemas de “Rogue One”, o filme que nos libertava das trilogias de “Star Wars” que, aos solavancos, iam tentando recapturar a magia dos filmes originais.

Diego Luna assumia então o papel do rebelde que conduziria a missão de roubar os planos detalhados da grande arma do Império, a Estrela da Morte. A sequência de eventos que daria origem ao arranque da trilogia original de George Lucas.

Se então conhecemos o experiente rebelde, os responsáveis pela saga decidiram que a sua história teria material suficiente para dar origem a uma série original. Será que dá? Será que não é mais uma ficha para o debitar aparentemente infindável de material “Star Wars”? Definitivamente que não.

“Andor”, a série que chegou à Disney+ a 21 de setembro, não serve apenas de biografia de Cassian Andor, uma personalidade importante, mas aparentemente secundária no grande quadro geral da saga. Serve também como uma visão à lupa de como as duas grandes forças em confronto na trilogia original se formaram. O retrato de um Império ainda a desenhar os primeiros traços opressivos e o de uma Rebelião embrionária, ainda à procura dos motivos para a sua existência.

Se existia um medo real de saturação — sobretudo na senda do sucesso de “The Mandalorian”, imediatamente sucedido por “The Book of Boba Fett” e “Obi Wan Kenobi” —, ele desaparece ao fim dos primeiros minutos absorventes e maduros de “Andor”.

Maduro é, porventura, a palavra-chave desta viagem a um mundo de “Star Wars” onde os militares do Império se amedrontam e acobardam, onde os heróis rebeldes também matam a sangue frio e ameaçam jovens, velhos e crianças. É uma galáxia verdadeiramente tenebrosa, sem jedis e siths, mas povoada de pessoas reais.

Pode parecer um paradoxo que o grande elogio que se possa fazer a um novo retrato de “Star Wars” é precisamente o de se assemelhar ao nosso mundo, apenas com novas tecnologias. É um mundo onde heróis morrem simplesmente porque não sabem nadar. Onde personagens sofrem de ataques cardíacos. Não há caminhos fáceis, reviravoltas espetaculares, atalhos narrativos.

É também palco de alguns dos diálogos e monólogos mais refrescantes, originais e inspiradores de toda a saga. A explicação poderá estar no lote sólido de argumentistas escolhidos para cuidar de “Andor”. Aqueles que são, até ao momento, os episódios mais fortes da série — faltam serem lançados os dois capítulos finais —, ficaram a cargo da escrita de Beau Willimon, nada mais nada menos do que o responsável por “House of Cards”. Temos também Tony Gilroy, o showrunner que assinou “Rogue One” e os filmes da saga Bourne, e o seu irmão, Dan Gilroy, autor, por exemplo, de “Nightcrawler”.

Em “Andor” viajamos até ao pequeno mundo de Cassian Andor. A viver de biscate em biscate, deve dinheiro a meia galáxia e vive obcecado pelo encontro com a irmã. Aos poucos, o passado misterioso de Cassian vai sendo destapado, à medida que se vai rapidamente construindo uma nova visão do mundo de “Star Wars”.

A história desenvolve-se em dois pontos: nos planetas limítrofes onde a mão impiedosa do Império se vai fazendo sentir; e em Coruscant, a capital onde Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) vai ensaiando e trilhando o seu papel como futura líder da Rebelião. Há ainda lugar para um sublime Stellan Skarsgard, no papel de Luthen Rael, um indivíduo misterioso que vive apenas para fazer crescer a Resistência.

Como prequela de um filme e de toda uma saga, sabemos já para onde vai rumar o plano geral das coisas. No plano individual, também o sabemos: Cassian Andor irá morrer na missão suicida que permite aos rebeldes aniquilarem a Estrela da Morte. Mas é desta aparente fraqueza que a série acaba por retirar as suas forças.

É em torno do arco de Cassian Andor que vamos gravitando, enquanto uma sucessão de eventos o fazem passar de vigarista pragmático a rebelde idealista. Mas nada acontece de forma gratuita. Tudo isto está assente num lote de personagens bem construídas, num mundo desenhado ao milímetro, com um realismo que não existe nas trilogias.

“Andor” toma o seu tempo. Nunca se apressa. É mais madura, menos idealista. Destrói alguns mitos e faz desvanecer muita da magia infantil que fez de “Star Wars” aquilo que é hoje. A verdade é que os fãs cresceram e talvez esteja aí o segredo que explica as críticas acirradas dos fãs mais fiéis aos capítulos modernos do mundo criado por George Lucas.

E se mesmo assim, ainda há alguém pouco convencido de que “Andor” poderá ser o tão esperado passo em frente de “Star Wars”, vejam-no nem que seja pelos deliciosos discursos de Stellan Skarsgard.

nota NiT: 88%

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