Televisão

“Um insulto para a televisão.” A nova série da Netflix está sob fogo

Nos anos 70, "Good Times" foi um marco para a comunidade afroamericana. Agora, um reboot animado parece querer manchar essa história.
Está de volta, mas nem todos estão contentes.

A inclusividade e diversidade na televisão nunca foi tão grande, de “Black-Ish” a “O Príncipe de Bel-Air”, de “Martin” a “Todos Contra o Chris”, há muitos exemplos de uma indústria mais aberta a novas personagens. Mas essa abertura só foi possível graças a “Good Times”, uma das maiores sitcoms dos anos 70, que teve direito a seis temporadas e serviu como uma espécie de pé na porta para a comunidade negra e afroamericana. 

E ao bom estilo da indústria, a série regressa agora, mas desta vez em formato de animação. O fenómeno estreou na Netflix eesta sexta-feira, 12 de abril. A receção não foi a esperada: assim que o primeiro trailer foi divulgado a 27 de março, começaram a chover críticas. Não por parte da direita conservadora norte-americana, mas sim da própria comunidade negra que não se sentiu representada. 

Acusam a produção de assentar em “estereótipos”. Uma frustração espelhada num artigo de opinião publicado no “Daily News”. O título? “O reboot em desenhos animados de ‘Good Times’ é um insulto para a televisão — e para a sitcom original.”

“O maior insulto é o facto de os produtores, entre os quais encontramos o jogador de basquetebol Stephen Curry, terem associado um clássico da televisão a este lixo. Para aqueles que não se conseguem identificar com a nossa posição, imaginem o que sentiriam se um grupo de pessoas sem talento arruinasse por completo ‘Seinfeld’ ou ‘O Sexo e a Cidade’. ‘Good Times’ significa muito para as pessoas negras”, escreveu o jornalista Leonard Greene.

O “The Hollywood Reporter” também não ficou convencido com a abordagem da Netflix. “O primeiro episódio desta nova versão é muito desagradável e, apesar das referências quase ininterruptas à série original, são apresenta nenhum do charme e calor que definiram ‘Good Times'”, lê-se na crítica do jornal.

Embora pareça que o reboot não o vá fazer, a série original moldou milhões de espectadores, entre os quais a showrunner e produtora Ranada Shepard. Foi um marco tão grande na sua vida que quando foi convidada para trabalhar na obra, aceitou de imediato a proposta. “Quando a Sony disse ‘Good Times’ e Norman Lear, disse logo que sim”, conta à Netflix.

Norman é outra das grandes inspirações da cineasta, autor de outros fenómenos como “The Jeffersons”, “Maude”, “Sanford and Son” e “Uma Família às Direitas”. Além de ter sido um dos criadores do novo “Good Times”, aparece no oitavo episódio da primeira temporada — que marcou o seu último papel de sempre, antes da sua morte em dezembro de 2023, com 101 anos.

“Ele confiou em mim como showrunner, criativa, guionista e até como visionária para pegar num produto que ele já tinha produzido anteriormente e viu-me a levar a série para outras dimensões. Ele aparecia nas nossas reuniões e nas nossas leituras dos argumentos. Teve realmente um grande impacto em nós.”

A série fala “sobre uma família negra que se junta, que se ri e que sobrevive ao sistema no sul de Chicago”, explica Ranada à Netflix. “Os espectadores vão ver muitos comentários sociais, vamos ultrapassar os limites impostos, vamos criar momentos enternecedores e vamos ter muitas situações ao estilo de ‘Os Simpsons’, ‘South Park’ e ‘Family Guy’.” Um bebé que trafica droga, uma das personagens da família, é algo que só poderia sair da cabeça de alguém como Seth MacFarlane — e faz sentido, visto que ele também é um dos produtores.

O porquê do fenómeno ser agora um desenho animado é bastante simples: “Conseguimos criar um novo mundo mais facilmente”. Afinal, são muitos menos os limites criativos impostos pela animação.

Na série original, Florida, interpretada por Esther Rolle, falava aos céus e fazia pedidos a Deus. No reboot, esta figura tão importante para os católicos é também uma das personagens da narrativa. “A dinâmica familiar vai continuar a ser muito realista, mas a animação ofereceu-nos uma oportunidade para entrarmos num território mais experimental”, reflete a cineasta.

Esta abordagem também foi uma forma de reavivar a nostalgia da série dos anos 70, que acontecia sobretudo dentro do apartamento 17C, tal como a nova versão. “Também mostramos a mesma família, mas três gerações mais tarde”, nota.

A representação continua a ser o grande foco de todos aqueles que participaram no reboot. Embora sejam todas da mesma família, as personagens têm tons de pele diferentes — o que também acontece na vida real. “Isto foi extremamente importante para mim”, reforça a showrunner.

Independentemente das origens e da cor da pele, esta é uma das séries “todos podem e vão gostar de ver”. Cada episódio tem um tema diferente “que se aplica a toda a gente”. Conversas sinceras e hilariantes sobre eleições, períodos, pobreza, empoderamento feminino, preconceitos e tecnologia são alguns dos exemplos. “Esta é uma conversa universal que todos podemos ter com esta linda família que entra nas nossas casas. E enquanto abordamos estes tópicos mais sensíveis, estamo-nos a rir”, conclui.

Ao longo dos episódios vai poder ouvir as vozes de atores veteranos como Wanda Sykes, J.B. Smooves e Yvette Nicole Brown e a de novos talentos tais como Marsai Martin e Jessica Mikayla.

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