Televisão

“The Liberator”: a nova série animada da Netflix que é obrigatório experimentar

Esta produção tem todos os elementos que nos levam a revisitar as histórias de heróis bem reais da Segunda Guerra Mundial.
Heróis e desenhos bem reais.

Raras vezes a animação nos pareceu algo tão cru e real. Demorou algum tempo até chegarmos aqui, mas não poderíamos ter chegado de melhor forma. Já lá vai um século desde que o visionário Max Fleischer patenteou a animação rotoscópica. O termo técnico pode assustar mas é algo que todos crescemos a identificar. Houve um tempo, nos primórdios do cinema, em que as primeiras animações pareciam coisas simplesmente desconjuntadas. A ideia podia ser boa, bem desenhada no papel, mas não era fácil passar algo assim para a tela (em movimento).

Foi então que Fleischer inventou um dispositivo que veio mudar tudo. O rotoscópio permitia desenhar sobre elementos reais. Foi assim que bonecos trapalhões deram lugares a sequências dinâmicas. Se já viu personagens do tempo de Betty Boop a dançar como seres humanos, é porque eram seres humanos a dançar que estavam na base do desenho.

A técnica evoluiu com o tempo, teve aplicações em videojogos, no cinema e na televisão. “A Scanner Darkly”, com Keanu Reeves, destacou-se pelo detalhe. A recente série “Undone”, da Amazon Prime Video, idem. Em “The Liberator”, encontramos a evolução tecnológica mais recente, o Trioscope. E é um regalo para os olhos.

A nova minissérie da Netflix, lançada a 11 de novembro, lança-nos no meio do nevoeiro, nos primórdios de uma odisseia de 500 dias, de Itália até ao campo de concentração de Dachau, na Europa ocupada pelos nazis. Embora relativamente curta, a tensão da cena inicial tem qualquer coisa de um “O Resgate do Soldado Ryan”. Mas a melhor referência aqui a ter em conta é “Band of Brothers” (“Irmãos de Armas”, no título em português), essa minissérie portentosa com selo de Steven Spielberg, Tom Hanks e da HBO, lançada há quase duas décadas.

Aqui vamos conhecer os Thunderbirds, uma companhia do Oklahoma que juntava cowboys americanos, nativo-americanos e mexicanos naturalizados. O mote é dado cedo: é um grupo de homens que não se poderia sentar num bar à mesma mesa no seu país natal mas que em 1943 aterrou na Europa pronto para lutar, e se fosse preciso para morrer, lado a lado.

Esta é uma história bem real contada em “The Liberator: One World War II Soldier’s 500-Day Odyssey”, livro escrito por Alex Kershaw que relatava o que aconteceu a estes homens. Jeb Stuart, argumentista de “Die Hard”, levou a história para o mundo da ficção. O projeto inicialmente até ia para o Canal História mas foi encurtado (de oito para quatro episódios), para economizar e permitir que visse a luz do dia. Esta técnica de animação impressiona pelo realismo mas consegue ser também dispendiosa. Felizmente, “The Liberator” encontrou um abrigo seguro na Netflix.

11 de novembro: “The Liberator”, Netflix
“The Liberator” já está disponível na Netflix.

O elenco inclui nomes como Bradley James, Martin Sensmeier, Jose Miguel Vasquez ou Michael Shaeffer. São eles os rostos e corpos por trás do trabalho de animação. São eles que integram esta companhia liderada por Felix Sparks (Bradley James), o capitão que conseguiu fazer daqueles homens um grupo capaz de deixar a sua marca no conflito mais importante da história da Humanidade.

Na história da ficção americana, a derrota dos EUA na Guerra do Vietname inspirou algumas das mais sombrias e brutais criações. De “Apocalypse Now” a “Nascido para Matar”, aquela tem sido a guerra que serviu de referência para retratar o lado mais traumático, violento e perturbador de um cenário de guerra. Para os EUA, o Vietname tornou-se um conflito absurdo e humilhante. Aqueles veteranos não foram recebidos como heróis, durante anos não era sequer matéria dada nas escolas.

A vitória contra os nazis na Europa, no entanto, tem permitido o outro lado. Não foi apenas pela vitória mas contra quem foi, e a ameaça que representaram para o mundo. A Segunda Guerra Mundial tem permitido também algumas das criações mais interessantes sobre este lado dos homens que tiveram de ser heróis em situações extremas.

Talvez nenhuma série tenha encapsulado isto tão bem como “Band of Brothers”. Estava ali a união entre homens, fosse nas ruínas de uma casa, numa estrada no meio do nada ou num buraco na neve. Aqueles homens lutavam contra algo mas acima de tudo faziam-no pelo colega do lado. Era uma questão de camaradagem, de juntos serem maiores do que o que seriam individualmente.

“The Liberator” segue esta segunda tradição. Podemos esperar conversas sobre o que é a coragem, não como ideal vago mas como ferramenta útil quando o dia a dia é violento e a morte está sempre por perto. Podemos esperar sacrifícios, perdas e conquistas. Tudo isto pontuado por cenas carregadas de tensão e ação em pleno combate. A ideia é que aqueles homens, independentemente de onde vinham, tinham chegado ali juntos e só podiam sobreviver à guerra juntos. Foi assim que lutaram. Foi assim que fizeram a sua parte para que os nazis fossem derrotados. É assim que os vamos ver em “The Liberator”.

Os quatro episódios de cerca de 45 minutos da minissérie já estão disponíveis na Netflix.

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