Televisão

LSD, prisão e suicídio. A vida louca do autor que inspirou a nova série da Netflix

Se os loucos anos 60 tivessem um embaixador, ele seria Ken Kesey, autor da obra que inspirou "Ratched" e "Voando Sobre um Ninho de Cucos".

Da próxima vez que ouvir a expressão que a vida de alguém dava um filme, esta é a pergunta que tem de fazer: seria tão bom como o de Ken Kesey? Spoiler alert: provavelmente não.

Por trás da loucura, por vezes esconde-se um misto de amor e genialidade. Ken Kesey é o autor do livro que inspirou o clássico “Voando Sobre um Ninho de Cucos” e a assustadora enfermeira que agora surge em nome próprio na série “Ratched”, que estreou na sexta-feira, 18 de setembro, na Netflix.

A série é uma espécie de prequela de “Voando Sobre um Ninho de Cucos”. Sarah Paulson assume o papel da opressiva enfermeira Ratched num elenco onde se contam ainda Sharon Stone, Judy Davis, Cynthia Nixon, Vincent D’Onofrio, entre outros. Mas para conhecer o estranho mundo da série, é necessário mergulhar na vida louca do autor.

Na era dos hippies, dos frios soviéticos, das drogas e da música que marcaria as gerações seguintes, Kesey esteve em tudo e fez de tudo. Pelo meio, tornou-se um escritor de mérito próprio, capaz de influenciar outros artistas e de contar com gente como Jack Kerouac e Allen Ginsberg entre o seu círculo mais íntimo.

Curiosamente, tudo começou num ambiente rural no Colorado. Filho de agricultores, foi através do seu talento para o futebol americano que Kesey conseguiu uma bolsa para a Universidade de Oregon, em 1953. Quando lá chegou, trocou o desporto de equipa pelo wrestling e por pouco não chegou à equipa olímpica — foi afastado por uma lesão no ombro.

A universidade, ainda assim, foi muito proveitosa. Começou a escrever o seu primeiro livro, que nunca chegou a ser publicado, e que falava de um jogador de futebol americano explorado pela universidade. E foi lá também que reencontrou a sua paixoneta do sétimo ano, Faye. Começaram a namorar, casaram e viveram juntos a vida toda, com três filhos pelo meio. Ken ainda teve um quarto filho, cujo padrasto era membro dos Grateful Dead, mas já lá vamos.

Quando saiu da faculdade, em 1960, começou a escrever aquele que seria o seu primeiro livro publicado: “Voando Sobre um Ninho de Cucos”. O livro inspiraria o filme de Milos Forman de 1975, que acabou por vencer cinco Óscares, incluindo o de melhor filme, melhor ator, para Jack Nicholson, e melhor atriz, para Louise Fletcher (no papel da tal enfermeira dos demónios).

A década da loucura

O livro foi editado em 1962 e foi um sucesso comercial e da crítica. Antes, para ir pagando as contas, Ken inscreveu-se como voluntário para testes científicos, envolvendo experiências com alucinogénios como LSD e mescalina. O gostinho pela coisa ficou.

Estávamos em 1964 quando Ken Kesey fundou já na Califórnia os Merry Pranksters, um grupo entre hippies e intelectuais que o seguia como mentor. O grupo foi uma das presenças regulares em casa do autor. Era uma vida em modo de comuna que abriu caminho às Acid Tests

Estas Acid Tests eram festas onde o LSD e as ideias abundavam, juntando artistas e amigos em espírito livre, partilhando ideias e criações. Os Grateful Dead estavam entre as presenças habituais — e eram visita frequente na casa de Kesey e da mulher. A vida social preenchida, no entanto, não o afastou das letras. O seu segundo livro,“Sometimes a Great Notion”, foi lançado em 1964, e inspiraria “Os Indomáveis” (1971), filme realizado e protagonizado por Paul Newman que seria nomeado a dois Óscares.

Uma vida especial.

No ano seguinte, as coisas deram uma volta rocambolesca. Em 1965, Kesey foi detido por posse de marijuana. Numa tentativa de enganar a polícia, os seus amigos dos Merry Pranksters ajudaram-no a simular o suicídio, ao deixarem a sua carrinha junto a um desfiladeiro, juntamente com uma nota de despedida. Kesey fugiu para o México e quando voltou a casa, no ano seguinte, teve mesmo de cumprir pena por posse de drogas e por ter simulado a própria morte.

Em 1966, quando saiu da cadeia após uma pena de meio ano, já tinha nascido Sunshine Kesey. Com a sua Faye, Kesey teve três filhos, Jed, Zane e Shannon. Com o consentimento da sua mulher, Sunshine foi a filha que o escritor teve com a amiga e membro dos Merry Pranksters Carolyn Adams. Sunshine seria educada por Carolyn e pelo padrasto, Jerry Garcia, guitarrista e líder dos Grateful Dead.

A estátua em sua homenagem.

Após a cadeia, Kesey e a mulher voltaram para Oregon para viver numa quinta até ao fim dos seus dias. Os anos psicadélicos ficavam para trás. Na década seguinte, continuou a escrever ensaios, poemas e artigos para revistas como a “Esquire” e a “Rolling Stone”.

Em 1984, o seu filho Jed, então com 20 anos, e que tinha seguido as pisadas de wrestler do pai, morria num acidente no autocarro escolar. Revoltado, Kesey escreveu um texto ao governador de Oregon, lembrando que uma pequena parte do dinheiro que os EUA investiam em armas podia ter sido usada para ter cintos de segurança nos autocarros.

Nos anos 90, com a chegada da Internet, o autor juntou-se a alguns antigos membros dos Merry Pranksters e foi lançando mais textos, agora online. O seu último texto, no entanto, foi escrito para a “Rolling Stone”, um ensaio escrito pouco após o ataque às Torres Gémeas de 2001.

Enquanto o seu país se preparava para anos infindáveis de guerra no Médio Oriente, Kesey deixava um apelo à paz. Um último gesto de um homem que, com tudo o que fez e lhe aconteceu ao longo da vida, sempre se manteve fiel aos seus: a mulher, os filhos e os amigos.

A 25 de outubro de 2001, Kesey foi operado a um tumor no fígado. Nunca chegou a recuperar da operação. Morreu a 10 de novembro daquele ano. Tinha 66 anos. A praça central de Eugene, a pequena localidade no Oregon perto de onde o casal viveu, tem agora o seu nome. É lá também que está uma estátua a comemorar o autor que viveu os anos 1960 como poucos.

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