Televisão

A jornalista portuguesa que mergulha no perigoso submundo do tráfico

Mariana van Zeller já recebeu vários prémios e é a estrela de "Na Rota do Tráfico", da National Geographic, que está de volta à televisão.
O programa é um sucesso na National Geographic.

Em 2021, a jornalista premiada Mariana van Zeller fez história com “Na Rota do Tráfico”, a primeira série criada por uma portuguesa a estrear na National Geographic, que rapidamente se tornou num dos maiores sucessos do canal. A nova temporada, a quarta, estreou a 6 de abril. O segundo episódio vai ser transmitido este sábado, 13, pelas 22h30.

No novo capítulo, viaja com a equipa para Manila para investigar um novo esquema de chantagem: a extorsão sexual. O programa “explora o funcionamento interno de um dos mercados negros mais perigosos do mundo”, lê-se na sinopse.

“Em cada episódio, investiga um submundo diferente — desde o tráfico de órgãos humanos, a assassinos contratados, à extorsão sexual e ao tráfico de noivas — com o objetivo de conhecer quem se move nele, perceber como funciona o negócio e compreender melhor a economia paralela que gera vários milhões de dólares.”

Mariana, de 47 anos, estudou Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa. Após concluir a licenciatura, tornou-se jornalista estagiária na SIC e, pouco tempo depois, começou a apresentar um programa de viagens, que fez durante cerca de um ano. Queria entrar para um mestrado em Jornalismo na Universidade de Columba, nos EUA, e não ia aceitar um não como resposta. Decidiu apanhar um avião e foi falar diretamente com o diretor da faculdade, que acabou por aceitar a matrícula.

Um mês após ter chegado aos EUA, deu-se o 11 de setembro de 2001. Era uma das poucas jornalistas portuguesas que estava em Nova Iorque e, graças a isso, foi ela quem transmitiu e relatou o que estava a acontecer no “Jornal da Noite” — e assim se começou a tornar conhecida internacionalmente. No currículo conta com três importantes prémios: um Peabody, um People’s Voice Webby Award e um Livingston Award for Young Journalists.

Os seus documentários e reportagens também já a levaram para cenários de instabilidade e guerra na Serra Leoa, Sri Lanka, Brasil, Nigéria, México ou Síria. Em “A Rota do Tráfico”, passa por muitos outros destinos igualmente perigosos.

Entrar nestes submundos do crime é tudo menos fácil e seguro. Foram vários os momentos em que sentiu que a sua vida corria perigo. À NiT, conta tudo sobre os novos episódios, histórias e aventuras.

Como é que se sente por estar de volta para uma quarta temporada de “Na Rota do Tráfico”?
É uma porcaria (risos). É fantástico. Sou uma pessoa muito otimista e apaixonada pelo que faço. Quando comecei a filmar a primeira temporada não fazia ideia de que haveria uma quarta temporada. Sinto-me muito privilegiada por fazer o trabalho que faço e por ganhar acesso a estes mundos que são muito escondidos e secretos e por ter a oportunidade de o partilhar com os nossos espectadores.

Acredita que esta renovação mostra o quão fascinadas as pessoas são pelo programa?
Sim. Temos sido muito sortudos por termos cada vez mais audiência à volta do mundo. O programa é muito popular globalmente. Quando percebemos que metade da economia do mundo vem destes mercados negros e cinzentos e, mesmo assim, sabemos tão pouco sobre eles… este é um programa ao qual dedico estes mercados — e aos quais dediquei 20 anos da minha vida. Há muito para aprender com estes submundos.

Como escolhe as histórias para cada temporada?
Tenho uma longa lista de mercados negros que quero abordar. Ao final do dia, acho que o que me interessa são os mercados negros que são difíceis de penetrar, mas que também têm um impacto nas vidas das pessoas à volta do mundo. 

Como é que se prepara para cada uma destas entrevistas?
Fazemos dez episódios a cada temporada e são precisos meses e meses para nos prepararmos para cada episódio. Antes de arrancarmos com as gravações houve meses de planeamento, mitigação de riscos e muito tempo perdido para convencermos as pessoas a falarem connosco. Essa é a parte mais difícil. Somos rejeitados inúmeras vezes até conseguirmos alguém que fale. 

É difícil chegar até estas pessoas e criar ligações sendo que elas estão em submundos tão perigosos?
A parte mais difícil é convencê-las. Por cada sim que temos recebemos centenas de nãos. Acho que aceitam falar connosco por três razões: o ego, porque as pessoas querem falar e damos-lhe a oportunidade de o fazerem atrás de uma máscara; há um nível de impunidade porque operam nestes mundos há tanto tempo sem serem apanhados que não veem problemas em falarem com a National Geographic; e a terceira razão, e a mais importante, é a característica humana que todos temos de querermos ser compreendidos. Eu dou-lhes essa oportunidade ao dizer que não estou ali para julgar, mas sim para perceber o porquê de fazerem o que fazem e acho que isso significa muito para eles.

Durante esta temporada, teve de cancelar alguma entrevista porque não se sentia segura?
Sim. Houve situações em cada uma das temporadas em que planeámos ir a algum lado ou falar com alguém e no último minutos percebemos que não foi uma ótima ideia, então cancelamos. A minha frase favorita sobre planos é do Mike Tyson. Ele diz que “os planos são muito bons até nos darem um soco na cara”. Isso resume o que nós vivemos ao trabalharmos no programa. Fazemos todos os planos, mas quando voltamos à Terra, começam a desaparecer e os riscos e ameaças vêm de onde menos esperamos.

Quando pensa na temporada, há alguma história que venha logo à sua mente?
Quando fomos gravar ao Níger. Eu estava lá para falar sobre uma mina ilegal de ouro que queria abordar há muitos anos. Finalmente encontrámos uma maneira de viajar para uma das regiões mais perigosas do mundo, que é a região de Sahel, no Níger. Está cheia de grupos terroristas como o Daesh, Al-Qaeda, há muitos raptos. Conseguimos arranjar um plano de segurança que permitiu que estivéssemos naquela zona. Enquanto estávamos a filmar a nossa história houve um golpe militar e ficámos sem proteção. Tinham fechado as fronteiras e não conseguíamos sair. Parte da nossa história tornou-se em nós a tentarmos fugir do país. Foi algo muito assustador e pessoal.

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