Televisão

João Miguel Tavares: “Fizemos uma série sobre o arquétipo do político corrupto português”

A NiT entrevistou o jornalista e comentador sobre a série que co-escreveu, “Prisão Domiciliária”, que estreia a 16 de abril na Opto.
Marco Delgado interpreta o protagonista.

Chama-se “Prisão Domiciliária” e é a próxima aposta da Opto, a plataforma de streaming que a SIC lançou no ano passado. A série de oito episódios estreia a 16 de abril e acompanha um político português corrupto, que está preso em casa, com pulseira eletrónica.

Realizada e inicialmente idealizada por Patrícia Sequeira, foi escrita por João Miguel Tavares, Rodrigo Nogueira, Catarina Moura e Tiago Pais. Promete oscilar entre o drama e a comédia (com outros elementos pelo meio), num tom que já conseguimos antever através do trailer divulgado.

O elenco inclui nomes como Marco Delgado, Sandra Faleiro, Afonso Pimentel, Filipe Vargas, Maria João Falcão, Fernando Rodrigues, Carlota Crespo, Carlos Oliveira, Diogo Amaral, Miguel Damião e Valerie Braddell, entre outros.

As gravações aconteceram há pouco tempo, em fevereiro, e a série foi escrita na segunda metade de 2020 — embora a primeira ideia para o projeto tenha surgido em 2013. A NiT entrevistou o jornalista, cronista, comentador e escritor João Miguel Tavares sobre “Prisão Domiciliária”.

O autor, atualmente mais conhecido como comentador político, recusa uma colagem a figuras da vida real, como José Sócrates, mas assume que podem haver aproximações, já que o objetivo também foi espelhar a realidade política em Portugal. Conta-nos como foi um trabalho árduo feito às noites e durante os fins de semana, e admite deixar a porta aberta para potenciais futuros projetos de ficção.

Qual foi a sua reação quando a Patrícia Sequeira lhe sugeriu escrever esta série?
Isso já aconteceu há imenso tempo, não sei se me consigo lembrar, porque foi em 2013 [risos]. Mas a primeira reação foi mais de surpresa, no sentido em que eu nunca tinha feito isto. E eu não conhecia a Patrícia, há esse mérito. Dá-me ideia que ela andava mesmo à procura de alguém fora do mundo tradicional dos argumentistas. E a ideia original era fazer de “Prisão Domiciliária”, que já tinha esse nome, uma série que se passasse num lugar fechado. Ou seja, as personagens nunca saíam daquela casa. Eu achei muita graça ao desafio e era uma série sobre um político corrupto português, por isso ela foi à procura de alguém que escrevesse sobre o tema, um jornalista que acompanhasse e de certa maneira pudesse conhecer os meandros da coisa. E foi assim que ela veio ter até mim. Eu acho que ela nem conhecia bem o meu background, mas a verdade é que comecei na secção de cultura do “Diário de Notícias”. Comecei até como crítico de cinema e a escrever também sobre televisão. Além do facto de ser jornalista e depois destas voltas que a vida deu de ter acabado a escrever uma coluna política, há de facto um interesse meu muito grande tanto pelo cinema como pela ficção televisiva. E as coisas casaram-se. Mas aquilo em 2013 não foi a grande lugar. Nós escrevemos um episódio piloto, já na altura com o Tiago Pais e o Rodrigo Nogueira. Depois, no ano passado, juntou-se a Catarina Moura e fomos nós os quatro a escrever a série.

E como se formou esse painel de argumentistas?
Os convites foram meus. Eu gosto de trabalhar em equipa, sempre gostei, e também sabia qual era o tom que queria para a série. Embora na primeira versão, no primeiro episódio piloto, “Prisão Domiciliária” fosse uma série mais humorística. Com o tempo foi evoluindo para algo que cruza o humor com o drama e até com um bocadinho de suspense. Há ali um ligeiro toque quase de thriller, de whodunnit. E esse cruzamento de elementos fazia com que, como eu nunca tinha feito aquilo, achava útil ter pessoas… Aquele lado de trabalhares em equipa, teres alguém para te dizer se esta fala está boa ou má. E sempre valorizei muito esse brainstorming. Eu tinha trabalhado com o Tiago e o Rodrigo na “Time Out”, sou um dos fundadores da revista e eles fizeram parte da equipa, e mais tarde eu saí, eles ainda continuaram durante mais algum tempo, mas depois cada um de nós foi à sua vida. E a Catarina Moura também vem desses tempos. E a verdade é que a escrita da “Time Out” sempre foi uma tentativa de ter aquele wit, uma espécie de humor inteligente até com um lado de provocação, e esse tom também era algo que queria muito que estivesse presente na série. Portanto, convidei-os, depois mais tarde a Catarina, porque achava que também devia ter ali um toque feminino na escrita. E foi assim que a equipa se formou. Agora, desde 2013 até agora…

Foi um processo demorado.
Sim, até já tinha desistido. Houve um momento em que a série não deu, depois a SIC Radical teve interesse mas por uma razão ou outra, e apareceu a crise, também não avançou. E finalmente, quando eu já dava isto mais ou menos por morto e enterrado, surgiu a Opto pelo caminho. A Patrícia, pelos vistos, nunca tinha desistido da série. E ela apresentou alguns projetos à Opto e de repente a SIC olhou e penso que até foi o Daniel Oliveira a dizer “porque é que a gente não faz isto?” E avançou-se com “Prisão Domiciliária”, que voltou do reino dos mortos e que depois teve de ser escrita com alguma rapidez na segunda metade do ano passado. E tendo em conta que todos nós somos amadores, no sentido em que, não só nunca tínhamos feito isto, como todos nós temos outros trabalhos e somos jornalistas, a série teve muito de ser feita à noite e aos fins de semana. Então convinha sermos mais, para irmos dividindo trabalho, e para aquele bater de bolas e aquele brainstorming. Embora eu tenha acabado por ter um papel de supervisão do guião.

Tirando o tom, que se alterou ligeiramente ao longo do tempo, como disse, a visão inicial para a série mudou muito? Ou não?
Não, não mudou assim tanto, porque as personagens principais estavam mais ou menos definidas à partida. Pode ter entrado uma ou outra, mas pouca coisa, já tínhamos os nomes definidos e um perfil para cada uma delas. Claro que houve ligeiras evoluções, mas não mudou muito. E o centro da série é a mesma coisa: um político corrupto que está preso em casa com pulseira eletrónica e que tenta, enfim, manter a sua vida política, em parte manter a sua influência, alguns dos seus negócios, e tentar escapar a uma acusação da justiça portuguesa. E tentar perceber nesse meio quais são as motivações.

Pode-se dizer que há pessoas ou acontecimentos da vida real que tenham inspirado esta história? Ou tentaram afastar-se disso propositadamente?
Não houve uma tentativa nem de afastamento nem de demasiada aproximação. Até porque sou eu a escrever, e eu escrevi durante tantos anos tão obsessivamente sobre o José Sócrates, as pessoas apontam e dizem: lá está, é uma série em que é o Sócrates. Mas na verdade, como te estava a contar, a série começou em 2013. O Sócrates foi preso em novembro de 2014, portanto a ideia da série é anterior. E na altura até tinham surgido outras ideias, outras pessoas, o Duarte Lima era uma das que também tinham sido referenciadas. Agora, é evidente para quem acompanha a política portuguesa e o processo Marquês, é verdade que pode olhar para a série e ver de repente uma frase ou uma determinada situação que naturalmente lembra alguma coisa. Mas essa sempre também foi a ideia, de olharmos para a realidade portuguesa e não estarmos a fingir que aquela não é realidade. Há ali um lado de mostrar o arquétipo do político corrupto português. E há aproximações. Agora, eu nunca quis que houvesse uma colagem ao José Sócrates. Porque o Sócrates é uma personagem suficientemente rica em si para precisar de uma série de ficção. O José Sócrates merece um ótimo documentário, se calhar até uma série documental, sobre a vida dele, que é suficientemente rica. E, depois, porque aquilo que mais me motiva na série, e era assim que eu achava que íamos conseguir fazer uma boa série de ficção, era aquilo que são as motivações interiores da personagem. Isso vai muito além dos episódios que encontramos descritos nos jornais. 

Que tipo de motivações?
Interessa-me a motivação de alguém: como é que tu fazes aqueles negócios? O que é que acontece no momento em que és apanhado? Como é que fazes para a tua influência e poder que tens não te escapar das mãos? E como é a tua imagem diante da tua família? Qual é o impacto que isto tem na tua família? São este tipo de motivações que mais me interessam para fazer uma série e isso vai muito além de um decalque da realidade, que seria muito pouco interessante. E acabávamos com um senhor grisalho, com um nariz assim abatatado e a imitar o sotaque do Sócrates. Isso para mim não teria nenhuma espécie de interesse. A minha prioridade foi: vamos fazer boa ficção televisiva. Uma coisa que dê às pessoas vontade de ver. E para isso é preciso apaixonarem-se pela série e pela personagem principal. E de facto o político corrupto ou facilitador tem que ser também um sedutor. Sem esse lado, tu não consegues criar uma carreira. Nós às vezes olhamos para um corrupto e achamos “ai que este trafulha”, e pintamo-lo com umas cores como se ele fosse uma encarnação do mal. Ora, é evidente que se alguém for simplesmente um pulha que trai toda a gente e é horrível para todas as pessoas, jamais conseguirá ascender na vida. Portanto, todas estas pessoas têm uma dimensão de sedução, de fascínio e até de preocupação com outras. Em primeiro lugar, muitas vezes com eles próprios, mas também com outros. Não é que sejam insensíveis a tudo aquilo que acontece à sua volta. É este o universo que tentámos explorar.

Houve séries ou filmes que foram referências para criar “Prisão Domiciliária”?
As nossas influências são tudo aquilo que a gente já viu, ouviu ou leu. Também estou a caminho dos 50 anos, já é muita coisa. Obviamente que isso nos marca, que nos influencia. Agora, há também um tom de que gostamos, e acho que é transversal à minha geração e à de toda a gente. Que é olhar para a ficção televisiva, nomeadamente a americana, e sentires que há coisas extraordinárias a aparecer. Hoje em dia até se calhar é um meio mais interessante do que o próprio cinema. E isso vem com uma conjugação de ambição autoral, da parte de quem escreve e realiza, e uma preocupação de chegar a um grande público. As duas coisas não têm de ser incompatíveis, como às vezes parece em Portugal. Tu às vezes só tens produtos de grande público, cujo interesse intelectual e autoral é nulo, ou então gente que tenta fazer um cinema tão autoral e intelectual que depois deixa de fora as outras pessoas. Os dois lados não têm que ser incompatíveis. Foi isso que tentámos fazer. É uma série autoral, no sentido em que as marcas da nossa escrita e personalidade estão na série, mas ao mesmo tempo que seja apelativa. E para o ser tem de ter todos aqueles ingredientes de que estava a falar. Sendo sobre um político corrupto preso, deve ter um lado de suspense, dramático e também de humor. Para encontrar um tom que ao mesmo tempo seja único, porque sinto que isto não existe muito em Portugal. E aquilo que nós tínhamos quando começámos a fazer a série eram duas regras: primeiro, não queríamos que as personagens fossem estúpidas. Não havia tipos burros que só ali estivessem para ser manipulados. Eram para ser personagens consistentes que os atores tivessem gosto em defender. E a outra é que quem visse esta série dissesse: olha, nunca tinha visto uma coisa assim na televisão portuguesa. Isto não se parece com nada do que vi. E foi muito essa a nossa motivação para escrever. Se as pessoas gostarem, sentirem-se entretidas, que há ali um tom autoral e ao mesmo tempo dizerem que nunca tinham visto nada assim na televisão portuguesa, a gente faz a festa e já ganhou o dia.

Quem são as personagens mais relevantes, além do político protagonista da história?
A personagem principal é o Álvaro Vieira Branco. Depois ele tem uma mulher, que é a Raquel (interpretada pela Sandra Faleiro), e têm um filho e uma filha, e há uma mãe, que vai viver lá para casa e que é uma personagem bastante importante (interpretada pela Valerie Braddell). E depois há também dois empregados: um motorista e alguém que é uma espécie de homem de mão de Álvaro Vieira Branco, que é o Zé Mário (interpretado pelo Fernando Rodrigues), que também tem um papel muito importante. Depois há o advogado, o assessor do primeiro-ministro, há jornalistas, amantes e toda uma dinâmica… Já me perguntaram sobre se não são imensas personagens, e tem que haver muita gente a entrar e a sair porque tudo aquilo se passa dentro de uma casa. É preciso criar uma dinâmica suficientemente interessante para aquilo não ser uma série que a gente sentisse que estava ali e que cena após cena tornava-se uma seca. De todo, lutámos muito para fazer uma série divertida. Existem muitas personagens, e, se tivermos feito bem o nosso trabalho, cada personagem está ali para ser bem defendida pelo seu ator ou atriz. Independentemente da dimensão do papel.

João Miguel Tavares numa participação em “5 Para a Meia-Noite”.

O principal arco dramático é o protagonista a tentar manter a sua influência e a forma como lida com as várias personagens que estão à sua volta, é isso?
Sim, por um lado há o impacto todo que uma prisão… porque ele vem da prisão para casa, há o impacto todo que isso causa na sua própria família. E depois há um impacto político. Como é que faz alguém que foi apanhado e que ao mesmo tempo era super influente no governo, no partido do governo, como é que faz para manter o seu poder? Se virmos isto como um tripé, de um lado é a família, do outro a família, e o terceiro será a justiça. O que é que eu posso fazer para impedir que isto vá para a frente? Que essa acusação caia e que ele não seja julgado, não tenha que ir a tribunal, e que consiga recuperar a influência política. Todas estas preocupações atravessam a cabeça do corrupto, ou do suspeito de corrupção português, que foi o que tentámos explorar.

Depois desta experiência, gostaria de escrever mais ficção para a televisão?
Vamos ver. É assim, eu gostei muito disto. Foi duro de escrever, por todas as razões que disse. Era impossível eu sentar-me às nove da manhã a escrever e parar às cinco da tarde. Isto teve que ser feito com grande sacrifício aos fins de semana, também com muita ajuda da família e da minha mulher, que nestas ocasiões teve que andar a aturar a rapaziada toda, ainda por cima eu tenho quatro miúdos. Os miúdos, por acaso, fiquei muito surpreendido com os mais velhos [risos]. Porque sentiram-se muito envolvidos nisto e é a primeira vez que faço alguma coisa na minha vida pela qual eles parecem ter genuíno interesse, é muito engraçado [risos]. Eu posso andar a escrever para o “Público” e fazer o “Governo Sombra”, que eles não querem saber. Mas da série de televisão quiseram saber, teve esse lado prazenteiro para o pai.

Deram sugestões?
Mais do que sugestões, deram muitas opiniões. Se isto estava bem, se estava mal. A minha filha mais velha, que tem 16 anos, a Carolina, leu: olha, acho que isto está mal, aqui está uma gralha, aqui não faz muito sentido, e portanto, sim, acompanhou aquilo de perto. Teve esse lado simpático. E eu gostei de fazer aquilo. Para mim foi mais fácil do que estava à espera. Era uma coisa de que gostava de explorar há muito tempo. Até porque tenho um lado de ficção que nunca explorei muito. Explorei nos livros infantis que escrevi, que evidentemente têm um lado ficcional, e é um lado inventivo de que gosto. E ao mesmo tempo a escrita de argumento é muito enxuta e muito de corta e cola, de tesourar tudo aquilo que está a mais. E essa escrita também tem a ver com a escrita jornalística, curiosamente. Por exemplo, estou até a meio de um empreendimento grande, que é escrever um livro de grande fôlego, que não é ficção, é mais ensaístico, mas escrever um ensaio de 300 páginas é algo para mim muito mais afastado da minha vida do dia a dia do que escrever um argumento. Não tem a ver com o estilo, tem a ver com a mecânica da escrita. É uma mecânica de punchline, que também tem muito a ver com a mecânica da boa crónica. É engraçado: nunca tive writer’s block, nunca senti que houvesse falta de ideias, houve muita discussão entre nós, às vezes em relação ao próprio tom, para onde é que a série deveria ir, mas nunca aconteceu ficar ali com uma espécie de bloqueio. Foi uma coisa prazenteira. Dá é imenso trabalho. Vamos ver, a porta fica aberta, talvez eu tenha vontade de experimentar mais algumas coisas. O meu problema é que eu gosto de tanta coisa e faço tanta coisa em simultâneo. Mas enfim, quando se gosta vamo-nos desenrascando.

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