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Ivo Alexandre: “Participar em Vikings foi uma oportunidade única, uma experiência incrível”

O ator português entra nos últimos episódios da série e contou à NiT como tudo aconteceu.
Ivo Alexandre tem 43 anos.

O princípio do fim de “Vikings” chegou a Portugal a 13 de janeiro. A segunda metade da sexta e última temporada estreou no TVCine Action. Os últimos episódios, além de concluírem esta saga épica, poderão suscitar particularmente a curiosidade dos fãs portugueses.

Depois de Albano Jerónimo, há outro ator nacional a participar na série. Falamos de Ivo Alexandre, de 43 anos, que interpreta uma figura histórica real, o bispo Leon. Foi nomeado o primeiro arcebispo de Kiev, numa altura em que a região tinha sido cristianizada há muito pouco tempo.

A primeira parte da temporada terminou com uma batalha épica entre Vikings e os Rus (povo que está na origem dos territórios do leste da Europa, como a Rússia e Ucrânia). Em confronto estão os irmãos Bjorn Ironside (Alexander Ludwig), pela proteção das suas terras ao lado do Rei Harald (Peter Franzén), e Ivar the Boneless (Alex Høgh Andersen), do lado das força russas que tentam dominar a Noruega. 

Depois de ter participado em projetos como “Lua Vermelha”, “Coração D’Ouro”, “Os Nossos Dias” ou “Belmonte” — entre outros, como os filmes “São Jorge”, “Snu” e “Ruth” — Ivo Alexandre chegou a esta grande produção internacional através do Passaporte, programa promovido pela diretora de castings Patrícia Vasconcelos e pela Academia Portuguesa de Cinema, que junta atores nacionais a diretores de casting das grandes produções estrangeiras.

Ivo Alexandre vai participar em dois episódios — que já foram gravados no verão de 2018. A boa notícia para os fãs de “Vikings” é que este universo poderá não ficar por aqui. A Netflix anunciou em 2019 que irá produzir um spinoff cuja história se irá passar cerca de 100 anos depois dos acontecimentos da série original.

Como foi esta experiência, de participar numa produção internacional de grande escala como esta?
Foi uma experiência incrível, uma oportunidade única de trabalhar com realizadores e atores fantásticos, uma equipa incansável e que estava sempre presente para nós. São notórias algumas pequenas grandes diferenças em termos do que é uma produção com esta escala. Porque são produções com um orçamento muito maior do que o que se faz cá em Portugal. Mas também dá para perceber que, mesmo com o pouco que conseguimos ter, também conseguimos fazer coisas muito interessantes. É evidente que em termos de décor, da capacidade de termos 200 figurantes, de repente sentimos que estamos mesmo naquele espaço. A capacidade do ator de imaginar é imensa, como toda a gente sabe, mas é lógico que quando o ator chega a um décor daqueles, está o trabalho facilitado, porque de facto está lá tudo — todos os pormenores de época.

E isso deve ajudar a entrar na personagem e no espírito da série. Quando é que aconteceu a audição e, depois, as gravações?
Eu participo no programa Passaporte desde a primeira edição. O Frank Moiselle foi um dos diretores de casting que conheci e, pronto, houve uma empatia bastante grande. Ele manifestou logo interesse por aquilo que tinha visto no meu trabalho. É evidente que lá no fundo temos sempre alguma esperança que possa surgir alguma oportunidade, mas como era a primeira edição nem sequer sabíamos o que ia acontecer ou não. Mas percebi que o Frank tinha gostado do meu showreel, tinha apreciado o meu trabalho. Agora, se ia concretizar-se ou não, eu não sabia. Mas quando apareceu uma oportunidade o Frank propôs-me e eu fiz o casting e escolheram-me. Desde que conheci o Frank demoraram seguramente três anos, antes disso o Albano ainda fez a participação na série. E no verão de 2018 filmei a minha participação.

Quanto tempo duraram as gravações?
Estive lá sensivelmente duas semanas — foram semanas diferentes — na Irlanda. Foi a 60 quilómetros a sul de Dublin, numa cidade que é Wicklow, onde têm os estúdios. Gravámos em estúdio e em exteriores por ali.

Antes de surgir o casting, já conhecia e acompanhava a série?
Sim, conhecia, não estava propriamente atualizado nem a seguir propriamente a série, mas já tinha visto uma ou duas temporadas. É um tipo de série que sempre me agradou, por ser uma série de época e, neste caso, com bastantes referências históricas, incluindo a personagem que fui fazer, o bispo Leon. Foi um desafio que me deu muito gozo.

Qual foi a preparação específica que teve de fazer para o papel?
Tinha um coach para me ajudar com o grego antigo, que tinha que falar. E a minha participação tem muito a ver com essa questão de o bispo ser católico ortodoxo e de vir em procissão até à cidade. Teria que falar, obrigatoriamente, em grego antigo — e também em inglês. Nesse aspeto tive esse apoio do professor de grego, que foi uma ajuda incrível — e por acaso gostaria até de ter tido mais tempo para poder aprender, achei muito interessante, mas terá que ficar para uma outra oportunidade. 

O que é que o surpreendeu mais quando chegou aos estúdios na Irlanda?
Talvez a dimensão, porque de facto é inacreditável. Normalmente em Portugal temos uma zona de guarda-roupa, uma de maquilhagem e cabelos, e lá, não sei se estou a exagerar, mas são 10 ou 20 salas de apoio para maquilhagem e cabelos. É tudo enorme. E o pormenor do guarda-roupa, em termos de figuração, é inacreditável. Também vem do facto de haver um orçamento muito grande, para se fazer tudo de acordo. Nós estamos ali com 200 pessoas e cada figurino tem todos os detalhes, não é uma coisa mais ou menos. Quando estamos a passar por um sítio onde temos os habitantes da aldeia, que podem estar a vender animais vivos ou artesanato, ou a cozinhar qualquer coisa, e estamos ali na cena e sentimos o cheiro porque está mesmo a fogueira ali a arder e a preparar qualquer coisa. Quando digo que nos facilita o trabalho, é mesmo nesse sentido. De repente estamos mesmo naquele sítio e isso é engraçado, esse tipo de rigor.

De que é que gostou mais nesta personagem?
É muito interessante. Tecnicamente, era aquilo que estava a dizer — exigia de mim a capacidade de falar grego antigo, além do inglês. A personagem, de certa forma, poderá despoletar uma pequena mudança na forma de pensar do Oleg, e depois há alguns momentos de tensão com a personagem do Ivar. 

Passaram dois anos e meio desde as gravações, está ansioso para poder ver as suas cenas na televisão?
Acima de tudo estou curioso para ver o que é que resulta deste trabalho, daquilo que poderei ter conseguido ou não com a personagem — como eu disse, há este lado de ser o bispo católico ortodoxo, e é extremamente fervoroso em relação à religião. Foi também aliciante na construção da personagem, e tenho curiosidade para perceber até onde é que consegui levar isso. 

Desde as gravações de “Vikings”, tem feito mais castings ou participado em mais projetos internacionais?
Já fiz bastantes self-tapes, que agora é algo mais recorrente, e o Passaporte tem vindo a abrir possibilidades para muitos atores — e muitos estão a concretizar. Temos conseguido, aos poucos, uns mais e outros menos, mas é como em tudo. Acho é que cada vez mais vai haver espaço para os atores. Isso era uma coisa que se calhar quando comecei a trabalhar era um bocadinho mais distante, em termos do que é que poderia ser um ator português no mercado internacional. E hoje em dia percebemos que qualquer miúdo, qualquer atriz ou ator que saia de uma escola neste momento, é legítimo que pense que pode “facilmente”, um ano ou dois a seguir, pode achar que pode acontecer. Porque não? O mercado já não está assim tão longe de nós. E com as self-tapes tudo é muito mais fácil. Tenho feito algumas participações. Fiz no ano que passou o “L’Enfant”, produção do Paulo Branco de dois jovens realizadores franceses, que também me deu muito gozo. Participei também no “Fátima”, do Marco Pontecorvo. 

E suponho que, depois desta experiência em “Vikings”, a sua ideia se calhar também passe por participar em mais projetos lá fora e de maior dimensão.
Sempre que haja oportunidade, claro que sim. Nós atores, e penso que é geral, andamos sempre à procura de desafios cada vez maiores. E é lógico que este tipo de produções nos enriquece de uma maneira inacreditável, pelo facto de falarmos noutras línguas, ou só por sermos os únicos portugueses ali e estamos a dar-nos com uma série de atores e técnicos e toda aquela equipa de várias nacionalidades. E aquilo que também ganhamos em termos do que é a conversa em bastidores: lembro-me perfeitamente que na altura ia começar a fazer uma encenação de “O Misantropo”, do Molière, e nos intervalos falávamos várias vezes sobre isso. Este tipo de troca de experiências entre atores é muito interessante e importante e também é algo que retiramos deste tipo de experiências, que são únicas. 

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