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João Ribeiro, o miúdo auto didata que está a fazer sucesso no “The Voice”

Superou-se entre concorrentes com mais formação e experiência. Convenceu Marisa Liz e até já compõe os seus temas.
João brilhou a tocar Ed Sheeran

O fim de um namoro ou de uma relação é, segundo um estudo publicado em 2014 — e que analisou as faixas mais populares na Billboard ao longo de cinco décadas —, o tema mais comum em todas as canções. Com João Ribeiro, concorrente desta temporada do “The Voice Portugal”, não foi diferente.

Quando subiu ao palco para a prova cega, a 2 de outubro, levou consigo dois temas. Um mais famoso, “Photograph”, de Ed Sheeran. Outro, composto por si, e que pediu aos jurados para tocar. A surpresa foi total e se o jovem de 18 anos já estava aprovado, o entusiasmo cresceu.

“Se olharem para a letra, percebem que não é uma coisa alegre. Quando escrevo, vêm-me sempre à cabeça as coisas más. É uma forma de me libertar desses pensamentos”, explica à NiT, na antecipação do último programa da fase de confrontos, que vai para o ar este domingo, 13 de novembro. “Essa música foi composta depois de terminar um namoro. Estava a custar-me superar e decidi escrevê-la.”

Se a composição é um talento descoberto mais recentemente, o ouvido para a música começou a ser revelado aos três anos. O jeito para a guitarra moldou-se ao exemplo do pai, também ele um guitarrista auto didata.

João cresceu a ouvi-lo tocar. “A minha mãe é brasileira e sabe-se que o povo brasileiro está muito ligado à música”, explica sobre a influência dos pais. “Quando era pequeno, perceberam que eu conseguia ouvir a música e tocá-la no piano, uma tecla de cada vez.”

Nunca teve aulas ou qualquer tipo de formação. Aprendeu tudo com muita prática, muitas horas no YouTube e, claro, uma dose de talento natural. “O piano surgiu há cerca de um ano, porque já tocava guitarra há muito tempo e precisava de algo de novo. Pareceu-me um instrumento super adequado.”

A provar que as influências parentais nem sempre são assim tão eficazes na transmissão, está o irmão mais novo, de 15 anos, que todos tentaram puxar para a música. Sem sucesso. “Ele nunca ligou muito, mas agora ao ver-me no ‘The Voice’, acho que se inspirou e começou a aprender a tocar guitarra [risos].”

“Não é, de todo, uma sensação normal, as pessoas reconhecerem-me na rua. É bom, mas não estava habituado. Ainda assim, é algo que me reconforta”, conta. O choque de tocar para milhares e milhares de pessoas não foi uma sensação fácil.

“Sempre toquei só para mim, embora gostasse de ouvir as opiniões dos outros. Nunca me ocorreu fazer isto, ser conhecido, lucrar com a música. Nunca me passou pela cabeça”, conta.

À sua volta, todos iam reparando no talento. Pessimista por natureza, manteve-se no seu canto. Foi assim também com a sua voz. “Nunca reparei nela. Só tocava guitarra, mas um dia apeteceu-me acompanhá-las com as letras, para não perder a energia”, recorda. “Os meus amigos começaram a dizer que não cantava mal e depois incentivaram-me a apostar nisto. Sem eu saber, inscreveram-me no ‘The Voice’.”

Tocar para amigos ou família não é bem o mesmo que tocar para quem nos avalia, mesmo sem câmaras. Foi isso que sentiu durante as audições, que encarou sempre com a sua habitual dose de pessimismo.

“Nunca fui meu amigo, nunca saía de lá confiante. Fiz três ou quatro audições e estava sempre rodeado de gente que cantava bem. A maioria tinha tido aulas, contacto com professores. Eu não. Era tudo novo para mim. Tinham mais experiência, técnica, controlo”, conta. “Quando os ouvia a cantar, até me assustava.”

Acabou por ficar dois a três meses sem ter qualquer tipo de resposta. Acreditava que já não tinha hipóteses, até que a mãe lhe ligou a dar a novidade. “Não passaste”, ouviu do outro lado da linha. “Não fiquei chateado, achei normal, até que ela me diz que estava a brincar.”

Assume-se um ouvinte eclético. Ouve de tudo. Bem, quase tudo. “Só não oiço metal. Não consigo. Prefiro coisas mais calmas, mais melódicas. O metal é demasiado agressivo”, confessa o super fã de Coldplay. “Tudo o que seja nesse registo, funciona para mim. Adoro música brasileira, bossa nova.”

Antes de mergulhar noutros géneros, começou por aprender dois temas que ainda hoje recorda com cuidado: “Wake Me Up When September Ends”, dos Green Day; e “Tempo Perdido”, dos Legião Urbana. “Quando era pequeno, o meu pai estava sempre a tocar a ‘Tempo Perdido’. Habituei-me a ouvi-la, mas quando ouvi a original, percebi que ele não a tocava da mesma forma. Então decidi aprender para a tocar como devia ser”, recorda.

Optou por não levar nenhum desses temas às audições. Tocou “Kiss From a Rose”, de Seal, alguns temas de John Mayer e de Ed Sheeran. Mais uma vez, a opção menos provável foi a que se confirmou.

“Quando escolheram a música que deveria tocar, foi a mais improvável, porque até achei que tinha sido nessa a minha pior performance”, explica sobre o tema “Photograph”, que lhe valeu a aceitação de dois jurados, Marisa Liz e Carolina Deslandes. Acabou por aceitar integrar a equipa da primeira.

As recordações dessa noite de glória nem sempre são boas. “Tenho uma relação de amor-ódio com esse dia de Prova Cega”, conta. “Amor porque foi uma experiência que nunca imaginei poder ter na vida. Ódio porque, mesmo com toda aquela gente no estúdio, consigo ouvir os meus próprios passos e isso dá-me uma sensação de suores frios.”

“Enquanto tocava, estava sempre a pensar no que me estava a acontecer. Tinha quatro cantores famosos de costas para mim, a avaliarem-me por uma coisa que eu nunca fiz antes”, diz. “A batalha contra os nervos foi uma coisa complicadíssima. Felizmente correu bem.”

Tocado, ouvido e aprovado, decidiu tentar a sua sorte. Antes de subir ao palco, tinha mostrado ao vocal coach o seu tema original, que lhe disse para arriscar. “Quando a Marisa e o Diogo vieram ter comigo, aproveitei a oportunidade”, recorda.

Acabou por nunca compor mais nenhum tema, até hoje. “Esse feedback deu-me vontade de escrever mais e tenho algumas coisas em andamento.” Em andamento está também o concurso, que se prepara para terminar a fase dos confrontos e lançar-se numa fase nova e totalmente inesperada.

Agora, enquanto não está a jogar futebol, a andar de skate, a surfar ou a jogar ténis — o desporto é a outra sua grande paixão, já que os estudos são uma espécie de fardo, admite —, está a preparar-se para o que aí vem, já mais à vontade nos palcos. “Independentemente do que acontecer, passe ou não, é uma experiência que vou guardar no coração.”

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