Televisão

Joana Ribeiro: “É uma série sobre o que faz de nós humanos e não tanto sobre aliens”

A atriz interpreta uma agente da CIA de origem portuguesa na nova produção internacional, “The Man Who Fell To Earth”.
Joana Ribeiro é Lisa Dominguez na série.

Joana Ribeiro é uma das atrizes da adaptação televisiva de “The Man Who Fell To Earth” — história de ficção científica criada pelo autor Walter Tevis em 1963 e que também deu origem a um filme protagonizado por David Bowie em 1976.

A 4 de maio, a série estreou na HBO Max. A história centra-se num alienígena que chega à Terra com uma missão: aprender a ser humano e descobrir a única mulher que pode ajudar a salvar a sua espécie. Juntos, descobrem que para salvar o mundo dele, primeiro têm de salvar o nosso. Ao todo tem 10 episódios.

O elenco de “The Man Who Fell On Earth”, que é uma produção original da Showtime, inclui nomes como Chiwetel Ejiofor, Naomie Harris, Clarke Peters, Jimmi Simpson, Kate Mulgrew e Bill Nighy, entre outros. Este é um projeto de Alex Kurtzman e Jenny Lumet, produtores da saga de “Star Trek”.

A NiT falou com Joana Ribeiro durante uma pausa da atriz nas gravações de outro projeto — o filme português “A Sibila”, que está prestes a terminar as gravações na região norte do País. Leia a entrevista.

Como conseguiu o papel?
Foi através uma self-tape que fiz em janeiro ou fevereiro de 2021. Estava em Malta a filmar outra série, “Das Boot”, e o meu agente enviou-me esta proposta. Continuei a gravar lá, e em abril, soube que tinha ficado com o papel. Inicialmente a personagem era da Guatemala, depois afinal queriam que tivesse um sotaque norte-americano e acabou por ser reescrita para a tornarem portuguesa.

Foram os produtores que tomaram essa decisão ou a Joana incentivou-os a fazerem isso?
Não, tenho imenso prazer em fazer sotaques e trabalhei, inclusive, os sotaques espanhol e norte-americano. Mas a personagem ganhava interesse, e ao longo da série vai perceber-se o porquê de não ser americana, ser filha de pais imigrantes. O facto de ser portuguesa deu-lhe uma backstory mais interessante do que a que tinha inicialmente. Foi uma combinação de fatores que fez com que funcionasse melhor para todos.

O que é que a atraiu mais quando esta história e personagem lhe foram apresentadas?
Sou fã de ficção científica e interessa-me a forma como responde muitas vezes a questões relacionadas com o que é ser humano. O que fazemos aqui não é tão focado nos aliens e noutros planetas, mas mais naquilo que estamos a fazer na Terra, que vai ter consequências catastróficas. A personagem também me interessou bastante, porque é uma rapariga super inteligente, que trabalha na CIA, é analista, uma aluna do topo da turma. Nunca foge de nenhum problema e nunca fica intimidada por homens ou por pessoas que estejam acima dela na cadeia alimentar. É muito interessante ver a dinâmica dela com a personagem do Jimmi Simpson, que é chefe dela, e a forma como muitas vezes lhe faz frente. Era quase um jogo de ténis entre os dois, em que ele jogava com uma agressividade enorme e ela ia batendo as bolas, tranquilamente e, no melhor momento, fazia uma jogada arrasadora. É muito interessante enquanto atriz poder trabalhar uma personagem dessas. É alguém que receber e reage, e não tanto alguém que cria atrito. Depois soube que o Alex Kurtzman e a Jenny Lumet estavam envolvidos no projeto, o Chiwetel Ejiofor, a Naomie Harris, tanto o elenco como a parte criativa da série interessava-me bastante.

Como é que o núcleo da CIA se cruza com o extraterrestre que chega à Terra?
A série é baseada num livro do Walter Tevis. E há 46 anos, foi feito um filme com o David Bowie, realizado pelo Nicolas Roeg, que parte exatamente do mesmo princípio — um alien que vem à Terra para salvar o planeta dele. Só que, no filme com o Bowie, o protagonista Thomas Newton acaba por descobrir os vícios dos humanos — o álcool, a televisão e acaba por se perder um bocadinho. Também sofre nas mãos da CIA quando tentam descobrir o que está a fazer na Terra, porque acham que ele é uma ameaça; portanto é um bocado mais negro. Esta série pega na história passados 40 anos, com um novo alien que vem à Terra a mando do Thomas Newton. Agora é interpretado pelo Bill Nighy, é como se a personagem do Bowie tivesse envelhecido. Ele está incrível e não é fácil continuar o percurso iniciado pelo David Bowie numa personagem tão icónica, que marcou uma geração. O Faraday vem à Terra com o mesmo propósito: salvar o seu planeta, que está em seca extrema e todos os aliens vão morrer. Durante o processo, tenta perceber o que faz de nós humanos. E é muito interessante, há um episódio — o sexto — que parte muito da música, uma vontade dos criadores. Lembro-me de a Jenny nos ensaios explicar sempre que cada personagem tem a sua música.

Qual era a sua?
Fiz uma playlist para a personagem [risos] e ia mudando, desde músicas do Bowie até ao “Heart of Glass” [de Blondie] e também jazz. Porque penso que, às vezes, ela estava meio confusa e o jazz tem muito a coisa de não seguir uma regra e achava isso interessante para a criação da personagem. Vemos o Faraday a descobrir o que é ser humano, o amor e a família — porque é que a Justin cuida tanto do pai apesar de ele estar quase a morrer. São tudo coisas que para ele não fazem sentido. Apesar de ser uma série de ficção científica, para mim é mais uma série sobre o que é ser humano e o que faz de nós humanos, do que uma série sobre aliens que vêm à Terra. Acaba por não ser nada disso. 

A ficção científica tem muitas histórias que fazem esses paralelismos entre a fantasia e a realidade.
E fala muito do que está a acontecer neste momento, do aquecimento global e das desflorestações que estamos a fazer, porque estamos a estragar o nosso planeta. A série alerta muito para isso. 

Conhecia o filme com David Bowie? Foi uma referência para construir esta série?
Não tinha visto o filme, só imagens. Não é um filme fácil de encontrar, é zero comercial, é de culto. Nesse aspeto a série é mais acessível do que o filme — apesar de o filme ser incrível e todas as pessoas o deviam ver. Vi-o quando fiz a self-tape. Quando gravo uma self-tape para uma coisa que quero realmente fazer, tento informar-me o máximo possível sobre esse projeto e, na altura, vi o filme e gostei imenso. O Bowie é maior do que tudo o resto no filme, é incrível. E cada episódio da série tem o título de uma música do David Bowie.

A Joana é fã da música do David Bowie?
Sou, adoro! Lembro-me de que quando morreu, houve uma festa no Lux e fui com os meus amigos o relembrar. Foi muito especial. Todas estas coisas acabaram por tornar esta série e personagem muito apetecíveis para mim.

Além da playlist, fez outras coisas para entrar no espírito e construir a personagem?
Sim, tive aulas para encontrar a forma como ela comunicava. Desde o início das conversas com o Alex que me dizia que achava que a minha personagem era muito parecida com a da Jodie Foster em “O Silêncio dos Inocentes”. Ela consegue ser super fria e confrontar as pessoas de uma forma inteligente, sem partir para a agressão. Isso foi uma coisa que sempre esteve presente na criação da personagem. Vi vários filmes desse género, vários documentários sobre aliens, estive a ler aqueles documentos que todos os anos são disponibilizados sobre aliens e OVNIs, da Area 51 e essas coisas todas [risos]. Tudo o que pude ver e ler. Vi vídeos de como funciona o treino dos agentes da CIA, tentei construi-la a partir daí e tentei arranjar uma backstory para ela através das conversas com o Alex, porque a Lisa… Há uma altura na série em que percebes algumas coisas em relação a ela, portanto, tinha de existir um contexto.

E isso teve a ver com o facto de a personagem se ter tornado portuguesa? Isso ajudou a criar esse contexto?
Não, eles fizeram um trabalho de casa muito bem feito. Tanto que, de repente, apareceram uns episódios alterados e quando li, fiquei: “ah, que engraçado”. Porque existe uma referência à Rainha Santa Isabel e o primeiro espetáculo de teatro que fiz — numa escola de verão, já nem me lembro que idade tinha, mas era muito nova —, fiz o papel da Rainha Santa Isabel. Então, quando li, achei muita graça a esse pormenor. 

Qual foi o maior desafio que enfrentou neste projeto?
Talvez o estar longe de casa. Começámos esta série em maio do ano passado, ainda havia muitas regras referentes à Covid em vigor, portanto entre junho e outubro não vim a Lisboa. Claro que faz parte do nosso trabalho estar longe e muito tempo fora, mas nunca tinha tido a experiência de estar tanto tempo longe, sem poder vir um fim de semana a casa e estar com a minha família e amigos nos dias em que não filmava. Toda a logística de filmar com a Covid-19, talvez tenha sido a maior dificuldade num projeto desta dimensão. Fazer testes todos os dias foi a parte mais difícil [risos]. Pelo menos em Inglaterra não põem a zaragatoa até ao fundo do cérebro como em Portugal [risos].

Vê-se a fazer cada vez mais projetos lá fora?
Não sei, depende dos projetos — alguns fazem sentido e outros não. Não sou nada aquela pessoa que só quer trabalhar fora de Portugal. Existem coisas muito boas a serem feitas em Portugal e espero continuar a trabalhar cá, tenho todo o interesse. No fundo, vai sempre depender do projeto e das pessoas envolvidas. Há imensos atores que fizeram coisas fora de Portugal e que continuam a trabalhar cá. Não algo visto como uma coisa… “Ah, é só porque não tem trabalho lá fora.” Não. As pessoas trabalham em Portugal porque querem, porque se fazem coisas muito boas cá.

O que está a gravar neste preciso momento?
Estou a filmar uma adaptação do livro “A Sibila”, de Agustina Bessa-Luís, realizado pelo Eduardo Brito e produzido pelo Paulo Branco, com a Maria João Pinho no papel principal. Sou a sobrinha dela. É um livro muito pessoal da Agustina, quase como que um diário da vida dela — ou de uma parte da vida dela. Estamos a filmar no norte e está quase a acabar. Foram dois meses de rodagem. Existe narração ao longo do filme e é feita pela minha personagem. Por isso, também tenho trabalhado sobre o texto para compreender a forma como a Agustina escrevia, que tem uma linguagem muito específica.

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