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A influencer que é craque do xadrez — e a Beth Harmon dos nossos tempos

Aos oito anos já vencia adultos nos bancos de jardim. Hoje joga online enquanto milhares assistem.
Milhares assistem em direto aos seus jogos

Começou tudo com uma aposta. Alexandra Botez tinha seis anos quando o pai apostou com a mãe, jogadora de xadrez amadora, que a ensinaria a jogar — e que a conseguiria derrotar. Ensinou-lhe o nome das peças, as regras e ao fim de duas semanas, Botez cumpriu o prometido.

Aos oito, o pai levava-a até aos jardins para competir com estranhos. “Eles abriam espaço para eu jogar, mas ficavam incomodados”, recorda ao “New York Post”. Mais irritados ficavam quando a miúda acabava por vencer as partidas.

Aos 25 anos, Botez tem bilhete de identidade norte-americano — nasceu em Dallas, no Texas —, mas vive no Canadá, para onde se mudou com os pais, imigrantes romenos. Além do jeito para o xadrez, é também elogiada pela beleza e pela enorme legião de fãs que a seguem, o que já lhe valeu uma série de comparações com a protagonista de “Gambito de Dama”, Beth Harmon.

Tinha 15 anos quando venceu o campeonato nacional norte-americano de xadrez feminino para menores de 18 anos. Ao todo, conquistou seis títulos nacionais, bem como um título internacional, o FIDE Master Feminino da International Chess Federation.

Frenquentou a prestigiada Universidade de Stanford, na Califórnia, onde se licenciou em relações internacionais. Mas, talvez mais importante, tornou-se na primeira presidente feminina do clube de xadrez da universidade.

Botez é também uma empreendedora. Foi co-fundadora de uma startup de inteligência artificial e é, ainda hoje, uma estrela no Twitch, a plataforma de streaming onde acumulou mais de meio milhão de fãs que assistem às suas partidas de xadrez em direto. Mais tarde mudou-se para Nova Iorque onde também produziu vídeos em direto e conteúdos para o site Chess.com.

Jáa venceu seis títulos nacionais

Uma verdadeira influencer do xadrez, Botez revela que o número de seguidores disparou assim que a produção original da Netflix estreou e se espalhou pelo mundo. “O xadrez explodiu no Twitch e tornei-me numa das maiores streamers. Lembro-me de toda a excitação, nem conseguia dormir com tanta adrenalina”, conta.

Apesar da personagem principal da série e Botez terem histórias muito distintas, a jogadora de 25 anos reconhece que “Gambito de Dama” acertou em cheio em dois aspetos: a obsessão que o jogo cria nos apaixonados; e a discriminação sexual que existe nos meios amadores e sobretudo profissionais.

“A Beth está completamente envolvida no mundo do xadrez, parece que nada existe além dos jogos, dos treinos e da comunidade. Nesse aspeto, é um retrato extremamente fiel”, afirma.

Quanto ao sexismo, Botez reconhece que também já foi vítima. “Por vezes, até as pessoas que nos são mais próximas pensam que as mulheres são geneticamente inferiores aos homens no que toca ao xadrez. Ouço constantemente comentários como ‘Estás a jogar contra uma rapariga, é uma vitória fácil’”, conta.

Noutro aspeto, a série falha redondamente. “[Na história, os homens eram extremamente encorajadores e compreensivos quando ela ganhava. Se lerem histórias reais de mulheres que jogavam naquela época, há relatos de adversários que nem sequer as cumprimentavam ou olhavam para elas”, frisa.

Apesar das semelhanças e diferenças, Alexandra Botez está surpreendida com a revolução que a série provocou no mundo do xadrez, sobretudo na realidade dos mais novos jogadores como ela. “É uma loucura o que avançou no conhecimento do xadrez da pessoa comum. Nunca imaginei que algo como isto pudesse acontecer, até porque foi sempre um desporto de nicho.”

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