Televisão

“La Casa de Papel”: nem com morfina isto lá vai

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini, faz a sua análise à primeira parte da 5.ª temporada da série espanhola mais famosa de sempre.
Ainda falta metade da temporada.

A primeira parte da 5.ª temporada de “La Casa de Papel” estreou na passada sexta-feira e eu — à quarta tentativa, depois de ter adormecido três vezes — consegui ver os cinco episódios. É certo que a minha narcolepsia de sofá acontece com a maioria das séries que vejo atualmente (filmes então é mesmo para esquecer), mas desta vez foi um pouco mais intenso.

É que entre os momentos de tiroteio exagerado e pirotecnia de fazer corar o Festival da Eurovisão e os momentos delicodoces, estilo anúncio de operadora de telecomunicações feat. videoclip dos Chainsmokers, foi muito duro acompanhar a ação do gang do macacão encarnado.

Era, sem dúvida, um dos regressos mais aguardados da rentrée televisiva e deixou na expetativa, milhares de fãs por todo o mundo quando, há cerca de um ano, o Professor parecia estar finalmente encurralado. Mas como qualquer pessoa que já tenha visto esta série, sabe, o sósia do Miguel Guedes, dos Blind Zero, não se deixa apanhar com tanta facilidade e tem sempre uma na manga. Até mesmo quando leva um tiro no pé e fica horas sem tratar o ferimento e a perder sangue, Sergio continua a ser capaz de dar indicações estratégicas aos seus companheiros e ainda tem discernimento para fazer um parto de emergência no chão do seu esconderijo, à pessoa que o alvejou.

Curiosamente, fez-me lembrar o nascimento do meu primeiro filho, porque a minha mulher é que estava cheia de dores mas eu é que ia desmaiando no momento da epidural, o que fez com que ela ficasse com vontade de me dar um tiro. Mas no final correu tudo bem — em ambos os partos — e o Professor pôde finalmente pôr um penso rápido no buraco do pé. 

Enquanto isso, no interior do Banco de Espanha “os queridos” remodelavam a decoração, com recurso a lança chamas, tiros de artilharia pesada e frango recheado com granada. Sim, acontece e não, não é o novo prato do chef Ljubomir.

É essencialmente isto que sucede durante metade da duração dos episódios desta última parte, sendo que a outra metade é ocupada com flashbacks sentimentais que davam um ótimo filme de promoção do Turismo de Lisboa, mas que são um bocado inverosímeis. A começar pela imagem da Tokio a andar de mota com o namorado na ponte 25 de Abril, com o pôr do sol em fundo. Sair de Lisboa à hora de ponta e a ponte quase sem trânsito? Subir o elevador da Bica, em época de Santos Populares e estão os dois completamente sozinhos dentro da carruagem? Era bom era, mas só mesmo em ficção.

“La Casa de Papel” é, de facto, uma obra de ficção, mas às vezes dá ideia que os autores abusam dessa premissa para ultrapassar os limites do razoável e isso faz com que, em alguns momentos, estas duas últimas temporadas pareçam um sketch de si próprias. Exceção feita, há que dizê-lo, às cenas em que matamos saudades de Berlim que continua a ser dos personagens mais carismáticos e não seria nada mau — digo eu — se viesse a transformar-se numa série spin-off.

Entretanto, no meio do caos, as coisas começam a descambar para os lados do gang: “mais morfina, mais morfina!”, grita Helsínquia depois de ter levado com uma coluna de mármore em cima das pernas; “Tokio, Tokio!” grita o Rio agarrado ao martelo pneumático enquanto tenta salvar a sua amada que está encurralada. “Aaaaaah” grita Estocolmo, que entretanto está a ter um surto psicótico ao ver um género de fantasma do seu ex, Arturito e conclui que o melhor é mesmo sacar a morfina do pobre coitado do sérvio e apanhar uma valente moca, para se abstrair de tudo o que está a acontecer ao seu redor.

E não era pouco, a protagonista estava prestes a morrer e apesar de ter levado 145 tiros no peito, Tokio ainda teve presença de espírito para ativar uma cinta de explosivos que tinha ao peito – e que milagrosamente resistiram aos 145 tiros – vingando assim a morte da sua amiga Nairobi, com uma explosão brutal que transformou o seu principal inimigo numa açorda de Gandia. Foi mais ao menos aqui que eu acordei, outra vez, e só tive tempo de gritar para a minha mulher: “mais morfina, mais morfina!”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT