Televisão

Khalil Abdalla, o revolucionário que mergulhou numa obsessão pela vida de Dodi Fayed

Filho de imigrantes egípcios, arriscou a vida na revolução de 2011. A decisão influenciou a preparação para “The Crown”.
Aos 43 anos, conquista o seu principal papel

Quando em 1997, o mundo soube da notícia da morte de Diana, a morte de Dodi Fayed foi remetida a uma nota de rodapé. Mais de duas décadas depois, encontrar registos de Diana revela-se um processo relativamente simples. Nem tanto no caso de Fayed, o que se revelou um desafio gigantesco para o ator que ficou encarregue de o recriar para a derradeira temporada de “The Crown”.

Se Elizabeth Debicki teve acesso a centenas de horas de imagens da ex-princesa, Khalid Abdalla viu-se forçado a fazer um trabalho extraordinário para criar na sua mente uma imagem de Dodi Fayed. A dupla é, aliás, o centro da narrativa na primeira parte da última temporada da série da Netflix que estreou a 16 de novembro.

Como é habitual, “The Crown” salta da realidade para a pura ficção, quando procura imaginar o que terá acontecido entre quatro paredes, quando as câmaras dos paparazzi não estavam a observar cada gesto, movimento ou expressão facial. Isso obrigou a que fosse criada uma narrativa: além do que Diana pensava, era igualmente importante perceber quais os motivos, intenções e sentimentos dos Al-Fayed, pai e filho.

Mas era preciso começar primeiro pelos elementos mais básicos. “Uma das primeiras perguntas que fiz foi: ‘Como é que era a sua voz?'” conta o ator britânico à “The Hollywood Reporter”. Em 1997, as redes sociais eram uma miragem longíqua, bem como os telemóveis sofisticados. Com poucos ou nenhuns registos, foi necessário empregar uma equipa para ir à caça de elementos.

“A incrível equopa de pesquisa da série encontrou um pequeno áudio dele, no programa do Larry King, quando ligou para falar com o Burt Reynolds a pedir que fizesse uma imitação”, recorda. “São apenas 17 segundos dele a falar.” Era tudo aquilo que tinha para trabalhar e teria de funcionar.

Depois teve que recorrer aos amigos e conhecidos do empresário egípcio, bem como a alguns artigos que foram publicados na imprensa. Nasceu assim o retrato de um Dodi atormentado pelo poder e intransigência de Mohammed Al-Fayed, sempre ansioso por agradar ao multimilionário, mas acima de tudo, ao pai.

Arriscar a vida pelo Egito

Apesar de ter nascido em Glasgow, Abdalla exige orgulhosamente a herança árabe. Filho de imigrantes egípcios, ambos médicos, nunca escondeu as raízes, além de se ter revelado como um ativista pelos direitos civis no país de origem dos pais. É talvez esse o principal motivo pelo qual trouxe à conversa a questão da morte de Fayed e forma como procurou representá-lo no ecrã.

Fayed, que estava longe de ser um homem comum, dada a sua fortuna pessoal e influência, passou no entanto a ser a tal nota de rodapé. E esse é um ponto de honra para Abdalla. “Quando pergunto a mim próprio, como homem que partilha a herança de Dodi, quantos filmes é que me lembro de ter visto onde as personagens árabes foram aprofundadas, amadas um pouco… E se morreram, houve um luto? Dificilmente me lembro de algum”, explica o ator de 43 anos.

“E quando começas a pensar em todos os [árabes muçulmanos] que foram mortos nas guerras que existiram durante o meu tempo de vida — só esse número, ao qual acrescem o meu pai e os meus avós —, percebes que isso diz muito sobre a nossa imagem cultural e política, sobre o que é transmitido nos dias de hoje. E isso é uma das coisas que me faz ter um imenso orgulho neste trabalho [em ‘The Crown’].”

Abdalla ganhou tração na indústria graças ao seu papel no filme de 2006, “United 93”, que retratou o voo terrorista que falhou o alvo no 11 de setembro de 2001. Abdalla ficou, naturalmente, com o papel de um dos terroristas. Participou também no filme “Green Zone” com Matt Damon, ou “The Kite Runner” — onde visitou, pelo menos ficticiamente, alguns dos mais importantes centros de conflito do Médio Oriente — mas, talvez mais importante, surgiu em nome próprio no impactante documentário de 2013 sobre a revolução egípcia que derrubou Mubarak, nos protestos da praça Tahrir, “The Square”. Abdalla esteve presente e arriscou a própria vida para ser um dos principais interlocutores da revolta.

Quando tudo indicava que a carreira poderia descolar, o britânico de raízes egípcias apanhou um voo para o Egito para se juntar ao elenco de um pequeno filme. Curiosamente, foi nessa precisa altura em que milhões de jovens saíram à rua para derrubar o regime ditatorial de Mubarak.

A participação na luta — Abdalla é uma das principais caras que o documentário “The Square” acompanha — prolongou-se durante vários anos, à medida que vitória após vitória ia sendo minada por outro sinteresses. A Mubarak, seguiu-se o opressivo regime militar, até que se lhes sucedeu a Irmandade Muçulmana e Mohammed Morsi. Contas feitas, o ator passou um total de seis meses a viver precisamente em Tahrir, revelava em 2013 ao “The Guardian”. Não esteve sozinho. A mulher acompanhou-o na vigília revolucionária, sendo que ambos participaram também na gravação e produção do documentário que conquistou o festival de Sundance e recebeu uma nomeação aos Óscares.

“Estava em Londres quando vi o que se passava. E no dia seguinte, na capa do ‘The Guardian’, estava a atriz que tinha feito de minha ex-namorada no filme que tínhamos acabado de gravar lá. Ela estava no chão, com a mão no ar, a confrontar a polícia”, recorda. Foi o suficiente para depertar o impulso solidário.

“Ele viajou para lá como um egípcio, mas o que senti mais profundamente foi que também o fez por ser filho do seu pai e neto do seu avô [que foram grandes críticos dos sucessivos governos ditatoriais]. Sei que pode soar melodramático, mas pensei que poderia nunca mais o ver”, contou Cressida Trew, esposa de Abdalla.

Abdalla esteve presente naquele que ficou conhecido como o Dia da Raiva. Dia em que, apenas pela força dos números, os manifestantes conseguiram atravessar a ponte Qasr el-Nil e retomar a praça Tahrir, não sem antes sofrerem várias baixas. Vários homens morreram ao lado do astor, recorda o próprio. Haveriam de conseguir demover Mubarak a deixar o poder, mas o cenário da luta sangrenta pela ponte e pela praça “viria a repetir-se vezes sem conta, ao longo de períodos mais longos de tempo”.

Esta luta foi também impulsionada pela vida que viveu, ele e outros milhões de árabes e muçulmanos a viver no ocidente numa era pós-11 de setembro. “Os ataques moldaram a minha vida. Tenho esta identidade múltipla, transnacional (…) Nesses dias, duas tragédias aconteceram: a primeira foi a morte de três mil pessoas; depois o facto de 19 terroristas terem morto três mil pessoas em nome de 1,2 mil milhões de pessoas, sobretudo com a figura de Bin Laden como mentor.”

Haveria de representar um desses mesmos terroristas no ecrã, sob as ordens de Paul Greengrass, com quem voltou a trabalhar em “Green Zone”. “Acho mesmo que ele é um dos melhores atores da sua geração”, atirou o realizador. Desde então, deixou de assumir esses papéis — que confessou sempre tentar nunca estereotipar, mas humanizar cada personagem — para se dedicar a outras andanças. Entre a passagem pela revolução, criou também o Mosireen, um coletivo que tinha como missão retratar a revolução.

Abdalla em plena revolução na Praça Tahrir

Talvez mais crucial, pelo menos no que toca à sua própria vida e carreira como ator, foi a perceção de que a sua participação como ativista e revolucionário teria de acontecer, sob pena de ver o seu trabalho desacreditado. Pelo menos aos seus próprios olhos. “Comecei a minha carreira incapaz de ver a minha cor. Mas formei-me na universidade em 2003, imdiatamente após a guerra do Iraque e o 11 de setembro. E os filmes [que fiz] têm me colocado a seguinte questão: serei capaz de assumir as responsabilidades que eles me colocam nas mãos?”, explicou em 2016.

“Passei os últimos 10 anos a interpretar árabes em Hollywood. Tinha o direito de o fazer, mas senti que não tinha direito de fazer carreira em cima desses papéis sem viver no mundo árabes (…) Não tinha o direito de assumir esses papéis sem participar na luta.”

De volta aos ecrãs

Em “The Crown”, Abdalla quis também ir além do retrato de Dodi habitualmente feito pela imprensa. “Comecei a desfazer o novelo de uma forma fascinante, quem ele era, as dinâmicas essenciais da sua vida, sobretudo a relação com o pai e com a mãe”, nota. “E depois descontróis a palavra ‘playboy’, que acho que lhe era colada de forma tremendamente injusta.”

“Ele era uma alma gentil e tímida, não era de todo um Hugh Hefner. Havia nele uma vulnerabilidade. Ele queria ser abraçado, queria reparar coisas. E acredito que teve relacionamentos onde se deixou apaixonar, onde era bom a fazê-lo, mas onde não era tão bom nas tarefas mais difíceis. E o que acontece é que quanto tens muito dinheiro, a palavra playboy acaba por ficar colada a ti.”

Não foi, contudo, isso que encontrou na pesquisa que fez por si próprio. Esses pequenos detalhes foram ajudando a criar uma imagem de Dodi que adaptou ao arco da narrativa da sexta temporada. “Sempre disse que o nosso trabalho não passa por encontrar respostas a questões; passa por fazer o máximo de perguntas da forma mais intensa possível. Mas nessa jornada vais acabar por encontrar coisas que te prendem, que te ligam.”

Todas essas idiossincrasias da personagem são reveladas, inevitavelmente, através do relato e da sua relação com Diana. E foi também aí que Abdalla foi buscar muito do seu material. “Uma das coisas que me chamou à atenção na relação dele com a Diana foram as imagens de vigilância do Ritz, onde é possível vê-los a segurarem as mãos de uma forma tão terna, durante sete longos minutos”, conta. “Seguravam as mãos por detrás das cosas de uma forma tão gentil, com carícias suaves. Havia uma dlicadeza… Havia ali paixão.”

Abdalla quis ir ainda mais longe nesta obsessiva pesquisa sobre as personagens. E fez algo que “ainda ninguém tinha feito”. “Arranjei toda as fotos dos dois que consegui encontrar e coloquei-as por ordem cronológica. E quando fazes isso, elas contam uma história e percebes: ‘Ah, foi naquele momento que as coisas mudaram’.”

Participou nas últimas duas temporadas de “The Crown”

O ator conseguiu também descortinar o momento em que o assédio dos paparazzi começa a tornar-se insuportável e a dar origem a desvios no curso normal da relação. “Mas o mais importante é mesmo encontrares aquela energia fundamntal. Há uma frequência que ressoa, que consegues explorar.”

Para lá de Diana e Dodi, há um terceiro elemento fulcral nesta primeira parte da temporada — e não, não é a rainha Isabel II. Mohammed Al-Fayed começou a ser retratado na quinta temporada, um self made man que veio do nada para conquistar o mundo empresarial.

Mas mais do que ser rico, Al-Fayed é revelado como um homem desesperado pela aceitação, não do pai, como Dodi, mas dos britânicos, do colonizador — embora tivesse nascido depois da independência do país em 1922, as tropas e a presença britânica fizeram-se sentir até à década de 50 e à crise do Suez.

É na potencial relação de Dodi com Diana que encontra a ferramenta para se aproximar finalmente da aceitação, da cidadania britânica, isto depois das tentativas frustradas de se imiscuir entre a realeza. Um detalhe explorado pela ficção de “The Crown” e por Abdalla, que manteve essa visão em mente durante o trabalho. “Ao fim de 26 anos após a morte, e apesar de ter sido uma figura pública — nas revistas, tabloides, nas prateleiras do supermercado —, as pessoas não sabem nada sobre ele. Isso é doloroso”, nota.

O ator mostra-se agora orgulhoso por ser uma das peças-chave nesta nova revisão da vida de Dodi. “Passados 26 anos, as pessoas vão conhecê-lo um pouco melhor e, espero, amá-lo um pouco. Ao fim de 26 anos, pode finalmente haver um luto.”

É essa forma de ver as coisas que Abdalla admite ter também percebido em Diana. “Havia qualquer coisa no olhar dela. Ela claramente apaixonava-se pelas almas das pessoas, não pela cor da sua npele. E, de certa forma, esse é o motivo pelo qual estou aqui”, diz. “Há uma energia que só algumas pessoas transportam, que conseguem transmitir. E acho que essa é uma das razões pelas quais as pessoas de todo o mundo a amavam.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT