Televisão

Júlia Palha: “A cena em que o meu irmão morre foi das mais difíceis que alguma vez fiz”

A NiT entrevistou a atriz de 22 anos, que é a protagonista da novela “A Serra”.
"A Serra" estreou nos últimos dias.

Ainda só tem 22 anos, mas Júlia Palha já é uma das atrizes portuguesas mais famosas e queridas do público. Por isso mesmo, a SIC contratou a profissional no ano passado para regressar à estação de televisão onde começou, em “Coração D’Ouro”.

“A Serra” é o seu primeiro projeto neste regresso à SIC. A nova novela estreou na televisão a 22 de fevereiro. Júlia Palha interpreta Fátima, uma jovem da Serra da Estrela que se apaixona por um montanhista que acaba de chegar dos Alpes. Só que esse montanhista está noivo da sua maior rival de adolescência (que é filha da mulher mais poderosa da aldeia), mesmo que não seja bem o seu desejo.

À NiT, Júlia Palha fala sobre a nova novela, assume a responsabilidade acrescida, revela que teve medo das expetativas e também fala sobre cinema e de como adorava participar numa grande produção em Espanha. Leia a entrevista.

Este é o seu primeiro projeto no regresso à SIC, e como protagonista. Sente que a responsabilidade é maior?
Claro que sim. Acho que fazendo uma protagonista já tens uma grande responsabilidade, porque como é uma personagem com muita incidência, muitas personagens e emoções passam por ti e tu acabas por ter que ter um esforço quase que redobrado. E sendo um voltar à SIC e a aposta que sei que foi por parte do canal e do Daniel [Oliveira], é uma responsabilidade ainda maior. Confesso que esta era um bocadinho a resposta que eu estava a dar mas sem grandes certezas antes da estreia da novela, e agora que vi os primeiros episódios e com todo o feedback que tenho recebido, estou muito contente e acho que estive à altura do desafio.

Tem sentido o impacto que a novela tem tido, nestes poucos dias?
Definitivamente, recebo mensagens quase de hora a hora, ainda há bocado estava a ler uma. As pessoas perdem o seu tempo… Até porque há muita gente que só vê o episódio no dia a seguir, que é quando consegue, quando põe para trás. E tenho recebido imensas mensagens, tenho feito um esforço para ler os comentários quase todos e o feedback está a ser muito positivo, tanto para mim como para a novela.

Conta à NiT que gostava muito de trabalhar lá fora.

E como está em gravações e ao mesmo tempo a receber todo esse feedback sobre o mesmo assunto, isso também pode ser uma distração? Também influencia?
Não, porque faço bem essa gestão, não posso ler comentários quando estou em estúdio [risos], se não não me consigo concentrar. Tenho tentado ler quando estou à espera para entrar numa cena, em horas mortas, ao fim do dia quando chego a casa, mas se for uma distração é uma distração boa.

E também deve ser motivante, suponho.
É muito motivante, todas as pequenas críticas — apesar de ainda não ter recebido nenhuma apontada diretamente à minha representação, e estou muito feliz por isso — são construtivas e por isso é que é bom estarmos atentos e lermos os comentários.

Do que é que gostou mais desta história, quando lhe foi apresentada pela primeira vez?
Eu que gosto muito de ler e de escrever, gostei de estar tudo muito bem escrito. Quando entramos num projeto somos sempre suspeitos e vamos sempre defender a história, mas a Inês Gomes é uma autora incrível — já fez os maiores projetos desta estação — e acho que acaba por ser um bocadinho indiscutível. Toda a coesão do texto, os segredos que batiam certo uns com os outros. E depois gostei de entrar e que me dessem uma protagonista boazinha, não é? Porque sei que isso é bom para entrar num canal, que as pessoas gostam sempre mais, mas é uma boazinha que me está a dar muito gozo fazer. Porque não é a boazinha com medo e vulnerável, é uma boazinha com garra, que não deixa que lhe pisem os pés e acaba por ter quase um bocadinho de vilã, por ter tanta atitude e por ser tão forte. E acho que foi isso que gostei mais na minha personagem.

Mas acha que fazer uma personagem “boazinha” é mais fácil, é mais confortável?
Olha que não sei, depende sempre de ator para ator. Costumo dizer que para mim as cenas mais difíceis são aquelas em que estou a ser mais parecida comigo, as cenas mais coloquiais, do dia a dia. E tendo em conta que não sou uma pessoa má [risos], aqui entre nós, às vezes ter que ser tão eu e ser tão vulnerável em algumas coisas… Porque quando fazes uma personagem em novela é muito real e acaba por ter muitas coisas de ti, porque é uma personagem que tu fazes durante tanto tempo que não dá para fugires muito ao teu eu. A menos que estejas a fazer um grande vilão, por exemplo. E isso acho que acaba por ser mais difícil do que se estivesse a fazer alguém completamente diferente de mim. Porque aí tens por onde fugir a ti mesma e às tuas emoções, e quando é alguém próximo de ti acaba por ser mais difícil.

As gravações têm acontecido sobretudo na Serra da Estrela.

E qual é a maior diferença entre a Júlia e esta personagem?
Eu diria que é a calma [risos]. Ela consegue saber quando é que pode ou não responder, quando é que vale a pena dar conversa à Carlota ou à Mariana que são as grandes inimigas dela e ela consegue engolir muitos sacos, de uma maneira superior e madura, e é uma personagem muito leve. Acho que nem sempre isso é assim tão fácil transparecer para uma câmara sem cair no “simples” e no “inocente” e no “ingénua”. Acho que é mesmo o maior desafio. Fazer dela leve, feliz e ponderada sem cair para o ingénua.

Até agora, qual foi a cena mais desafiante ou difícil de gravar?
Todas as cenas mais puxadas a nível emocional acabam por ser complicadas, nós temos várias. Às vezes nem tem a ver com a cena, tem a ver com o dia em que estás, quantas cenas tens, se já fizeste muitas e de repente tens uma difícil que ficou para o fim. Mas diria que a cena em que morre o meu irmão, que fez o Ângelo Rodrigues, que passou logo no primeiro episódio, foi muito difícil para mim. Foi das primeiras cenas que gravei, foi o primeiro dia que fiz em exteriores, eu nunca tinha contracenado com o Ângelo. Eu tinha de estacionar a carrinha ao milímetro no sítio certo, saía direta, não corta, tinha que puxar o Ângelo de dentro do carro — que é alto, grande —, não há colchão nem nada, ele cai direto no chão, sou eu que com o peso do corpo o puxo. Fiquei super nervosa. Foi um misto de ter que estacionar bem a carrinha com ter que o fazer cair sem o magoar porque não havia segurança nenhuma, e não podia perceber que ele estava morto ao início, não podia trazer nem um bocadinho dessa emoção comigo e de repente ele embate no chão, pumba, percebo que ele morreu. E aí libertar para um pranto e para uma ansiedade que me é muito difícil de conseguir porque nunca passei sequer pela perda de alguém muito próximo… E a junção disso com ser dos primeiros dias foi provavelmente das cenas mais difíceis que alguma vez fiz. E fiquei muito contente com o resultado.

Apesar de, como dizer, não ter sofrido nenhuma grande perda, também é preciso buscar um pouco da vida pessoal para chegar àquela emoção?
Sim, acabas sempre por ir buscar. Não podes usar sempre isso como estratégia porque torna-se emocionalmente desgastante, principalmente numa telenovela, que são muitos meses e horas diariamente. Mas inconscientemente vais buscar e procurar emoções que te são conhecidas, é muito difícil gerares algo dentro de ti que nunca viveste. E eu nunca tendo tido uma perda muito próxima, que me tenha deixado verdadeiramente mal, soube jogar com aquilo que imaginaria ser essa perda, joguei também com todos os nervos com que estava por todas as razões que te expliquei há bocado. E isso deixa-te mais ansioso e acelera-te as respirações e tudo isso se reflete em cena. E acho que isso tudo é que fez sair tanta emoção de uma maneira tão verdadeira.

Já fez várias novelas, apesar de este ser o projeto em que tem mais cenas e é mais exigente. O grande desafio é mesmo gerir o esforço e o ritmo de gravar uma produção deste género?
Sim, também, qualquer pessoa que tenha feito um protagonista ou perto disso sabe a exigência que tem. Mas acho que, pelo menos para mim, se calhar por eu ser tão nova e por ter sido uma aposta, acho que para mim é a expetativa. Tive consciência de que foi posta alguma expetativa, de que quando é assim as pessoas são mais críticas e portanto acho que é isso: o não querer falhar, o não querer desiludir, não querer que digam que eu não estava à altura deste papel. E são coisas que ainda não aconteceram, só tenho tido feedback positivo. Por isso se calhar estava a ser um bocado exigente comigo mesma em pôr tanta expetativa e estar com tanto medo da expetativa dos outros, porque afinal correu tudo bem [risos].

José Mata é outro dos protagonistas.

Aquilo que gosta mais de fazer quando trabalha em novelas é o tempo que tem para ter uma personagem e a construir?
É, acho que é muito bom esta coisa das novelas de começarmos e dois ou três meses depois estarmos a estrear porque consegues ver o que não estás a gostar. Consegues pensar o que é que tornaria aquela personagem mais interessante e depois isto é tudo uma guerra connosco mesmos, para mim e para qualquer ator, de querermos prender o público. Porque temos consciência de que em projetos tão longos é normal que o público desligue. Não é por estarmos a fazer um mau trabalho, é porque as pessoas têm vidas e fases em que nem sempre lhes apetece, e às vezes já não se identificam tanto com as histórias. Por isso queremos sempre arranjar maneira de nos melhorarmos e de, enquanto personagens, nos tornarmos mais interessantes, para que o público queira continuar do outro lado. E eu acho que este registo de telenovela nos dá muita margem para isso porque muito cedo já estamos a ver o que está mal, a receber os comentários do público e já sabemos o que poderia ser mais ou menos interessante.

A Júlia também tem tido várias participações em filmes. É algo que pretende continuar a fazer? Obviamente, o trabalho em cinema e novelas é diferente.
Definitivamente. Eu gosto muito de fazer cinema. Eu não faço nada separações de projetos, se é cinema ou televisão ou teatro. Claro que cada coisa é uma coisa, mas acho que quando és um ator gostas de fazer tudo e sentes-te bem em registos diferentes. Mas definitivamente adoro cinema, foi onde comecei, portanto aprendi logo outros tempos, outra calma, que não julgo a televisão por não podermos ter. Porque é um registo diferente e tens de saber ao que vens, tens de saber que se calhar não consegues repetir tantas vezes as cenas como gostavas. Mas que as pessoas também não vão ver tão atentamente como num filme, que acaba por ter uma hora e meia. Claro que as pessoas vão estar mais atentas a essa hora e meia do que vão estar a dez meses de novela. Muito sinceramente até me sinto mais confortável em cinema, porque tenho mais tempo para me preparar e só saio de lá se sentir que fiquei a 100 por cento, mas tenho consciência de que é um mercado mais complicado em Portugal. É uma coisa que gostava de tentar lá fora e tenho a certeza de que um dia me há de surgir a oportunidade certa, é só saber esperar. Mas pronto, por enquanto estou focada neste projeto, que ainda há de durar até ao verão e estou muito entusiasmada e agradecida pela oportunidade.

Tem feito castings ou self-tapes para projetos internacionais? Ou está no seus objetivos mas ainda não está a trabalhar ativamente para isso?
Olha, de eu me ter lançado lá para fora sem me terem pedido nada nunca fiz, até porque também não estou com tempo para me propor para grandes projetos. Mas este verão posso dizer que fiz alguns castings para fora e acho que a pandemia trouxe muitas coisas más, mas trouxe este lado bom aos atores. Intensificou-se cada vez mais o contexto das self-tapes, das reuniões por Zoom, e isso dá-nos uma oportunidade que não havia antigamente de podermos conhecer realizadores, produtores, diretores de casting, sem ter de estar a viajar nem abdicar de uma carreira e vida cá. Porque podemos estar paralelamente a fazer as coisas. E confesso-te que levei nãos, levei um grande “não” este verão de um projeto que queria muito fazer lá fora, mas lido muito bem com isso e acredito que as coisas têm que acontecer no seu tempo. E se eu levei este “não” agora é porque o “sim” certo está por chegar. Tenho a certeza de que vou trabalhar lá fora porque quero demasiado isso para poder passar ao lado, iria para sempre sentir-me incompleta. Mas não tenho pressa nenhuma, acho que vai chegar na altura certa.

Há algum género específico de cinema ou série que gostaria muito de fazer um dia?
É assim, tenho coisas dispersas que gostava muito de fazer. Eu adoro o mercado espanhol, desde nova que falo espanhol e sou completamente apaixonada pela cultura espanhola — eu só oiço música espanhola, viajo imenso — e como vês aqui ao lado em Madrid as grandes produtoras estão a fazer algumas das séries mais vistas no mundo. Porque não pensar e tentar a sério uma coisa que é aqui ao lado, que é o melhor dos dois mundos? Ter uma carreira internacional estando num país vizinho do nosso e que não teria de alterar assim tanto a minha vida. Depois, a nível de papéis e projetos em si, sempre tive o sonho de fazer uma grande vilã ou uma grande louca [risos], daquelas que deixam as pessoas a pensar se eu serei assim na vida real. E adorava que esse papel que tanto queria se juntasse ao meu sonho de ser num projeto em Espanha e de repente era o papel da minha vida e o melhor dos dois mundos juntos. E se calhar um dia surge [risos]. Eu acho que nós não escolhemos os papéis, os papéis acabam por nos escolher. Às vezes os melhores filmes que viste na vida não eram com o ator mais conhecido, era mesmo a pessoa que por algum motivo — até pode não ter tanto jeito para outros papéis — mas para aquele era a pessoa certa. E acredito que esse papel há de chegar um dia para mim.

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