O brilho, os lantejoulas e os refrões pop escondem uma história bem mais dura do que muitos imaginavam. No novo documentário “Kylie”, que estreou esta quarta-feira, 20 de maio, na Netflix, Kylie Minogue revela que foi diagnosticada com cancro pela segunda vez em 2021 e que decidiu enfrentar tudo em silêncio.
A série documental tem três episódios e percorre várias fases da vida e carreira da cantora, desde os tempos em que foi atriz na década de 80 na série australiana “Neighbours” até à transformação numa das maiores estrelas pop das últimas décadas. Pelo meio, Kylie fala sobre a pressão mediática, relações amorosas, inseguranças e os momentos mais difíceis da vida pessoal.
“O meu segundo diagnóstico de cancro foi no início de 2021. Consegui manter isso em segredo”, conta a cantora no documentário. “Felizmente, superei. De novo. E está tudo bem.” A artista australiana, atualmente com 57 anos, já tinha enfrentado um cancro da mama em 2005, quando foi obrigada a cancelar a digressão “Showgirl”. Desta vez, decidiu não tornar pública a situação enquanto atravessava os tratamentos.
“Não me sentia obrigada a contar ao mundo. Na altura, eu era apenas uma sombra de mim mesma”, admite no documentário. Kylie revela ainda que houve momentos em que ponderou falar sobre o assunto durante a promoção de “Padam Padam”, em 2023, mas nunca conseguiu fazê-lo.
Segundo a cantora, a música “Story”, incluída no álbum “Tension” (2023), acabou por funcionar como uma forma indireta de lidar com esse período mais sombrio. “Só queria contar o que aconteceu para conseguir libertar-me disto”, explica.
Além do tema da doença, “Kylie” mergulha também na ascensão meteórica da artista nos anos 80 e 90, mostrando como passou de atriz de novelas australianas a fenómeno global da pop. O documentário inclui imagens raras do arquivo pessoal da cantora, entrevistas com Dannii Minogue, Jason Donovan e Nick Cave, além de bastidores nunca antes mostrados.
No “The Guardian”, a documentário é descrito como “um encontro cru e emocionante com a realeza pop”, destacando sobretudo a revelação sobre o segundo cancro como “um dos momentos mais reais e devastadores já vistos num documentário deste género”.
Já a “Variety” elogia a honestidade da cantora e a forma como o projeto evita transformar-se numa homenagem superficial. A revista escreve que Kylie surge “surpreendentemente aberta sobre o luto, a pressão mediática e a necessidade constante de reinvenção”.
Uma leitura semelhante surge na “Elle”, que considera a produção “refrescante precisamente por parecer autêntica”, sublinhando que a cantora deu liberdade total à equipa criativa e praticamente não interferiu na edição final.
O documentário recupera ainda momentos mais duros da carreira, incluindo os anos em que a imprensa britânica a tratava como “a periquita cantora” e colocava constantemente em causa o talento da artista. “Estou orgulhosa da Kylie mais nova”, afirma a cantora numa das entrevistas. “Quando toda a gente dizia que eu não conseguia, eu continuei.”
Também há espaço para recordar relações importantes, como o namoro com Michael Hutchence, vocalista dos INXS, que Kylie descreve como “uma pessoa hilariante, culta e extremamente carinhosa”. Nick Cave, com quem gravou “Where the Wild Roses Grow”, aparece igualmente como uma das figuras mais importantes da transformação artística da cantora.
No fundo, “Kylie” acaba por funcionar menos como uma celebração pop tradicional e mais como o retrato de alguém que passou décadas a sobreviver à fama, à pressão e à doença sem nunca perder a vontade de continuar em palco.
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