Televisão

Jacob Elordi: o menino bonito de “Euphoria” que só quer ser levado a sério

Deu-se a conhecer em "The Kissing Booth" e por pouco não desistiu da carreira. Agora é cara da Calvin Klein e sonha ser argumentista.
Ele continua a dar nas vistas

É um dos novos meninos queridos da televisão e não surpreende, portanto, que seja cobiça de capa de várias revistas. O que ninguém esperava é que Jacob Elordi surpreendesse de brincos e de top curto na capa da “Man About Town”. Afinal, ele é o homem que interpreta Nathan Jacobs em “Euphoria”, o desportista homofóbico que luta com a sua própria sexualidade.

Aos 23 anos, é o caso exemplar de mais um talento formado nas comédias românticas para adolescentes que começa a crescer e a tornar-se num caso sério. É também mais um caso de um australiano que emigra para fazer sucesso nos Estados Unidos. Mas nem sempre essa ascensão foi fácil.

Tem pinta de galã e, graças à mais recente capa, a dose suficiente de loucura, risco e irreverência para dar nas vistas. Nada que não fizesse desde miúdo, quando vestir-se de mulher ou de outra coisa qualquer era um veículo de criatividade.

“A minha mãe tem vídeos meus de cabeleira ruiva aos caracóis, batom vermelho nos lábios e com a carteira da minha irmã ao ombro. Não me lembro de não gostar ou sequer de resistir”, revelou à “W Magazine”

Confessa que era “uma criança dramática” que, querendo, tornava qualquer situação “dez vezes mais intensa”. “Exigia toda a tenção dos meus pais, dos meus amigos e de quem estava à minha volta. Tinha 12 anos quando comecei a fazer musicais. Entrei no ‘Charlie and the Chocolate Factory’ e no ‘Seussical’. A partir daí tive aulas de interpretação, de tal forma que quando cheguei aos 15, já não tinha grandes alternativas”, recorda

No quarto guardava uma foto do seu herói Ben Affleck, ao lado de Matt Damon, ambos no filme “Good Will Hunting”. Hoje, menos de dez anos depois, contracena com Affleck em “Deep Water”, numa produção que está prevista para 2022. Tudo graças ao papel que conquistou num romance teen da Netflix.

Ao fim de duas curtas e de um papel pequeno num filme australiano — e de uma presença como extra no set de “Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias” —, foi escolhido para ser protagonista da comédia romântica “The Kissing Booth”.

Deveria transformar-se em Noah, o tipo jeitoso da escola, com o seu respetivo casaco de cabedal e mota barulhenta. Do outro lado estava Elle, interpretada por Joey King, que haveria de formar par com Elordi, dentro e fora do set.

O convite da Netflix era a abertura de portas que o australiano desejava, mas mesmo assim hesitou. “Sou um purista e adoro o cinema, por isso debati-me com uma espécie de batalha moral. ‘O que é que estou a apoiar e a incentivar? Vou ser uma das faces desta nova e assustadora era robótica? Estarei a ajudar a matar aquilo que amo?’. Mas também tinha a mentalidade de que iria fazer toda a merda que fosse preciso para ir para os Estados Unidos e fazer aquilo com que sonhava.”

Cedeu ao convite e a decisão foi mais do que acertada. A comédia romântica tornou-se num êxito improvável, até para os responsáveis da Netflix. Ted Sarandos, o diretor de conteúdos da plataforma, chegou mesmo a falar publicamente sobre “a incrível popularidade” de “The Kissing Booth”. “Foi um dos filmes mais vistos nos Estados Unidos e no mundo [em 2018].”

Chegar aos Estados Unidos e fazer um home run — ou um hat trick, vá — à primeira tentativa é algo improvável. A base de fãs explodiu, sobretudo nas redes sociais, e Elordi acreditou que tinha chegado a Los Angeles para ficar. Os meses que se seguiram não foram bem o que ele imaginava.

Os convites que foram chegando eram quase sempre para o mesmo papel: o do menino bonito do liceu. Sem interesse, esperou pela oportunidade certa. Só que Elordi não estava propriamente a nadar em dinheiro.

“O ‘The Kissing Booth’ foi um dos meus primeiros filmes e o dinheiro, em Los Angeles, esgota-se muito rapidamente. Os meus pais ajudavam-me e certificavam-se que tinha dinheiro para comer. Tive a ajuda de muitos amigos, tive muita sorte, nunca estive no fundo, mas em termos de América, acreditava que a experiência já tinha terminado.”

Elordi em “the Kissing Booth”

Há um ano na Califórnia, já sem dinheiro e sem trabalho, chegou mesmo a não ter onde dormir. Acabou a dormir no carro e nos sofás de amigos. A duas semanas do fim do seu visto de permanência, preparava-se já para desistir do sonho e voltar à sua casa em Brisbane, na Austrália.

Havia tempo para uma última audição. O objetivo era ambicioso: tratava-se de uma série da prestigiada “HBO”, um drama, escrito e realizado por Sam Levinson. “Sabia, desde o momento em que fiz a audição, que seria algo de bom, porque a escrita do Sam é impressionante. Não sabia se as pessoas iriam gostar, mas sabia que era algo em que queria participar.” O último golpe de sorte materializou-se e Elordi conseguiu, pelo menos, adiar o fim do sonho.

Durante esse ano, a vida de Elordi era uma espécie de paradoxo. Se, por um lado, não encontrava trabalho e tinha o seu futuro como ator em risco, por outro era constantemente assediado pelos milhões de fãs que se apaixonaram pelo seu papel em “The Kissing Booth”. O ator não lidou muito bem com isso.

Profissional que é, preparou-se devidamente para o papel de galã. Atirou-se ao ginásio — ele que, como bom australiano, é viciado em surf e na boa forma — e esculpiu um físico e um six pack invejável. “Treinei de forma intensiva para o primeiro filme, isto porque era o que indicava o guião. Estava com tantos nervos de não ser aquilo que o guião exigia de mim”, revela à “Men’s Health”.

O esforço acabou por compensar — e por ter o efeito perverso de desviar as atenções das capacidades de interpretação para a capacidade de fletir os bíceps. Foi tudo uma enorme desilusão.

“Era muito novo e fui atirado para um mundo onde só se falava do meu corpo. Ficava mesmo lixado. Não me identifico nada com isso. Queria provar que podia ser bom ator, queria ser conhecido por isso. Tive tanto trabalho e odiei cada segundo.”

Na campanha de roupa interior da Calvin Klein

Durante os meses que se seguiram à estreia do filme, Elordi tinha dificuldades até para sair de casa. “Nada contra, mas sinto que já fiz a minha parte e seria difícil para mim voltar a ser feliz neste tipo de filmes. Estou mais velho, começo a parecer mais velho, portanto continuar a voltar ao liceu é algo cansativo.”

Se soubesse, morderia a língua. Em 2020 voltaria para participar na sequela de “The Kissing Booth” — e faz parte do elenco do terceiro filme da saga, previsto para 2021 — e, curiosamente, voltaria ao liceu no papel da série da “HBO” que o ajudaria finalmente a estabelecer-se com sucesso nos Estados Unidos.

Para Elordi, no seu mundo ideal, poderia fazer cinema sem que ninguém o reconhecesse. “Estaríamos numa bolha onde ninguém sabe quem é o ator. Podem adorar o filme, mas teriam dificuldade em reconhecer a face do ator. Seria muito fixe.” Infelizmente, isso não é possível. E, tendo em conta o capítulo seguinte da história do ator, ainda bem.

Apesar de voltar ao papel de atleta do liceu, a personagem não era uma caricatura a preto e branco. No papel de Nate Jacobs, assumia as rédeas de um jovem com uma personalidade instável, inseguro, zangado, homofóbico, complexo.

“Euphoria” levava-o de volta ao cenário teen, mas num tom mais sério. Com Zendaya no papel principal, contava a história de um grupo de amigos adolescentes a braços com todos os problemas reais que a maioria das séries não conta.

“Secretamente desejava que algumas pessoas começassem a não gostar de mim. Estava excitadíssimo com a possibilidade de deixar para trás tudo o que achavam de mim”, revelou à “GQ”

Foi para fazer séries como “Euphoria” que viajou para Hollywood, explica o ator. Naturalmente, o destaque levou a que muitos se focassem noutros temas para lá da sua performance. Surgiram os rumores de uma relação com a protagonista, Zendaya, que o ator negou. É, aliás, namorado de outro nome famoso, Kaia Gerber, a igualmente bela e talentosa filha de Cindy Crawford — que a NiT apresentou neste artigo.

Elordi em “Euphoria” como Nate Jacobs

Polémica e rumores à parte, o êxito da “HBO” deu-lhe acesso a outras oportunidades pelas quais ansiava. “Pôs-me no radar, mostrou que eu sabia interpretar e permitiu-me sentar ao lado de todos estes tipos que admiro. Podia ter conversas criativas e adultas com pessoas que pensavam como eu.”

A preparar o regresso a “The Kissing Booth”, sabe-se que voltará também para uma segunda temporada de “Euphoria”. Mas, pelo caminho, há outro projeto que o leva a um novo patamar: faz parte do elenco de “Deep Water”, onde será o interesse amoroso de Ana de Armas e onde irá contracenar também com o seu herói Ben Affleck.

Aos 23 anos, Elordi já sonha com a próxima etapa. O ator que devora livros de Jean-Paul Sartre — e que descreve a série de Mark Ruffallo “I Know This Much Is True” como “a coisa mais perfeita que alguém já fez” — também quer ser argumentista. É, aliás, o que tem feito nos tempos livres impostos pelo confinamento.

Por enquanto, tem no currículo de escritor apenas uma curta metragem, “Max & Iosefa”, lançada em 2016. Mas promete mais.

“Não diria que tenho uma mente relaxada. Sou super irrequieto e por isso invento coisas para fazer .Neste momento estou a trabalhar num argumento, uma história que se passa na Austrália e já vou no segundo rascunho.”

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